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CULTURA

Entrevista Raquel Gerber

Filme que traça panorama da história dos negros no Brasil ajuda professores a abordarem a cultura africana na escola


17/11/2009 18:15
Texto Bruna Nicolielo
Educar
Foto: Divulgação
Foto: Na película, a cineasta Raquel Gerber procura reconstruir a cultura negra
Na película, a cineasta Raquel Gerber procura reconstruir a cultura negra
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A obrigatoriedade do ensino da História da África no Brasil torna oportuno o relançamento do filme Ôri, da cineasta, socióloga e historiadora Raquel Gerber. A película, que mostra a história dos movimentos negros no Brasil entre 1977 e 1988, foi lançada pela primeira vez em 1989. Hoje, 20 anos depois, é relançada digitalmente. Em 11 anos de documentação, com viagens pelo Brasil e pela África, Raquel fez uma extensa pesquisa cinematográfica e histórica. Seu trabalho resgata as raízes africanas do Brasil, além de apontar a importância dos quilombos na formação da nacionalidade. A fotografia original é de Jorge Bodanzky e Pedro Farkas, entre outros.

A importância pedagógica de Ôri (cabeça, em iorubá) está despertando o interesse de instituições de ensino pelo Brasil. A Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad/MEC), por exemplo, negocia o lançamento do filme por meio da TV Escola. Usando o filme, os professores podem abordar a imensa riqueza do continente africano para além dos estereótipos. Em 2010, também está previsto o lançamento do site www.oriori.com.br, futuro banco de dados da pesquisa de Raquel, que pode servir de subsídio para professores e alunos.

Nesta entrevista, a cineasta Raquel Gerber fala da contribuição de Ôri para discussão da temática negra.


Para ler, clique nos itens abaixo:
1. Como foi o processo de produção de Ôri?
Raquel Gerber: Iniciei Ôrí em 1977. Nessa época, final dos anos 70, a questão da consciência do homem voltava à pauta de discussões. Venho de uma tradição das Ciências Sociais que pensa as relações planetárias. Como socióloga e historiadora, sempre pensei a questão da evolução da consciência humana. Em 11 anos de documentação, estive em 4 estados brasileiros e 4 países da África Ocidental, passando pelo Senegal, Mali, Niger e Costa do Marfim. Interessava-me uma questão: a necessidade de construir a consciência humana depois da opressão. Para acompanhar o processo de desenvolvimento da consciência humana, permanecemos muitos anos nas comunidades que visitamos. Foi um processo de interação com a comunidade. Caminhamos junto com o movimento negro.
2. Qual o tema central do filme Ôri?
Raquel Gerber: Busco uma reconstrução da cultura negra. A partir de uma pesquisa de imagem, pretendia dar acesso a imagens fora dos estereótipos recorrentes na historiografia oficial. Havia uma busca de reconstrução da imagem do negro sofrido, desterritorializado. O filme pretende rever os estereótipos, pensar numa reconstrução da imagem desse povo, numa rediscussão da imagem do estereótipo. Afinal, todo ser humano em sociedade necessita de uma auto-imagem positiva, preventiva contra a violência moderna. Buscá-la junto às culturas originais é necessário para sociedades multiculturais como a nossa.
3. Por quê Ôri?
Raquel Gerber: Ôri significa cabeça, e sua origem é o iorubá, língua da África Ocidental. A intenção era mostrar a consciência negra na sua relação com o tempo, a história e a memória.
4. Como Ôri pode ser trabalhado nas escolas?
Raquel Gerber: O ambiente da escola, a relação professor-aluno, gera uma intimidade que pode ser muito importante para essa reconstrução da imagem. De nada adiantam as leis se o homem não tiver a consciência de que é preciso se transformar e se não tiver os estímulos adequados. O professor não está preparado para lidar com os estereótipos. E o aprofundamento dos estereótipos cria um problema muito serio. Por isso, é preciso criar materiais adequados, instrumento de bons impulsos. Vivemos na era do audiovisual, por isso o filme pode ser útil. Beatriz Nascimento [ativista negra, já falecida], com quem trabalhei, dizia que a África é um continente congelado nas nossas relações, nas nossas comunicações. A África não é só pobreza, miséria. A África tem riquezas incomensuráveis. Foi lá que surgiu o homem. A ignorância em relação ao continente africano, em relação à cultura negra, é geral. Por isso, a importância da educação e do aprendizado. O filme Ôri se constrói de forma coletiva, pode servir de material para o professor. Abre diversos temas para discussão, como o tema da religiosidade e da música africana, resgata a verdadeira e épica história dos quilombos.
5. Como o filme será distribuído?
Raquel Gerber: Informalmente, estamos oferecendo o filme para muitas instâncias educacionais, negociando com a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad/MEC). Também recebemos manifestações espontâneas de interesse das Secretarias municipais de educação de Belo Horizonte (MG) e São Paulo (SP). Por meio de uma parceria com a TV Escola, o filme será oferecido como material didático para o professor. Outras propostas podem ser encaminhas para o e-mail irjgerber@sti.com.br.
6. Que recursos bancaram o orçamento do filme Ôri?
Raquel Gerber: Fizemos um convênio com uma ONG de Campinas (SP) chamada NHL e com a Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Além disso, tivemos recursos da Lei Rouanet e patrocínio do empresário Roberto Smith, do Banco do Nordeste.
7. Como foi o processo de restauração do filme?
Raquel Gerber: É resultado do trabalho de um grande restaurador, Fábio Fracarolli, e sua equipe. Ele já tinha trabalhado com a restauração de obras de Glauber Rocha. A restauração levou 4 anos e envolveu 50 pessoas. Os negativos do filme tinham quase 40 anos.
8. Quais as influências de seu trabalho?
Raquel Gerber: Ôri é um filme sociológico. Ele, de certo modo, é reflexo de toda minha formação em Sociologia, das aulas com professores como Florestan Fernandes, Francisco Weffort, Fernando Henrique Cardoso e Ruth Cardoso. A matriz do meu trabalho é Glauber Rocha, a estética da fome, Barravento [primeiro longa-metragem de Glauber Rocha, que mostra um negro de volta à sua cidade natal]. Sou filha do Cinema Novo, herdeira de Glauber Rocha. Trabalhamos por aproximadamente oito anos.


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