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Arte para todos

Conheça o ambicioso projeto que já atingiu mais de 1 580 instituições educativas e ONGs de todo o país com o intuito de aproximar dos estudantes o mundo artístico


11/01/2011 16:37
Texto Redação
Bons-Fluidos
Foto: Rogério Pallatta
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"Estimular as crianças e os adolescentes a vivenciar a arte é transformare ampliar seu universo cultural", Carlos Barmak, coordenador do Projeto Educativo

O desejo de levar arte para perto de crianças e adolescentes fez com que a 29a Bienal, realizada nos meses de setembro a dezembro de 2010, criasse uma ponte entre eles, por meio da educação. O primeiro passo foi deixar de lado o velho pensamento de que arte contemporânea não é para qualquer um. "Queremos desmitificar o conceito de que ela é elitizada ou inacessível", diz Stela Barbieri, curadora do projeto Educativo. "Para isso, precisamos estimular os jovens a participar, dentro e fora da escola, de todo o processo criativo, desde a concepção da obra até a compreensão do impacto que ela causa." Mas a missão não é tão simples assim. Atravessar esse caminho demanda tempo, paciência, dedicação e muitas trocas.

Só para termos uma ideia do tamanho da operação, mais de 1 580 instituições, entre escolas públicas, privadas e ONGs, participaram do projeto. Cerca de 30 mil professores se inscreveram e tiveram a oportunidade de vivenciar algumas experiências, como debates, atividades em grupo e aulas educativas. "A cada encontro com os educadores, discutimos temas relacionados à arte contemporânea e às obras expostas e buscamos entender o dia a dia deles em seu espaço de trabalho", retoma a curadora. Um dos intuitos dessa troca foi ampliar as várias formas possíveis de transmissão do novo conteúdo adquirido dentro das salas de aula. Além da parte teórica, os participantes também receberam uma caixa recheada com imagens de obras, textos sobre artistas atuais e muito mais. "É um material suculento criado para estimular a reflexão sobre o tema", explica Carlos Barmak, coordenador do projeto. Disponível gratuitamente no site da Fundação Bienal, seu uso não se limitou à vigência do evento. "Ele pode ser utilizado em qualquer ocasião com alunos de todas as faixas etárias", sintetiza o professor de artes Pio Santana, da escola estadual Tarcísio Álvares Lobo, em São Paulo.

"Estimular as crianças e os adolescentes a vivenciar a arte é transformare ampliar seu universo cultural", Carlos Barmak, coordenador do Projeto Educativo.

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A caminho da arte
Ao contrário dos anos anteriores, a iniciativa conseguiu atingir em ampla escala regiões e escolas que tinham pouco ou nenhum acesso à exposição. "Por falta de recursos financeiros, muitas vezes só um número limitado de turmas podia ir à Bienal. Graças à formação que tivemos e ao material educativo, conseguimos trazê-la para a sala de aula sem sair da escola", diz Pio Santana.

Um bom exemplo desse alcance são as intervenções artísticas espalhadas pela comunidade União de Vila Nova, localizada no Jardim Pantanal, Zona Leste de São Paulo. "Junto com crianças e adolescentes, fizemos algumas ações, como pintar carros abandonados pelas ruas do bairro", conta Rodrigo Munhoz, professor de artes do Instituto Nova União da Arte (NUA), localizado dentro da comunidade. A ajudinha para tal ação veio do artista sul-africano Kendell Geers - que tem uma de suas obras entre o material educativo. "A inspiração surgiu após conhecermos seu trabalho com carros-sucata", afirma Munhoz.

"No início, éramos apenas cinco pessoas. Havia muita gente ao redor, mas só observando. Foi aí que várias crianças começaram a se aproximar e resolveram pintar também", declara Thalita A. Costa, de 15 anos, aluna do Instituto NUA. E qual é o impacto que essas atividades têm causado nos arredores da favela? Segundo Munhoz, além de criar situações artísticas nos locais ociosos do bairro, essa é a grande chance de dialogar com os moradores e de oferecer a eles uma nova forma de ver a vida. Ao que acrescenta a adolescente Thalita: "A arte abre um novo espaço que faz a gente pensar, criar. Além disso, nos faz crer que as coisas podem se transformar no que quisermos, basta termos a mente aberta e estarmos dispostos a conhecer novas ideias".
Maior exemplo
O maior exemplo do poder dessa transformação vem do próprio coordenador do Instituto NUA, Hermes Sousa. Ex-dependente de drogas e ex-presidiário, ele descobriu seu talento durante as fases de internação. "A atividade artística me abriu portas e me levou a lugares diferentes. Além disso, me deu a certeza de que eu poderia me relacionar com os outros", diz. A partir daí, criou, em 2001, o instituto e, em 2010, depois de participar da formação do Educativo da Bienal, a comunidade teve a oportunidade de conhecer o que é arte contemporânea e qual é sua dimensão ali dentro. "Uma barreira foi quebrada: a Bienal chegou até nós e agora iremos até ela", afirma Sousa.

O fato mais concreto dessa união foi a realização do sonho de pintar 2,5 metros do muro que "separa" a favela do resto de São Paulo. "Resolvemos pôr em prática em nosso próprio espaço o que aprendemos. O muro foi nossa primeira grande obra", diz. "Percebemos que arte e vida são uma coisa só, e que nós podemos fazê-la em qualquer lugar, seja qual for nossa condição social", orgulha-se o professor Rodrigo Munhoz.
Um novo olhar
Se perguntássemos a um jovem qual a utilidade da arte, teria ele a habilidade de responder? "Aprendi que ela é capaz de expressar o que você sente", diz Ariel Kovesi, estudante de 16 anos, do Colégio Renascença, de São Paulo, em sua primeira visita à Bienal. "Qualquer um pode fazer arte desde que tenha alguma coisa para passar", afirma.

Essa visão começou a se desenvolver melhor com base nos ensinamentos em sala de aula. "Após a formação dos professores no Educativo, passamos a dialogar mais com os alunos e a criar novos projetos baseados na experiência de cada um", diz Fernanda Aché, coordenadora de artes do Colégio Renascença, em São Paulo.

Mesmo com o início da jornada, ainda há uma longa trilha a percorrer. "Queremos continuar alimentando as parcerias com as instituições para que seja possível realizar cada vez mais formações educativas em todo o Brasil", afirma Stela Barbieri. Não foi à toa que a escolha da frase "Há sempre um copo de mar para um homem navegar", do poeta alagoano Jorge de Lima, esteve estampada em todos os cantinhos desse projeto. Seu intuito foi mostrar que a arte pode ser infinita. "Ao transportá-la para a sala de aula, observamos o grande potencial criativo que cada um pode ter, basta acreditar", diz a curadora.


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