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LITERATURA

Vidas Secas

"Obra Desmontável", o livro de Graciliano Ramos consagrou-se como uma das melhores produções do regionalismo brasileiro e conciliou objetividade e comiseração


Bravo

01/08/2008 18:31

Texto
Daniel Schneider e Thiago Minani

Foto: Divulgação
Foto: Cena do filme Vidas Secasdos

Cena do filme "Vidas Secas", Nelson Pereira dos Santos.

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Uma família de retirantes se lança contra o sertão nordestino em busca de uma vida melhor na cidade grande. A história poderia se tornar um drama de apelo emocional imediato, mas recebeu de Graciliano Ramos (1892-1953), alagoano da cidade de Quebrangulo, o tratamento literário que o tornou o maior prosador do regionalismo da chamada Geração de 30 do Modernismo brasileiro. Seus personagens, Fabiano, Sinhá Vitória, os dois filhos (“o menino mais novo” e “o menino mais velho”), a cachorra Baleia e um papagaio, são caracterizados como criaturas em constante embate com o meio, hostil e degradante.

Dividido em 13 capítulos independentes, que não apresentam ligação formal entre si, apenas temática, Vidas Secas (1938) chegou a ser chamado por Rubem Braga de “romance desmontável”. Assim, há capítulos intitulados como Mudança, Cadeia, Festa, O Soldado Amarelo, O Mundo Coberto de Penas. Graciliano começou a conceber o livro depois de escrever Baleia, inicialmente um conto publicado em jornal, que foi bem recebido. Mas, referindo-se a esse texto, Graciliano escreveu à mulher: “O conto que terminei ontem é uma estopada que nenhum leitor normal agüenta”. A declaração, injusta, pode ser vista como a conseqüência natural de um escritor rigorosamente avesso ao sentimentalismo. Embora o capítulo esteja longe de sofrer disso, graças à forma que Graciliano emprega, a força imagética da agonia de uma cadela e de seu sacrifício sensibiliza o leitor. Para o crítico Álvaro Lins, em Vidas Secas o autor “se mostra mais humano, sentimental e compreensivo, acompanhando o pobre vaqueiro Fabiano e sua família com uma simpatia e uma compaixão indisfarçáveis”.

Graciliano foi maior que seus contemporâneos porque preferiu a síntese ao expositivo, o psicológico ao social. Nas palavras do crítico Antonio Candido, “achou a condição humana intangível na criatura mais embrutecida”. A aversão ao desleixo formal distanciou Graciliano de certa corrente modernista. Na técnica, o escritor firmou-se como herdeiro do realismo psicológico machadiano. Por um lado, o cunho social de Vidas Secas lhe garantiu afinidade com outros preceitos da Semana de Arte Moderna de 1922, que descrevia a realidade do país tornando protagonistas certos tipos brasileiros. Por outro lado, Graciliano encontrou insatisfação entre companheiros políticos. Teve inúmeros atritos com membros do Partido Comunista (ao qual, apesar disso, ele mesmo viria a se filiar em 1945), que viram como negativa a atitude “subserviente” de Fabiano ao ser preso pelo soldado amarelo, personagem-alegoria do Estado. Mas Graciliano não se rendeu às críticas e manteve sua prosa a salvo do discurso pobre que servia de base à literatura engajada.

 


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