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HISTÓRIA

Ela reaprendeu o português três vezes

Uma professora do interior de São Paulo acompanhou as mudanças ortográficas ao longo dos 50 anos de carreira


Foto: Lucas Tannuri
Foto: Maria Helena: 'Vamos nos adaptar com tranquilidade'

Maria Helena: 'Vamos nos adaptar com tranquilidade'

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Para todos que lidam diariamente com a língua portuguesa, incluindo jornalistas, o novo acordo ortográfico veio mais para confundir do que para explicar. Teremos de revisar algumas regras já fixadas e se acostumar com construções ainda meio esquisitas, como “linguiça” e “antissocial”, que vieram para ficar.

Nesse momento, nada melhor que ouvir a voz da experiência. Com 70 anos de vida e 50 de carreira, a professora e linguista Maria Helena Neves dá um depoimento esclarecedor. De acordo com ela, que viveu três reformas ortográficas, não vai demorar para nos habituarmos a ler e escrever de acordo com as novas regras. Veja a opinião dessa especialista:

“Dizem por aí que toda hora a língua portuguesa passa por reformas. Mas não é bem assim. Tenho 70 anos e peguei apenas três mudanças. O novo acordo ortográfico - que começou a valer desde o primeiro dia deste ano - é bom para o Brasil e para os sete outros países que têm o português como língua oficial.

Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste falam português, como nós. O acordo aproximará essas nações, facilitará as relações comerciais e o intercâmbio entre as culturas.

Mas as pessoas não precisam aprender tudo de uma hora para outra. O prazo para que todas as regras estejam definidas é 2012. Então ainda teremos tempo para nos adaptarmos a essa nova ideia - isso mesmo, agora o modo correto de escrever “ideia” é sem acento.

O aprendizado virá sem percebermos. O que vai nos ajudar é a memória visual. Por isso, a maior parte das revistas e da mídia já está empregando a nova ortografia. Você lê o jornal, passa por um outdoor, liga a tevê e lá estarão as palavras na nova grafia. Depois de ver umas dez vezes, nem lembraremos que um dia acentuamos, por exemplo, a palavra “estreia”.

As mudanças não aconteceram apenas no Brasil. O acordo vale para todos, pois o objetivo é simplificar. Portugal, por exemplo, vai deixar de usar consoantes no meio de palavras como “fato”. Antes, era “facto”.

Quando aconteceu a primeira mudança, em 1943, eu ainda era criança e não tive nenhum problema para me adaptar. Até aquela época, não havia uma ortografia fixa no Brasil, por isso foi criado o Vocabulário Ortográfico.

Outra mudança, em 1971, veio para facilitar. A partir daquele ano, algumas palavras que tinham acento diferencial deixaram de ter. Nós utilizávamos o acento circunflexo em uma palavra para diferenciar de outra que era escrita da mesma maneira, mas tinha pronúncia aberta. Foi o caso das palavras “môlho” e “molho”. O acento sinalizava que um era o molho de macarrão e o outro era derivado do verbo molhar, como na frase “Eu molho as plantas”.

Tudo isso já está ultrapassado. No final das contas, esses acentos sumiram e ninguém nem se lembra disso. Agora, acontecerá o mesmo. Sei que vamos nos adaptar com traquilidade à nova revisão ortográfica”. 


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