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ALFABETIZAÇÃO

Alfabetizada, sim ou não?

Toda criança deve estar plenamente alfabetizada aos 8 anos. Mas nem sempre isso acontece. Como resolver esse problema?


22/05/2015 09:30
Texto Marion Frank
Educar
Foto: Claudia Marianno
Foto: Até os oito anos, uma criança deve ser capaz de ler - e de escrever - um texto curto, como o bilhete para o papai que vai chegar mais tarde para jantar
Até os oito anos, uma criança deve ser capaz de ler - e de escrever - um texto curto, como o bilhete para o papai que vai chegar mais tarde para jantar

Uma das frases mais repetidas por educadores é: nenhuma criança deve ser deixada para trás. Ela dá a entender que existe, sim, uma idade ideal para que a aprendizagem aconteça de modo a que toda criança, mesmo respeitado seu ritmo próprio, seja capaz de acompanhar o grupo a que pertence. Entretanto, pesquisas têm demonstrado que a defasagem existe desde o início do Ensino Fundamental, base da educação, quando a criança de oito anos completos não se mostra muitas vezes capaz de ler um texto simples e escrever frases curtas - e deveria! 

Alfabetização Especial Alfabetização
Dicas e informações para melhorar a aprendizagem da leitura e escrita de crianças e adultos.

 

Por que isso acontece? "Alfabetização é um processo cognitivamente lento, e linguisticamente também", explica a educadora Magda Soares, um dos nomes de maior prestígio no assunto no País. "O primeiro contato deve ser feito durante a Educação Infantil, mas não é o que tem acontecido no Brasil, onde há uma resistência em introduzir a criança na alfabetização desde o início de vida escolar, optando apenas em orientá-la socialmente". E o que seria, nesse caso, introduzir? "A criança é levada a perceber que as palavras escritas no livro que a professora transforma em sons quando lê para ela são formadas por letras, e que as letras representam sons da fala", detalha Magda. Dessa forma, a criança ganha consciência desde cedo de que a fala é um conjunto de sons, que vai registrar mais tarde com a escrita.


De acordo com o último Plano Nacional de Educação (PNE), crianças devem estar alfabetizadas até os oito anos, mostrando-se "... capazes de ler e escrever um pequeno texto, e de fazer inferências a respeito, o que atesta a compreensão sobre o que leram", realça Inês Kisil Miskalo, gerente-executiva de Educação do Instituto Ayrton Senna, em São Paulo. Ou ainda, como detalha oficialmente o PNAIC (Plano Nacional pela Alfabetização na Idade Certa): "Estar alfabetizado significa ser capaz de interagir por meios de textos escritos em diferentes situações; ler e produzir textos para atender a diferentes propósitos - a criança alfabetizada compreende o sistema alfabético de escrita, sendo capaz de ler e escrever, com autonomia, textos de circulação social que tratem de temáticas familiares ao aprendiz". Porém, segundo os resultados da Prova Brasil de 2012, apenas 30% dos alunos do 3º ano do Ensino Fundamental (ou seja, crianças de oito anos, em sua maioria) demonstraram ter aprendizagem adequada em escrita - muito longe, portanto da meta oficial.


O que isso significa na prática escolar? A criança, que apresenta dificuldades, não consegue acompanhar as atividades que o professor dá para a classe, o professor diz que o problema não é dele, mas sim da família que, por sua vez, devolve para a escola a culpa pela situação. Ou seja: nem escola nem família assume a responsabilidade, deixando a criança sozinha, logo ela, a personagem central de um processo em andamento, o da alfabetização. E o mais importante é que "o fracasso, em 99% dos casos, não é do aluno, mas sim de como se trabalhou com ele", diz Inês Kisil Miskalo, do Instituto Ayrton Senna.


Quando a alfabetização não aconteceu como manda o figurino, a criança fica bem para trás do desempenho do seu grupo. Começa - e de modo cascata - a não aprender o que deveria, seja em língua portuguesa, seja do que dela deriva: afinal, até para resolver uma conta de matemática ela terá de ler e compreender o enunciado. Assim, o que parece ser problema exclusivo de uma criança se torna problema do Brasil. Em redes públicas de ensino espalhadas País afora, mais de 30% dos alunos estudam em séries fora da idade ideal no Ensino Fundamental, sendo mesmo possível que até 60% desse total demonstre não terem sido alfabetizados corretamente.
Como reverter essa situação? Para Inês Kisil Miskalo, do Instituto Ayrton Senna, é vital investir na formação dos professores alfabetizadores, que "têm dificuldade em lidar com o que acontece em sala de aula, pois foram trabalhadas na universidade muito mais na teoria do que na prática, e é justamente de prática que eles precisam ao tratar da alfabetização de uma criança". E, se muitos professores ainda não conseguem superar as dificuldades que atrapalham a criança no contato com as primeiras letras, o que dizer da família? Como detectar os sinais de que algo deu errado, melhor, não está correndo como deveria, ajudando a escola a diagnosticar a alfabetização do seu filho? A seguir, dicas de como os pais devem proceder no dia a dia a partir da experiência das especialistas e assim terem controle sobre o andamento do aprendizado, tanto da leitura quanto da escrita. Lembrem-se: criança bem alfabetizada é criança preparada para nunca mais parar em sua vida de estudante.

Para ler, clique nos itens abaixo:
1. Se o PNE determina em oito anos a idade limite para uma criança estar alfabetizada, que tipo de texto o meu filho que tem essa idade deve saber ler?
Textos simples. Que devem, claro, estar de acordo com a idade da criança, evitando ser chatos ou longos demais. "Há muitas obras voltadas para essa idade, com histórias e ilustrações atraentes, que permitem inclusive interatividade", ressalta Inês. Histórias em quadrinhos, ela acrescenta, também são "bem vindas, pois as crianças tendem a se identificar com algumas das personagens em detrimento de outras".
2. Que tipo de texto o meu filho, de oito anos, deve saber escrever?
Para Magda Soares, de larga experiência no dia a dia da alfabetização em escolas da rede pública de Belo Horizonte e arredores, ainda que seja bastante fluido o conceito de ‘estar alfabetizado’ (afinal, cada criança tem o seu tempo de aprendizado, que deve ser respeitado), "é perfeitamente possível a uma criança de oito anos escrever, além de ler, um texto curto". Exemplos? Um bilhete para o papai, que vai hoje chegar mais tarde em casa para jantar; ou um lembrete para a mamãe não se esquecer de comprar frutas na ida ao supermercado etc.
3. Como saber se o meu filho sabe de fato ler? Devo pedir para que leia para mim? E quanto a escrever, também vale pedir um texto curto para ele?
"A observação é o caminho a ser trilhado", recomenda Inês, "pois é por meio dela que se percebem possíveis dificuldades". Entenda. É sempre importante pedir ao filho que leia algo para você ou para toda a família de modo a incentivar nele o gosto pela leitura, o prazer de ler - o mesmo comportamento, claro, vale para a escrita. "A criança precisa se dar conta que ler e escrever são instrumentos de comunicação social, que lhe serão úteis ao longo da vida, e não apenas uma tarefa escolar a ser realizada por obrigação", diz a especialista do Instituto Ayrton Senna. Daí o valor de os pais aproveitarem situações do cotidiano para desenvolver essas habilidades em seu filho.
4. O meu filho é pequeno, está na escola, mas o que ele gosta mesmo é de se comunicar por rabiscos. Isso é grave para a alfabetização?
"Há uma fase em que a criança só faz garatujas e acha que está escrevendo...", esclarece Magda. "As mães reclamam da escola, só que elas não sabem que esses rabiscos são muito importantes no contato inicial com a escrita". Isso significa que a escola deve, de um lado, transmitir informação para ajudar os pais a compreender as diversas fases da alfabetização, "mostrando que tudo o que acontece com a criança durante esse processo tem o seu valor", acrescenta a educadora. E, de outro, ainda que o esforço pela sobrevivência seja enorme entre as camadas populares, participar das reuniões de pais é "importantíssimo", ela ressalta - exatamente porque ajuda a se manter informado sobre o dia a dia da alfabetização dessa criança.
5. Se o meu filho, de mais de oito anos, não conseguir ler um texto simples, o que devo fazer? Falar com o professor e/ou o diretor da escola?
É muito importante que a família acompanhe atentamente o desempenho de sua criança, tentando entender a causa desta ou daquela dificuldade que vem à tona para pedir ajuda a quem domina o assunto. Mas atenção: "Não é preciso esperar que a criança tenha oito anos para buscar explicações, pois é perfeitamente possível a leitura de textos simples já aos sete anos", alerta Inês. Mais: os pais devem averiguar se os problemas que atrapalham a aprendizagem do seu filho acontecem apenas com ele ou também são de outros alunos da mesma classe. "Nesse caso, o problema pode estar no ensino, e não na criança", avança.
6. Meu filho fez a Avaliação Nacional de Alfabetização, posso saber o resultado? É importante ir atrás desse tipo de informação?
A respeito de uma avaliação externa, a família tem o dever de ser informada e a escola, o dever de informar sobre o desempenho de cada um dos alunos. É uma comunicação vital para a família, e por uma simples razão. "Se o resultado da escola não for bom, é indício de que ela não está desempenhando a contento a sua função", avisa Inês. A educação da criança estaria, portanto, em risco, o que os pais não devem aceitar de jeito algum.
7. Posso exigir que a escola demonstre empenho em realfabetizar o meu filho, caso o desempenho dele mostre ser necessário?
Inês Kisil Miskalo é contra o uso do termo ‘realfabetizar’, pois "uma vez alfabetizada, a criança será sempre alfabetizada". O que acontece de errado, a seu ver, é essa criança "não ter fluência na leitura, dispor de um vocabulário reduzido ou mostrar dificuldade para redigir um texto mais longo - quando o processo de alfabetização fica reduzido ao uso de sinais, apenas". E, ainda que o tempo de aprendizagem não seja igual para todos os alunos, vale insistir, o diálogo entre pais e escola é fundamental para o sucesso da alfabetização. "A família sempre deve buscar o contato com a escola, sobretudo quando a escola não toma a iniciativa", recomenda a especialista.
8. Como posso estimular meu filho em casa para desenvolver a leitura e a escrita?
A receita é simples: aproveitar todos os momentos do dia a dia onde esse tipo de habilidade normalmente é exercitado. "Ler a receita de comida diferente, ou a embalagem do produto de higiene, ou ainda, a placa de uma rua... E ajudar a redigir a lista de compras, enfim, vivemos numa sociedade que se vale dos códigos escritos e onde não faltam oportunidades para exercitar seu uso", diz Inês. Já Magda Soares, sempre atenta ao dia a dia de quem dá um duro danado para sobreviver, o que rouba tempo para acompanhar a educação do filho como gostaria, é de opinião que a escola pública deve ajudar essa mãe (e esse pai, se for o caso). "São famílias que não tiveram as mesmas oportunidades que hoje estão sendo oferecidas aos filhos e que não têm condições de orientá-los, como ler uma história na hora de dormir...", comenta Magda. O que poderia ser feito por parte da escola? "O interessante é que aconteça o contrário, sugerir às crianças que leiam para seus pais, assim os livros também vão alcançar o núcleo familiar e despertar o interesse pela leitura entre os menos favorecidos".
9. Como saber se o meu filho não sofre de algum tipo de problema cognitivo ou socioemocional, atrapalhando o seu desempenho ao ser alfabetizado?
Criança tem uma história que começa a ser narrada desde o primeiro choro, demonstrando o quanto é saudável (ou o seu contrário) ao dormir, comer, andar, brincar, falar e por aí afora. Ou, como ressalta Inês, "criança tem uma vida antes de se tornar aluna". A grande maioria das crianças inclusive já foi assistida por pediatras antes de pisar na sala de aula, tendo frequentado creches ou pré-escolas. De qualquer modo, será no dia a dia escolar que ela poderá revelar problemas que não tenham sido identificados - como os que afetam a visão, por exemplo, e que tanto prejudicam a aprendizagem. "A família precisa conhecer bem o comportamento do seu filho em casa e buscar saber, junto ao professor, como é que ele se comporta na escola", recomenda Inês. Dislexia, déficit de atenção e hiperatividade, por exemplo, são exemplos de transtornos físicos que atrapalham enormemente o dia a dia de uma criança dentro e fora da classe, só que a família e, às vezes, também a escola, não consegue detectar os sintomas logo de início. "O mais comum (e o mais cômodo) é a escola dizer que a criança tem problemas sem especificar e a família, infelizmente, muitas vezes reage, afirmando que o filho não tem cabeça para a escola - quando, na verdade, não há problema algum, simplesmente tudo seria resolvido com mudanças na forma de ensinar...", lamenta Inês. Resultado? "Os pais desanimam e acabam por afastar a criança da sala de aula, colocando-a para trabalhar". No caso da deficiência física, o problema não é da criança, mas sim de quem não se deu conta de que ela precisa ser cuidada de forma diferente, necessitando de ajuda especializada. Por isso, mamãe e papai, atenção redobrada: se o seu filho mostrar dificuldade excessiva na hora de escrever pode estar sofrendo de dislexia, por exemplo - e tanto vocês quanto a escola precisam reagir rapidamente para enfrentar a situação, procurando psicólogos, psicopedagogos e fonoaudiólogos, entre outros especialistas, para a avaliação adequada.
10. Uma das metas do último PNE determina que 95% dos alunos precisam terminar o ensino na idade certa e com conhecimentos compatíveis. E, para que isso aconteça, é preciso que eles sejam alfabetizados na idade certa também.
Escolas públicas (e privadas) do País têm uma tarefa a cumprir: seguir à risca, no dia a dia, as metas do Plano Nacional de Educação (PNE), um total de 20. Entre elas, como já foi destacado, a de alfabetizar as crianças até os oito anos. É o tipo de informação que precisa ser do conhecimento de todas as famílias brasileiras. "É importante chamar a atenção dos pais, pois eles têm o direito e o dever de cobrar da escola o cumprimento dessa meta", reforça Inês. Mas também é preciso o envolvimento das crianças e famílias. "O primeiro passo para uma criança ir bem durante o período de alfabetização - e nas séries seguintes - é estar presente na escola", garante Inês.

 

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