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ENTREVISTA

Anselmo Vasconcellos: "Educar é amar! Não impor, e sim dialogar com igualdade"

O ator e educador relembra os anos no colégio e faz uma reflexão sobre a importância do ensino mais livre na vida e na cultura dos jovens


29/10/2010 14:45
Texto Alessandro Lo-Bianco e Rose Delfino
Tititi
Foto: Maurício Melo
Foto: Anselmo Vasconcellos
Anselmo Vasconcellos: "Aprendam e reaprendam com os filhos que são o futuro, o amanhã!"

"Agradeço aos professores, coordenadores, inspetores e diretores que me ensinaram, suspenderam das aulas e me expulsaram dos colégios. Tive muito o quê pensar, refletir e mudar." Com esta frase, o ator Anselmo Vasconcellos expressa, não sem certa ironia, o turbilhão de sentimentos que tomaram conta dele no tempo de escola.

Certamente, os bons mestres têm um pouco de responsabilidade pelas conquistas do artista. E olha que não são poucas: Anselmo já fez oito novelas, quatro minisséries e 42 filmes, inclusive O Carteiro, dirigido por Reginaldo Faria, que será ser lançado em breve. Isso, além de diversas participações em especiais e humorísticos da TV. Atualmente está no ar com o personagem Pai Pedro no Zorra Total, da Globo. Além disso, continua a todo vapor no teatro, supervisionando a montagem de A Cantora Careca e dirigindo Navalha na Carne.

E mesmo com a agenda cheia, Anselmo se sente cada vez mais motivado e alegre por lecionar teatro em uma escola pública, no Rio.

Nesta entrevista, o artista e professor relembra sua infância no colégio, analisa a educação e faz uma reflexão sobre a importância do ensino humanizado para a formação de pessoas mais livres e felizes. Confira!

Para ler, clique nos itens abaixo:
Como foi educado? Passou por muitas escolas?
Anselmo Vasconcellos - Estudei em escolas públicas municipais e estaduais do Rio de Janeiro e sempre fui um aluno inquieto, com muitas perguntas que não foram respondidas. Naquela época, eu me debatia com o ensino padronizado e percebia intuitivamente que não me era ensinado a aprender, e sim a decorar conceitos padronizados.
Era um ensino mais rígido.
Sim e ultrapassado, aplicado por professores autoritários e nada atenciosos aos alunos questionadores. Fui mal compreendido e minha inquietação me rendia castigos disciplinares. Uma vez aconselharam meus pais que eu fosse submetido à terapia com eletrochoques.
E aí, experimentou outras escolas?
Sim, e a base que adquiri vem da educação recebida no Colégio de São Bento do Rio, onde fui bolsista do ginásio (ensino médio), por pedido de minha irmã, que era professora de artes da instituição. Lembro do atendimento generoso de Don Lourenço, reitor na época. Lá, excelentes professores me fizeram conquistar o que eu havia perdido por não me adaptar aos colégios públicos.
Que lembrança boa guarda daquela fase?
A descoberta dos livros! Um especialmente me fez sonhar. Chamava-se Liberdade Sem Medo, de A. S. Neill, pensador, educador e criador da Escola Experimental Summerhill na Inglaterra. Essa obra despertou em mim a enorme vontade de iluminar minha ignorância e trabalhar por outro tipo de ensino e aprendizagem.
De que maneira?
Aprendi a aprender. Nunca desisti deste prazer e ele cresce continuamente dentro de mim. Lembro-me também das experiências praticadas no Colégio Estadual Andre Maurois, aqui no Rio, que atendiam a estes preceitos de romper com o ensino padronizado. Esta escola foi um marco na cidade.
Como desenvolveu a vocação artística?
Fui atrás de muitas fontes de saber e conhecimento. Procurei visitar museus e outras escolas, participei de cursos em bibliotecas públicas e em um deles estudei com Maria Clara Machado (escritora, fundadora da escola de teatro Tablado, falecida em 2001). Lembro-me de A Casa do Estudante, onde conheci a doce figura de Paschoal Carlos Magno (dramaturgo que renovou o teatro brasileiro e nos deixou em 1980). Frequentei o Teatro Experimental da PUC, do qual depois viria a participar como ator.
Você sempre pensou em ser artista?
No início dos anos 1970 me preparei para o vestibular de Medicina, que era minha eterna pretensão, até conhecer uma professora de português, chamada Margarida. Ela propunha o teatro como extensão cultural e, num impulso declarei a ela que fazia teatro. Ela pediu para assistir a uma apresentação minha. Foi aí que tomei a iniciativa de escrever, produzir e interpretar uma peça teatral, coisa que jamais tinha feito. Segui o que ali se manifestou, a fonte intuitiva da qual jamais me distancio.
Em sua opinião, o que deveria ser feito para melhorar as escolas brasileiras?
Deveríamos repensar a educação criando observadores e pensadores. Como alguém pode estudar sem conhecer filosofia? Esse conhecimento foi banido das escolas! Filo vem de amizade em grego, e Sofhia de saber. Portanto um filósofo é um amigo do saber.
O que o colégio precisa ensinar além das matérias tradicionais?
Aprender a aprender! isso é o que uma escola deve propor... Ter por base construir o conhecimento. Propôr conversações sobre como o mundo nos atinge, as origens de nossas civilizações e suas transformações. A biologia cultural, o habitat humano, alimentando e desenvolvendo as mentes pela expansão contínua do crescimento. Tudo sempre com amor e divertimento.
Um pouco mais de cultura, então?
O colégio, a escola e os educandários devem ensinar cultura, sim! Como ela se origina, o que devemos transformar e como o poder a manipula. Como as civilizações se estruturam socialmente e o que significa contestá-las... Deveriam fornecer tempo e espaços para a contemplação, pois brincar é criar. Brincar é a maior fonte de pesquisas, como disse o mestre de educação e pensador suiço Jean Piaget (1896-1980). Dizem que se deveria ensinar a "especular" desde a infância. Aprender economia em exercícios e simulações, por exemplo. Trabalharmos também o corpo e dar a ele condições para se desenvolver, através de relações dinâmicas e sensíveis como o teatro.
É a escola ideal.
Isso, uma escola deve ser viva, seu filho tem que estar com vontade de correr para ela. Os gregos criaram espaço abertos para estudar o Universo. Havia um bosque cujo nome era uma homenagem a um herói grego, chamado Academos. Eles se reuniam ali para conversar, trocar informações e aprender a especular sobre a natureza e a vida. Tais pessoas ficaram conhecidas como acadêmicos, e vem daí a ideia de academia.
Qual seu envolvimento hoje com a educação e o ensino?
Trabalho na Escola Estadual de Teatro Martins Pena, no Rio, desde 1988. Todos estes anos formamos estudos contínuos, desejos de aprender o que já foi feito, o que se está renovando e o que vai nascer. É através da educação que me encontro com pessoas das mais variadas idades e classes.
Dá pra perceber que tem grande satisfação em ensinar!
Juntos, dinamizamos a inteligência coletiva com muita simplicidade, companheirismo e afeto. É desta forma, por meio da cultura, que aprendemos com a observação a desarmar o medo imposto pela formação colonial e pela religiosidade autoritária e corrupta. Trabalho também promovendo workshops pelo Brasil. Recentemente, percorri a serra gaúcha a convite do Sesc, do Rio Grande do Sul. Estou sempre atendendo a convites para palestras e oficinas.
Chegou a dirigir a escola por um período, não?
Fui diretor eleito de 1988 a 1990. Uma geração se formou ali. Experimentamos muito, mudamos as coisas. Fizemos teatro, na prática. Tenho a alegria de trabalhar profissionalmente com alunos que se formaram naquela época e são meus colegas hoje.
Como educador e artista, que recado pode dar aos pais?
Educar é amar! Não impor, e sim dialogar com igualdade. Os pais precisam revisar o próprio conceito de ser pai e mãe. Saber que a nossa experiência não é superior ao novo que eles (os filhos, as crianças, os jovens) representam. Aprendam e reaprendam com os filhos que são o futuro, o amanhã!

 

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