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CULTURA

Pesquisa com ritmo

Explorar a habilidade dos pequenos para tocar instrumentos e dançar, pode levá-los a descobrir como as manifestações artísticas expressam a cultura


04/06/2009 16:13
Texto Ana Rita Martins
Nova-Escola
Foto: Kriz Knack
Foto: É importante que as crianças utilizem instrumentos de verdade nas aulas
É importante que as crianças utilizem instrumentos de verdade nas aulas
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Dançar, batucar e cantar são formas de manifestação que fascinam desde que o homem é homem. Ao longo de pelo menos 130 mil anos da trajetória humana no planeta, combinações de gestos, ritmos e sons foram capazes de exprimir, a um só tempo, costumes, tradições e visões de mundo de incontáveis povos e grupos sociais. Em poucas palavras: tanto a música como a dança transmitem cultura. É papel do professor mostrar essa ligação sem deixar de lado, claro, o aspecto lúdico que só não encanta "quem é ruim da cabeça ou doente do pé", como diz o histórico Samba de Minha Terra, de Dorival Caymmi.

As crianças, você sabe, encontram na brincadeira uma poderosa ferramenta de experimentação e conhecimento. Em geral, adoram música e dança. Era assim com os pequenos da pré-escola do CEI Santa Escolástica, na capital paulista. Atenta a essa empolgação, a professora Luciana do Nascimento Santos fez o óbvio: pôs a meninada para tocar, cantar e dançar. Mas foi além. Primeiro, estabeleceu um foco para sua atuação, explorando influências da cultura africana com o aprendizado de instrumentos como agogô, caxixi e alfaia e de danças como jongo, maracatu e coco. Em segundo lugar, encarou essas práticas como meios de pesquisa cultural, conduzindo a turma na descoberta da história da África e suas ligações com o Brasil.

O resultado desse trabalho rendeu à professora o troféu de Educadora Nota 10 do Prêmio Victor Civita de 2008. "O que me entusiasmou foi o fato de os pequenos terem aprendido muito sobre a África ao fim do projeto", afirma Karina Rizek, coordenadora de projetos da Escola de Educadores, em São Paulo, e selecionadora do Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10. "Além disso, Luciana colheu os frutos de ter apostado na capacidade artística da meninada. Nunca vi crianças daquela idade dançando e tocando tão bem."

Para ler, clique nos itens abaixo:
1. Pesquisar para conectar arte e história
Para que a música e a dança se tornem objetos de pesquisa - e conduzam, de fato, ao alargamento do repertório cultural da turma -, não deve se restringir apenas ao ensino dos instrumentos e movimentos rítmicos. O.k., o desenvolvimento dessas habilidades específicas não fica de fora (vamos falar sobre isso mais adiante). Mas é preciso, ainda, estimular pesquisas que levem a garotada a entender as raízes culturais das práticas artísticas. Nessa perspectiva, algumas perguntas fundamentais, que podem vir junto à apresentação de danças e instrumentos escolhidos, são: de que países eles vêm? Como estão ligados às condições de vida do grupo estudado?

Das respostas, surgem as pistas para prosseguir na atividade. Escolher o material de acordo com a faixa etária é essencial para a ampliação do conhecimento. Como em todos os projetos de pesquisa, vale investir na diversidade de fontes. Na Educação Infantil, o ideal é que livros e revistas tenham figuras ricas em detalhes, mas incluam também pequenos textos e legendas para desde cedo promover o contato com a escrita. Rodas de conto que focalizem lendas e histórias sobre o país estudado (e, se possível, em que a dança e a música também sejam contempladas) são opções interessantes.
2. Usar instrumentos de verdade para ensinar a cantar
Se o trabalho de ampliação cultural guarda semelhanças com a pesquisa em outras áreas, a tarefa de ensinar a tocar instrumentos e a dançar exige um conhecimento específico. O exemplo de Luciana dá a dimensão do esforço: durante dois anos, ela fez cursos e participou de oficinas para aprender as danças e os ritmos que queria ensinar na sala de aula. A professora aprendeu, por exemplo, que os instrumentos de percussão são os mais indicados para trabalhar na Educação Infantil, já que não exigem a compreensão das notas musicais. Também descobriu que a qualidade do som é diretamente proporcional à do equipamento. Portanto, nada de pandeiros, tambores e batuques "de mentirinha", desses de lojas de bugigangas. O investimento é maior, mas o resultado final compensa.

Já o trabalho prévio à execução musical tem custo zero. A marcação, atividade essencial para compreender o ritmo, exige apenas que o professor cante. Você pode orientar os pequenos a bater palmas para acompanhar uma música, ressaltando os intervalos regulares que compõem o ritmo. Em seguida, entra em cena a percussão corporal. Ao pedir a cada criança que faça um barulho com uma parte do corpo (mãos batendo nas pernas, pés batendo no chão e sons com a própria boca), você mostra que o próprio corpo pode ser produtor de ruídos.

Na dança, antes de mergulhar no ensino dos passos das modalidades escolhidas, as marcações com os pés e as mãos também são essenciais para que a turma perceba que elas estabelecem uma intensa conversa com o ritmo. Não se esqueça, porém, de que apenas ensinar a tocar e dançar restringe a riqueza do trabalho. Luciana entendeu o recado. Ciente do papel da cultura nas práticas artísticas, aproveitava para relembrar a todo momento a origem dos instrumentos e da dança, fazendo a turma entender o real significado do som e da ginga que vivenciavam na escola.
3. Um exemplo de sucesso
Quando pequena, a professora paulistana Luciana do Nascimento Santos ouvia, maravilhada, o pai tocar sanfona. O amor pela música cresceu junto com a menina. Hoje, aos 26 anos, trabalhando com os pequenos na Educação Infantil há nove, transforma os sons em aprendizagem. Em seu projeto na CEI Santa Escolástica, na favela de Paraisópolis, na capital paulista, as crianças passaram a tocar caxixi, agogô, alfaia e pandeiro e a dançar coco, maracatu e jongo. Tudo aliado a uma extensa pesquisa sobre as relações entre Brasil e África, diferencial que rendeu elogios da equipe selecionadora do Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10.

Trabalhando durante seis meses com crianças de 5 e 6 anos, Luciana levou-as a reconhecer a influência cultural africana na cultura brasileira. Ao investigar e aprender manifestações culturais - especialmente a dança e a música -, elas aumentaram seu repertório e passaram a valorizar essas contribuições.
4. O passo-a-passo de um projeto campeão
A sequência didática de ampliação cultural é de tirar o fôlego: incluiu o uso do globo terrestre (para localizar o Brasil, a África e a distância geográfica que os separa), a leitura de reportagens, textos e de um dicionário de palavras africanas, rodas de conversa e de contos africanos, visita de especialistas, idas ao museu e a confecção de um painel fotográfico com as informações aprendidas. Para ensinar música, Luciana ofereceu inicialmente instrumentos caseiros feitos com embalagens descartáveis e sucata. Assim que os pequenos perceberam os sons e aprenderam a usar cuidadosamente os objetos, eles puderam explorar os instrumentos profissionais. Depois que cada um escolheu o seu, a professora sugeriu que todos acompanhassem músicas gravadas para aprimorar o ritmo e a visão de conjunto. No caso da dança, as marcações serviram de base para o ensino dos passos, apoiado posteriormente em DVDs específicos.
5. Como avaliar o rendimento dos alunos
A professora analisou a evolução da compreensão nas situações de leitura de imagens e de contos africanos. A avaliação do trabalho de ampliação cultural atentou para a evolução da capacidade das crianças em pesquisar - escolhendo fontes, coletando material e sintetizando-o. No caso da música e da dança, Luciana privilegiou não apenas o conhecimento específico mas também o trabalho em grupo, sem se preocupar se estavam todos tocando ou dançando bem. "Tocar e dançar são atividades lúdicas por natureza. Não se pode perder isso de vista, principalmente na Educação Infantil", explica.
6. Apresentar das músicas de referência
Apresente músicas brasileiras de ritmos de origem africana (como o samba e o maracatu) e converse com as crianças sobre elas: já conhecem? Se parecem com algo que já ouviram? Gostam ou não? Por quê? Explique que essas músicas têm origem em um continente chamado África, separado do Brasil pelo oceano Atlântico. Para comparar, escute com o grupo outra música (escolha, agora, uma canção tradicional africana em www.acordacultura.org.br). Questione: ela se parece com a que ouvimos antes? Peça, ainda, que a turma leve livros, fotos e outros registros do continente. Você também deve preparar a mesma pesquisa.
7. Explorar materiais didáticos
Explore os materiais trazidos em uma roda de conversa. Foque a discussão nos costumes dos grupos que serão estudados: vestimentas, alimentos, música, dança, brincadeiras etc. Lembre-se de mostrar o globo terrestre para que se aproximem da ideia do que é um continente ou país.
8. Pensar a cultura para fazer a arte
Forme grupos e sugira que cada um aprofunde a pesquisa em um dos temas levantados. Explique que o objetivo é obter mais informações sobre costumes dos povos africanos e que cada grupo deve mergulhar em um assunto específico, procurando mais informações em livros, internet, vídeos e outras fontes de informação. Peça ainda que reflitam: quais das práticas levantadas também acontecem no Brasil? De que jeito? Como forma de registro, proponha a criação de um painel coletivo para reunir as informações, garantindo que possam ser consultadas por todos sempre que necessário.
9. Mostrar os novos instrumentos
Leve para a sala instrumentos musicais de origem africana, como agogô, caxixi e alfaia e mostre às crianças as maneiras de tocá-los. Apresente também coreografias de danças africanas, como o jongo, para que a turma possa praticar - o uso de DVDs de referência com os principais passos é um bom recurso didático. Lembre-se de que essa etapa, que deve durar alguns dias, exige que você se prepare previamente para conhecer instrumentos e danças.

 

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