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Carolina Ferraz desembarca no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, e vai direto para o Centro Educacional Unificado (CEU) Casa Blanca, no Jardim São Luís. Em um prédio praticamente vazio, ela vai para o 40º andar, onde a encontramos vestindo regata de algodão, calça xadrez e tênis entre 21 adolescentes. "Hoje a gente está na sala de balé", diz Carolina enquanto se dirige a um canto onde duas meninas fazem a leitura de um texto. "Terminem de ler e depois eu volto", diz, gentil, e sai em direção a uma dupla de garotos. "Tenho de ficar andando", comenta a atriz.
Carolina é voluntária do projeto Paz Encena, coordenado pelo Instituto Sou da Paz, que tem como objetivo refletir sobre violência e paz por meio de oficinas de teatro para jovens carentes. Este é o terceiro encontro da atriz com os alunos, que têm entre 15 e 25 anos de idade. "Eu me sinto agraciada porque tenho sorte, sucesso em um trabalho que adoro, uma família, projetos... Tenho de retribuir isso tudo de uma maneira consistente e a questão da violência me preocupa", justifica. "Tenho consciência de que isso que estou fazendo não é nada. Mas está sendo importante para eles, que se sentem prestigiados. É uma galerinha incrível." E vamos à aula!
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- 14h10: Nelson Rodrigues
- Os jovens, espalhados em pequenos grupos, estão concentrados há quase uma hora na leitura dos textos. No cardápio, Eles Não Usam Black-Tie (Gianfrancesco Guarnieri), A Invasão (Dias Gomes), A Cantora Careca (Eugène Ionesco) e Noite (Harold Pinter). Carolina aborda o grupo que lê A Falecida, de Nelson Rodrigues. "Ele é um cara supermaluco, mas inteligente", ensina descrevendo por alguns minutos o estilo do escritor. "Vamos ver se vocês entenderam. Qual é o contexto da cena?", pergunta a atriz. Enquanto isso, em outro canto, uma garotinha pula em uma cama elástica. "Venho todos os sábados com minha irmã", explica Camila Gabrielly Cândido da Silva, 10.
- 14h18: Hora da briga!
- Carolina volta a conversar com a primeira dupla. "Já leram? Vou pegar uma caneta", avisa antes de riscar o texto para ajudar as meninas. Em seguida, a atriz prossegue o trabalho com outro grupo, apoiada em uma barra para aulas de balé. "Se vai confrontar alguém, tem de ser de homem pra homem. Como é que você fala quando briga? Vamos, brigue comigo! Eu não vou ficar brava", grita interpretando, mas rindo. "Você ainda tá muito fofa. Tem de ficar mais brava", sugere. "Agora briguem vocês."
- 14h28: Reunião de mestres
- Em mais um trajeto pela sala de aula, Carolina encontra a coordenadora do projeto, Beatriz Cruz, 28, e o educador Cainan Baladez, 27. "Estou trabalhando o entendimento do texto com eles", diz a atriz para os dois. "Hoje o exercício é leitura dramática. Estamos trabalhando intenção e entendimento, propondo que eles leiam o mesmo texto com sentimentos diferentes, como ódio, amor, medo...", explica Beatriz. Os três sentam-se no chão e trocam suas impressões sobre o andamento do encontro. Depois, espalham-se entre os alunos que ainda não atenderam. "O curso vai durar nove meses. Eu passo um mês com eles agora e volto daqui a três", conta a atriz.
- 14h50: Atores em cena
- "Gente, lê baixo!", berra Carolina, sorrindo. E continua a leitura com outros alunos. Ela explica o significado de duas palavras que eles estão pronunciando errado: 'lavabo' e 'tínhamos'. Dez minutos depois, os professores reúnem todos no centro da sala para assistirem à apresentação de cada um dos seis grupos. Durante a encenação, a atriz participa em um dos trechos, observa, sorri e cochicha sobre o desempenho de uns garotos. Eles não seguram a curiosidade e dão olhadelas para ela enquanto se apresentam, procurando sua aprovação. "No primeiro encontro, eles não abriram a boca comigo. Foi hilário! Agora já têm liberdade. É interessante terem convívio com uma pessoa que eles idealizam completamente. De repente, eu como paçoca, estou junto deles, falo bobagem..."
- 15h41: Vamos fazer a roda
- A aula está quase terminando. Todos sentam em círculo e os professores perguntam se a leitura melhorou em comparação ao sábado anterior. Uma menina entra correndo e pede um autógrafo para Carolina, que a atende prontamente. Um aluno lê em voz alta um depoimento pessoal sobre o curso: "A Bia, o Cainan e a Carolina nos deram muitas dicas..." Um colega complementa: "A Carolina teve paciência com a gente". E outra menina reforça: "Carolina ensaiou o mesmo texto três vezes com a gente".
- 15h53: O balanço de Carolina
- Chega a vez de a atriz fazer um balanço. "Também adorei a aula de hoje e a gente vai fazendo os textos cada vez melhor. Estou muito ansiosa para a próxima aula", diz ao grupo. São 15h57 e ela se despede. Um táxi a aguarda na porta do CEU. Dentro do carro, a atriz envia uma mensagem pelo celular para a filha, Valentina, 14. Ela chega ao Aeroporto de Congonhas às 16h21, para voltar ao Rio de Janeiro. "Estou muito feliz. É um sacrifício porque moro no Rio e venho para São Paulo aos sábados. Eu me apaixonei pelo pessoal do Sou da Paz e espero que nossa parceria perpetue", torce. E embarca.
"Quero, na verdade, agradecer a todos do Instituto Sou da Paz por terem generosamente me permitido participar dessa experiência tão gratificante. Hoje sou alguém que atua voluntariamente, ajudando na conscientização e na reflexão sobre a violência, trabalhando com jovens da periferia de São Paulo. Sinto muito orgulho de estar perto de pessoas que fazem um trabalho dessa importância. A alegria de poder contribuir, mesmo de uma maneira modesta e incrível, me mostra o quanto ainda posso fazer... Espero que essa seja apenas uma experiência entre tantas outras no futuro. Ajudem, pois sempre há uma maneira de contribuir, principalmente em um país como o nosso, tão cheio de necessidades! E boa sorte a todos que decidirem participar! Obrigada, Carolina"