Clara tem três anos e meio e já esteve na França, na Grécia, no Marrocos, em Portugal e em diversos locais turísticos do Brasil. Em todas as cidades, visitou museus e conheceu prédios históricos. No Rio de Janeiro, onde vive, já tomou café da manhã no Parque Lage, já pegou o trem no Cosme Velho para ir até o Cristo Redentor e já passeou por Santa Teresa, bairro conhecido pelas construções histórias e pelos inúmeros ateliês de artistas. "Procuramos incentivar o gosto pela arte e pela história desde cedo. E não vejo a hora de vê-la maiorzinha para poder aprofundar esses temas", conta a consultora em comunicação Sut-Mie Guibert, que, junto com o marido, leva Clara para fazer viagens e passeios educativos "desde sempre".
Morar no Rio de Janeiro, uma cidade conhecida por suas belezas naturais e por sua rica história é, claro, um privilégio. E poder viajar para tantos países diferentes também tem um custo - bem alto para a maioria das famílias brasileiras, por sinal. Mas que tal buscar inspiração no exemplo de Sut-Mie e aproveitar as férias e os fins de semana para explorar a história da sua cidade junto com o seu filho e, assim, mostrar a ele que estudar história pode ser muito divertido? E não pense que a sua cidade não tem centro histórico só porque não é tão antiga quanto o Rio de Janeiro, por exemplo. Toda cidade, por mais recente que seja no mapa do Brasil, começou em uma praça, uma igreja, uma casa e tem elementos que podem contar a sua história.
"As famílias precisam redefinir o que é lazer. Visitar um centro histórico pode ser um passeio muito interessante para reunir a família. Até mais do que interessante: importante", afirma Sandra Oliveira, professora do Departamento de Educação da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Ela explica que a história cria raízes, mostra para a criança quem ela é e onde ela está. "E, a partir disso, ela pode começar a estabelecer metas e objetivos - para si mesma e para a sua cidade. O conhecimento da história cria raízes e dá asas", completa Sandra.
E o mais legal é que um passeio com o seu filho para conhecer a história da sua cidade pode - e deve! - ser um momento muito divertido e prazeroso, uma oportunidade de aproximação. "Uma atividade como essa proporciona o diálogo familiar", diz Susana Zaslavsky, doutora em Educação e professora da Faculdade Porto-Alegrense (Fapa). Mas lembre-se: você não é o professor do seu filho e não tem a obrigação de ter respostas para todas as perguntas. O mais divertido é vocês tirarem as dúvidas juntos.
Leia a seguir oito dicas para organizar uma emocionante visita a um centro histórico (pode ser da sua cidade ou não) junto com o seu filho. E incentive-o a chamar amigos. Quanto mais crianças, mais divertido fica o passeio!
Para ler, clique nos itens abaixo:
- 1. Prepare o passeio
- A fase de preparação é, talvez, a mais importante, pois é a que envolve todas as expectativas da criança. Por isso, é bacana que vocês façam tudo juntos. Procure informações na internet, em mapas, em livros (temos aí uma boa oportunidade para visitar uma biblioteca também!) e até mesmo com o professor de História do seu filho. Sobre os principais centros históricos do país, há também guias de viagem e até dicas de caminhadas que podem ajudar a preparar um roteiro, como este. "É importante ajudar a criança a entender o que ela vai encontrar", afirma Gabriel Passetti, professor de História do Ensino Fundamental II do Colégio Equipe, de São Paulo. Ele costuma acompanhar os alunos em visitas a Santos (SP) e a Paraty (RJ).
- 2. Busque referências familiares
- Se você vai visitar o centro histórico da sua cidade e esse é o local onde viveram também os seus antepassados, uma etapa importante é buscar as histórias da sua família. Onde moravam? Onde trabalhavam? Como era o seu estilo de vida? Que meio de transporte utilizavam? Busque respostas para essas perguntas em álbuns de fotografias, documentos e, claro, conversas com familiares. Levar a criança para bater um papo com o avô, com a tia-avó ou com um amigo antigo da família antes ou depois do passeio pode ser muito interessante. Assim, ela poderá fazer as próprias perguntas e sanar as suas curiosidades. E, durante o passeio, não se esqueça de mostrar a casa onde os familiares viveram e o lugar onde trabalhavam. Caso não existam mais, é um bom momento para refletir com a criança sobre as mudanças por que as cidades passam ao longo dos anos. "O conhecimento transmitido através de familiares é um dos elos que temos com o passado", afirma Sandra Oliveira, professora da UEL.
- 3. Documente tudo
- Assim como você deve planejar o passeio junto com o seu filho, é importante que vocês documentem tudo juntos - desde o planejamento até as conclusões que chegaram depois da visita.
Antes: vocês podem organizar um diário, com os lugares que vão visitar e anotações do que já sabem sobre eles.
Durante: é hora de tirar fotos e anotar o que encontrarem de interessante - desde a data de construção de um prédio antigo até a explicação ao lado de um quadro em um museu.
Depois: vem a parte da organização. É hora de selecionar as melhores fotos, imprimi-las (pode ser na impressora de casa mesmo) e montar um álbum com legendas, para que vocês nunca esqueçam o que viram. "Pais e filhos devem fazer tudo juntos", recomenda a professora Susana Zaslavsky, da Fapa. E é bom lembrar: o ato de documentar, além de deixar uma boa lembrança do passeio, incentiva o seu filho a praticar a escrita.
- 4. Caminhe - muito!
- "O melhor jeito de conhecer um centro histórico é caminhando. Nada de carros ou ônibus", aconselha o professor de História Gabriel Passetti, do Colégio Equipe, em São Paulo. Ele ressalta ainda que, em uma grande cidade, é essencial superar o medo da violência. "Andar a pé, observando a arquitetura e as construções antigas, proporciona uma vivência muito mais interessante do que entrar e sair correndo de museus e centros culturais", ele completa. Por isso, deixe o carro em casa ou estacione perto da região que vocês vão visitar e faça o percurso a pé. Nas grandes cidades, o medo costuma ser muito maior do que o perigo real. Hoje há muito policiamento nas ruas e locais históricos recebem atenção especial das autoridades, pois normalmente atraem turistas. Mas nem por isso vá se descuidar: não é aconselhável visitar o centro das grandes cidades à noite e é bom estar sempre atento aos batedores de carteira.
- 5. Faça perguntas
- Em um passeio a um centro histórico, os adultos têm o papel de incentivar a reflexão entre as crianças. Diante de um prédio antigo, pergunto o que ela acha dele, se ela acha bonito ou feio. Ao observar a estátua de alguém, pergunte se ela sabe quem foi essa pessoa e se ela acha que a pessoa realmente merece um monumento. Ao andar por uma rua de paralelepípedos, faça-a observar como era o calçamento de antigamente. É importante, enfim, fazer que ela reflita sobre o que está vendo, para que, assim, possa entender também o país e a cidade em que vive - se vocês estiverem conhecendo a própria cidade. "Quanto mais bagagem histórica uma pessoa tem, é mais fácil para ela entender a própria vida", explica Sandra Oliveira, professora da UEL. Lembre-se, no entanto, a adaptar esse momento de reflexão para a idade da criança ou do adolescente. Diante de uma estátua, por exemplo, é possível agir de duas maneiras: com os menores, peça que eles identifiquem os elementos presentes na mesma; com os mais velhos, uma abordagem possível é falar sobre a época em que viveu a pessoa retratada (se você não souber, anote no caderninho para que depois vocês façam uma pesquisa juntos).
- 6. Siga os interesses do seu filho
- Lembre-se sempre que o passeio, apesar de se interessante para você também, é um momento de lazer a aprendizagem para o seu filho. Peça a opinião dele e tente priorizar atividades do seu interesse. Tudo bem que há um museu histórico muito interessante justamente onde vocês estão, mas o seu filho não para de falar que quer ver uma estátua em uma praça que está a um quilômetro de distância? Siga a vontade dele. "A criança e o adulto não entendem a História da mesma maneira. É importante descobrir quais são os interesses da criança", diz Susana Zaslavsky, da Fapa. A etapa de preparação do passeio deve ser feita em conjunto. Assim, você já sai de casa sabendo quais são os interesses do seu filho e não corre o risco de deixar o passeio monótono.
- 7. Compare o passado e o presente
- Uma cidade é do jeito que é por causa de seu passado, de sua história. São Paulo, por exemplo, sempre teve uma zona leste mais pobre porque foi nos bairros a leste do Centro que os operários estabeleceram as suas moradias. Vale a pena fazer a criança pensar sobre essas questões, de modo que ela entenda por que a cidade é organizada dessa maneira. Muitos centros históricos têm casarões suntuosos, por exemplo, porque já foram a parte mais rica da cidade. Hoje, no entanto, são áreas bastante degradadas. Por quê? Para onde foram as pessoas ricas que ali moravam? Como foi esse processo de degradação? Por meio de fotos, que podem ser encontradas na internet ou em bibliotecas, é possível ver a cidade em períodos diferentes e fazer essa comparação. "Mas é importante não idealizar e achar que o passado era como em algumas novelas das seis. Também havia pobreza e conflitos sociais", alerta aconselha o professor de História Gabriel Passetti, do Colégio Equipe, em São Paulo.
- 8. Prove as comidas típicas
- É claro que um passeio como esse - em que o ideal é andar a pé - é bastante cansativo e você vai precisar fazer uma pausa com a criança. Se possível, faça isso quando bater a fome e aproveite para comer algo típico e, assim, continuar falando de História com seu filho. "É importante falar das ideias, da culinária, da cultura do povo", afirma Sandra Oliveira, professora da UEL. Salvador tem o acarajé, o Rio de Janeiro tem o biscoito globo, São Paulo tem o virado à paulista. Toda cidade ou região tem uma comida que faz parte da sua história. Aproveite para prová-los nesse passeio histórico com o seu filho!