Conversar com o cantor e compositor pernambucano Otto é como fazer uma viagem pelo mundo da cultura. Ele fala de literatura, cinema e música com tamanha naturalidade que todas as suas referências e associações, por menos óbvias que sejam, parecem fazer sentido. O músico é capaz de passar do poeta paraibano Augusto dos Anjos ao cineasta francês François Truffaut em questão de minutos.
Não por acaso, Otto inspirou-se em dois grandes escritores para compor seus últimos discos. Machado de Assis influenciou Sem Gravidade. Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos - nome do último trabalho - nada mais é do que a primeira frase do livro A Metamorfose, de Franz Kafka. Mas, ao mesmo tempo em que cita russos, franceses e italianos, ele se define como "um menino do interior de Pernambuco" e garante que conhecer bem a cultura brasileira foi essencial para a sua formação.
Na entrevista a seguir, Otto fala sobre os seus tempos de escola, sobre as principais influências e conta como é a relação com a filha Betina, 5 anos, fruto da relação com a atriz Alessandra Negrini. "Ela é tão inteligente que está me educando. Eu dou o melhor, poesia e um pouco de chatice quando é necessário. Mas acabo aprendendo muito com ela também", conta o cantor. Confira a entrevista:
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- Como foi a sua vida escolar?
- Otto: Eu nasci e morei em Belo Jardim, no sertão pernambucano, até os sete anos. Nos meus primeiros tempos de infância, eu era um grande aluno. Quando o filho do juiz da cidade morreu de meningite, a minha família resolveu ir para Recife. Foi lá que conheci o futebol e o Náutico. Eu jogava nos colégios. Eu estudei no Salesiano e no Marista, mas conhecia muita gente de outras escolas por causa do futebol. O esporte foi muito bom para a minha vida, para o meu condicionamento. Quanto ao conteúdo, eu tive dificuldades com Matemática, não gostava mesmo. Gostava mais de Português e Literatura. Mais tarde fiz faculdade de História.
- Você teve algum professor inesquecível?
- Otto: Tive um professor de Literatura que falou de Capitu, de Machado de Assis. Ele me fez muito bem na vida. Era um cara que já era mais moderno para a época.
- Como os seus pais paticipavam da sua Educação?
- Otto: Eu tive dois pais iluminados. O meu pai era promotor e me ensinou a importância da oratória. Ele me ensinou uma coisa que eu fiz com muita determinação: ler em voz alta. Isso me ajudou muito. É um método antigo, "old school". Ler em voz alta era uma coisa de promotor, de jurista. Acabei pegando esse hábito. A minha mãe era professora. Ela me ensinou muita coisa, eu corrigia provas junto com ela. Eles liam muito e me ensinaram a gostar de ler também.
- O que você gosta de ler?
- Otto: Eu gosto de ler contos, romances. Adoro os russos, Tolstoi, Dostoievski. Também gosto muito de Machado de Assis, Guimarães Rosa, Augusto dos Anjos. Tenho uma afeição pela literatura brasileira. Ela é genial, contemporânea. Ela sempre foi um motor.
- Qual foi a importância da cultura brasileira na sua formação?
- Otto: A cultura do Brasil é muito rica. Eu tive que aprender pandeiro, a cultura popular. Eu fui muito brasileiro, um menino do interior de Pernambuco. Conhecer a cultura brasileira é poder representá-la, é poder mostrá-la. Eu sou um cantor e compositor que canta em português e passo no meu cantar e na minha música um som que as pessoas lá fora compreendem como brasileiro.
- Como você descobriu o gosto pela música?
- Otto: Tenho isso desde pequeno. Sempre tive fácil acesso à música, é uma coisa que está em mim. Comecei escutando os discos do meu pai. Falando em Educação, o cinema também me educou. Toda informação educa.
- Que filmes foram marcantes para você?
- Otto: Vários. O Planeta dos Macacos me marcou muito, porque eu ficava louco de medo naquele cinema. O Franco-Atirador foi o primeiro filme para maiores de 18 anos que eu vi, lá em Belo Jardim. Meu pai me levou. Eu era muito novo e entendi tudo. Mas tem vários filmes marcantes, de Chaplin a Kubrick. Estou descobrindo muita coisa agora, principalmente em boas locadoras. Estou vendo os clássicos. Adoro cinema europeu: cineastas italianos, Buñuel, Truffaut.
- Como você participa da Educação da Betina?
- Otto: A Betina é linda, inteligente, um charme. Ela tem 5 anos e é muito ligada, muito rápida. Ela tem um laptop. Eu abro o meu e, quando eu vejo, ela está com o dela. Ela me humilha. Ela é tão inteligente que está me educando. Eu dou o melhor, poesia e um pouco de chatice quando é necessário. Mas acabo aprendendo muito com ela também.
- O que você aprende com ela?
- Otto: Eu me vejo, vejo a mãe dela, aprendo a me redescobrir. Você vê coisas boas em você. Tem as nossas qualidades e os nossos defeitos. Com filho, você descobre um amor muito bonito que não existia antes.
- Como vocês escolheram a escola onde ela estuda?
- Otto: Ela estuda no Vilhena de Moraes, que é perto de casa, do lado do clube. Todas as amigas que moram ali perto estudam lá. É perto de casa. Vai a pé, volta a pé. E, para ao Rio de Janeiro, isso é muito bom. Mas eu ainda quero colocá-la numa escola francesa.
- Por que uma escola francesa?
- Otto: Porque é bacana, eu adoro falar francês. É muito bom falar francês, espanhol. Às vezes eu fico muito só com o inglês. Tem várias coisas francesas boas no mundo.
- A tecnologia pode contribuir para a melhoria da Educação?
- Otto: A internet é absurdamente a favor do ser humano. Não vai mudar o papel da biblioteca. Eu acho que, com a velocidade da internet, investindo na Educação popular, vamos conseguir muita coisa. Eu investiria em massa nisso. As coisas já mudaram muito e podem mudar mais.
- Como você vê a Educação no Brasil?
- Otto: Acho que está melhorando. Mas temos que achar uma solução mais regional, mais direta. Eu acho que o ensino tinha que ser mais direto. O Brasil precisa de mais objetividade com o jovem.
- A música pode contribuir para a melhoria da Educação?
- Otto: A música é fundamental. Nós temos no Brasil uma enciclopédia musical de letras, de temas a serem discutidos. A gente tem Chico Buaque, Caetano, a gente tem coisas fora de série. O Brasil tem um acervo musical genial. Não devemos nada a ninguém. Temos os nossos sucessos, o nosso mercado, os nossos ídolos.