Aos 50 anos, Bernardo Rezende, ou apenas Bernardinho, é um dos ícones do esporte brasileiro. Ele foi um dos jogadores da geração de prata do vôlei, que se destacou na década de 80. Encerrada a carreira como jogador, começou a atuar como técnico, conquistando títulos tanto com a seleção feminina como com a masculina, que comanda desde 2001. Conhecido por suas habilidades como líder, é autor de livros como Transformando Suor em Ouro e Cartas a um Jovem Atleta. Hoje é ainda presidente do Instituto Compartilhar, que tem como objetivo principal promover o desenvolvimento humano através do esporte.
Bernardinho é pai de Bruno, 23 anos, levantador da seleção brasileira de vôlei, Julia, 8 anos, e Vitória, 5 meses. Ele conta que, por causa da sua rotina como treinador, escritor e presidente do Insitituto, não participa tanto quanto gostaria da vida escolar de Julia. "Neste ano, mais uma vez eu não vou conseguir ir à apresentação de quadrilha na festa junina. Eu tenho uma viagem com a seleção brasileira, mas vou tentar ir a um ensaio antes de viajar. No ano passado, eu estava em Brasília na época e tentei até alugar um avião para assistir à apresentação no Rio, mas acabei não conseguindo", conta ele.
Na entrevista a seguir, Bernardinho fala sobre a importância que os estudos tiveram na sua vida, sobre o seu trabalho no Instituto Compartilhar e conta como conseguiu conciliar os estudos com o esporte - ele é formado em Economia pela PUC-RJ. "Nos anos 80, não tinha nada a distância, internet, nada disso. Eu ia para a faculdade, pegava cadernos emprestados, fazia cópias, levava livros para as viagens. Era a alegria da copiadora da faculdade", lembra ele. Leia a seguir a entrevista.
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- Como foi a sua vida escolar?
- Bernardinho: Eu passei a infância no Rio de Janeiro e estudei no Colégio Andrews, que é uma escola muito tradicional. Estudei lá desde o antigo primário até o vestibular. Fiz grandes amizades. Foi uma ótima escola de preparação e desenvolvimento de relações. Depois, fiz faculdade de Economia na PUC-RJ, que também foi muito importante para a minha formação.
- Você era um bom aluno?
- Bernardinho: Sim, era um bastante estudioso. Sempre tirei notas boas. Prestava muita atenção nas aulas.
- Quais eram as suas matérias preferidas?
- Bernardinho: Eu tive muitas fases e acho que isso também depende muito do professor. Tive alguns professores interessantes de Matemática, Geografia, Química e História. Então houve uma alternância de preferências, muito em função dos professores, pela forma como eles conduziam as aulas, pelas relações que estabeleciam com os alunos.
- Qual foi o seu professor mais marcante?
- Bernardinho: Tive alguns professores muito interessantes na escola. Teve o professor Lula, de História, que tinha um gosto muito grande pelo esporte. Além das aulas de História, ele nos levava para fazer esporte. Ele gostava muito de vôlei. Também teve o professor Sette, de Matemática, e a professora Penha, de Química. Foram ótimos mestres, cada um com o seu estilo. Na faculdade, também tive grandes professores, como André Lara Rezende, Paulo Guedes e Edward Amadeo. São profissionais que, por meio da sua competência, me fizeram apreciar a matéria. O fato de eu ter me formado em Economia com prazer e com notas tão boas deve-se muito à competência e ao interesse que esses professores geraram em mim.
- Como surgiu o seu interesse pelo esporte?
- Bernardinho: Eu comecei a jogar vôlei aos 11 anos. Eu tinha um vizinho um pouco mais velho que jogava no Fluminense. Eu e meus irmãos fomos levados por ele para fazer uma aula experimental no clube. Lá, nós conhecemos o nosso primeiro treinador, o Bené. Foi um tremendo professor e uma pessoa que fez uma diferença enorme na minha vida. Na minha e de tantos outros jovens. Ele foi o primeiro treinador de muitos dos jogadores da geração de prata, como Bernard, Badá, Fernandão. Além de descobridor de talentos, ele era um grande motivador de pessoas de uma forma geral, um cara fantástico.
- É possível conciliar os estudos com o esporte?
- Bernardinho: Não é fácil, claro. Nos anos 80, não tinha nada a distância, internet, nada disso. Eu ia para a faculdade, pegava cadernos emprestados, fazia cópias, levava livros para as viagens. Essa era a minha rotina. Eu brinco que eu era a alegria da copiadora da faculdade. Eu ia lá e gastava quase tudo o que eu ganhava com cópias, para poder acompanhar. Também contava muito com a boa vontade dos professores na questão da segunda chamada, porque eu tinha muitas viagens com a seleção brasileira. Mas acho que é sempre possível. Eu ouço muitos jovens dizendo que não dá, por causa dos treinos, das viagens. Mas acho que hoje é mais possível do que era na época, em função das facilidades que temos. É possível usar a internet para pegar a matéria, fazer tudo a distância. É uma questão de estar disposto a fazer o sacrifício e investir nisso. É algo que ninguém deveria deixar de fazer. Não precisa se formar em quatro ou cinco anos. Uma alternativa é fazer de uma forma mais lenta, menos matérias.
- Qual é a importância do esporte para a Educação?
- Bernardinho: Eu acho que o esporte, assim como as artes, é uma ferramenta muito interessante no processo de Educação como um todo. Quando se pratica um esporte, exerce-se uma série de valores. Entre eles, disciplina e comprometimento com o objetivo coletivo. Tem a ver com socialização, cooperação, solidariedade. O esporte é muito importante no processo de Educação como um todo. E tem outro ponto interessante. O esporte é uma atividade de paixão. Muitos jovens que estão afastados do processo de Educação demonstram vontade de praticar um esporte. É possível seduzir pelo esporte. É uma ferramenta de inclusão muito interessante. Você traz o jovem para um processo de Educação formal, você consegue recolocá-lo, estimulá-lo. O esporte e as artes têm essa capacidade.
- O esporte desenvolve quais habilidades?
- Bernardinho: O esporte desenvolve uma série de habilidades e competências. Eu tenho conversado com muitos empresários e líderes. Muitas das pessoas com as quais eu interajo tiveram experiências interessantes no esporte e dizem que o esporte as ensinou a perseverar nas situações de dificuldade, a entender as crises como um desafio. Na vida privada, no mundo corporativo, você vê situações dessa natureza muitas vezes. Ou seja, é importante saber tomar decisões sob pressão. O esporte treina, condiciona, faz vivenciar essas situações.
- Como é a Educação dos seus filhos?
- Bernardinho: O Bruno foi alfabetizado na Itália, porque nós morávamos lá na época. Voltamos para o Rio de Janeiro quando ele tinha 7 anos e ele foi estudar na mesma escola em que eu estudei, o Andrews. Era bom aluno. Depois ele estudou em Campinas e entrou para a faculdade de Administração, na PUC de Campinas. Ele acabou se mudando para Florianópolis em função da profissão. A Julia também é uma aluna muito interessada. Ela faz cursos paralelos e esporte, mas não está jogando vôlei. Faz tênis e natação. Procuramos deixar o esporte e a questão da capacitação lado a lado, para que ela possa escolher o caminho dela. É importante que ela conheça os caminhos, possa escolher e esteja apta a trilhar o que escolher.
- Você costuma frequentar a escola da Julia?
- Bernardinho: Infelizmente, eu sou um pai um pouco ausente. Já estive em algumas reuniões, mas não sou eu quem mais vai, por causa da minha rotina. Quem vai mais é a Fernanda [Venturini, ex-jogadora de vôlei], minha esposa. Neste ano, mais uma vez eu não vou conseguir ir à apresentação de quadrilha na festa junina. Ela está revoltada com isso. Eu tenho uma viagem com a seleção brasileira, mas vou tentar ir em um ensaio antes de viajar. No ano passado, eu estava em Brasília na época e tentei até alugar um avião para assistir à apresentação no Rio, mas acabei não conseguindo.
- Qual é a sua opinião sobre a Educação no Brasil?
- Bernardinho: Muito fraca. Eu diria que foi boa décadas atrás, caiu para regular e hoje está abaixo da média. Eu acho que isso tem a ver com o pouco estímulo e a pouca preparação dos professores. A Educação certamente está muito aquém daquilo que um país como o Brasil merece e precisa. Assim como a Saúde, a Educação é uma área fundamental para o desenvolvimento de qualquer país. E nós estamos mal nesse quesito.
- O que pode ser feito para melhorar a Educação do Brasil?
- Bernardinho: Você tem primeiro que criar estímulos, para que as pessoas abracem de novo a causa. A minha avó foi professora de escola pública. Era uma pessoa que tinha muito conhecimento. Mas as pessoas hoje não optam por essa carreira. São poucos os sonhadores e idealistas que optam por isso, porque os estímulos são muito pequenos. Os salários são baixos, a realidade das escolas é muito difícil. Tudo isso complica. Então é preciso criar estímulos de todas as formas, para que as pessoas abracem isso como uma oportunidade bacana e se capacitem. Estamos vivendo um problema muito sério na Educação. Embora tenha aumentado o número de atendidos, a qualidade é muito baixa.
- Você gosta de ler?
- Bernardinho: Muito. Gosto de ler um pouco de tudo. E também de escrever, claro. Por conta disso, eu estou muito envolvido com o mundo editorial. E gosto demais disso. Então eu leio muito, tenho uma biblioteca muito ampla. E grande parte dela é em inglês, porque há poucas publicações em português na área do esporte, de projetos esportivos, na área de treinamento. Eu tenho desde best-sellers até livros sobre a história mundial. E gosto muito de biografias também, tanto de grandes esportistas como de personalidades em geral. São sempre histórias interessantes que falam de trajetórias e projetos reais de vida. Uma boa ficção também é interessante para esquecer os problemas do dia a dia, mas eu gosto mais de livros de não ficção, particularmente biografias. Recentemente gostei muito do livro "The Blind Side", que inspirou o último filme da Sandra Bullock, "Um Sonho Possível".
- Qual é o objetivo do Instituto Compartilhar?
- Bernardinho: A ideia é promover o desenvolvimento humano através do esporte. Queremos levar a prática esportiva a comunidades que não têm essa oportunidade, seja em escolas públicas seja em comunidades carentes. Capacitamos e motivamos professores, estabelecemos uma metodologia e cobramos que eles eduquem os alunos, além de treiná-los. Temos núcleos espalhados pelo Brasil inteiro: Rio Grande do Norte, Paraná, São Paulo, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro.