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LITERATURA

Triste Fim de Policarpo Quaresma

Marginalizado social e literariamente em vida, Lima Barreto consagrou-se com o quixotesco e nacionalista personagem


Bravo

01/08/2008 16:36

Texto
Daniel Schneider e Thiago Minani

Foto: Lula Rodrigues
Marechal Floriano Peixoto

Marechal Floriano Peixoto, a maior desilusão de Policarpo após a Revolta Armada

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Lima Barreto não conheceu notoriedade em vida. Foi preciso que o tempo lhe fizesse justiça. Triste Fim de Policarpo Quaresma, sua obra mais famosa, publicada em forma de folhetim (1911) e depois em livro (1915), se consolidou como um clássico porque nasceu de um lance de gênio e traduziu os impasses do Brasil de seu tempo. No romance, o major Policarpo Quaresma vive de idealismos nacionalistas. A primeira parte relata sua vida como um funcionário público que vive em seu gabinete cercado de livros, alimentando uma imagem distorcida do país; a segunda, como proprietário rural, em que percebe que as terras brasileiras não eram férteis como imaginava e que as saúvas são arrasadoras para as plantações; e a terceira, como soldado voluntário na Revolta da Armada, em 1893, quando se decepciona — em capítulo antológico — com o seu idealizado marechal Floriano Peixoto. Ao criticá-lo, é preso. Quando Quaresma se dá conta da própria postura quixotesca, está prestes a ser executado pelo Exército. Quaresma queria basicamente três reformas: da cultura, da agricultura e da política, mas não consegue nenhuma. Seu sonho mais singular foi o de oficializar o tupi-guarani como idioma brasileiro.

Certas desventuras e desencantos do protagonista poderiam até ser vistas como as do próprio autor, mas seu brilhantismo neste romance específico passa ao largo da autobiografia. Lima Barreto nasceu em 1881, no Rio de Janeiro, cidade onde faleceu em 1922. Filho de mestiços, Lima Barreto carregou problemas ao longo da vida. Além do preconceito racial de que foi vítima, ficou órfão de mãe aos 7 anos e mais tarde viu o pai enlouquecer; tendo de amparar a família, não conseguiu terminar o curso na Escola Politécnica. Enfrentou depressão e alcoolismo e foi internado duas vezes no Hospício Nacional. As motivações ficcionais de Barreto deveram-se antes a um intelectual combativo que, também marginalizado no meio literário, expressava as contradições de uma sociedade que ainda vivia a transição da monarquia para a república. A ironia do escritor levou parte da crítica a aproximá-lo de Machado de Assis no retrato sarcástico desse momento histórico.

Triste Fim de Policarpo Quaresma se insere no Pré-Modernismo brasileiro pela forma e temas que desenvolve. A rejeição de Barreto ao eruditismo e ao rebuscamento estilístico se explica como uma postura de oposição à chamada elite literária; com isso, seu coloquialismo antecipava características modernistas. A "apresentação pitoresca de costumes", como aponta Antonio Candido, se filia também ao humor que a Semana de 22 defenderia.

Segundo ainda este crítico, as obras de Lima Barreto são dirigidas contra o pedantismo, a falsa ciência, as aparências hipócritas da ideologia oficial. Exemplar desses temas é seu famoso conto O Homem que Sabia Javanês (1916). Escreveu também os romances: Recordação do Escrivão Isaías Caminha (1909), Numa e Ninfa (1915), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Os Bruzundangas (1922), o livro de contos Histórias e Sonhos (1953) e o de memórias O Cemitério dos Vivos (1953), sobre sua passagem pelo hospício. Colaborou intensamente na imprensa com crônicas e artigos, em que tratou impiedosamente da cultura, da política e dos costumes do Rio de Janeiro. 

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