Misto de blog e rede social, o Twitter virou febre na internet e agora ganha status de ferramenta pedagógica nas aulas de Língua Portuguesa. Usado como meio de comunicação e informação, o site só permite textos de, no máximo, 140 caracteres. O que é bem pouco (para efeito comparativo, a primeira frase desta reportagem tem exatamente o tamanho permitido). As postagens precisam ser sintéticas para caber nesse espaço reduzido e elas têm uma função comunicativa real (o que é fundamental ao trabalhar com produção de textos na escola). Não é exagero nenhum chamar os tuítes (como as postagens são conhecidas) de um novo gênero textual.
Um dos primeiros artigos científicos a investigar as possibilidades didáticas dessas publicações foi escrito pelas professoras Mirta Castedo e Natalia Zuazo, da Universidade Nacional de La Plata, na Argentina. Em Culturas Escritas y Escuela: Viejas e Nuevas Diversidades, elas mostram como o Twitter permite trabalhar com versões reduzidas de notícias e de contos. "O professor pode usá-lo para gerar interesse na construção de composições curtas e explorar diferentes funções nos textos, como informar, gerar reflexão e criar situações de humor", explica Natalia. As reflexões das professoras argentinas deram origem a esta reportagem.
Qualquer assunto pode se transformar em um tuíte
Para começar o trabalho, apresente aos estudantes diferentes modelos de contos curtos, que podem vir dos vários livros escritos e, claro, de uma boa pesquisa no Twitter (leia o projeto didático no quadro da página 78). Há uma série de perfis dedicados exclusivamente aos microcontos, como @marcelinofreire e @microcontos. "É importante diversificar os autores e enredos. Conhecer todo esse universo mostrará aos alunos as diversas possibilidades. Eles podem escrever sobre qualquer coisa de que gostam", diz Samir Mesquita, escritor paranaense que já publicou dois livros de microcontos.
No artigo sobre o tema, Mirta ressalta a necessidade de trabalhar a função do Twitter e o que muda quando a rede é utilizada. Segundo ela, além das perguntas fundamentais para atividades com qualquer gênero (para quem estou escrevendo? Qual o contexto da escrita?), é preciso considerar o processo de produção e as características da internet, como a interatividade e os comentários. Isso pode enriquecer muito as discussões.
A publicação dos textos na rede permite múltiplas leituras. Quanto mais pessoas lendo, maiores são as possibilidades de interpretação. Isso dá mais riqueza ao texto. "O que escrevemos em um microconto é apenas 10% da história. O resto se constrói na cabeça de quem lê", explica Mesquita. "A palavra implícita e a pausa de uma vírgula ou de um ponto, por exemplo, proporcionam diferentes impactos sobre os leitores, como qualquer grande obra tradicional", conta ele. Mais do que contar uma história, contos curtos têm o poder de sugeri-la
No Colégio Hugo Sarmento, em São Paulo, o professor Tiago Calles percebeu a utilidade que o Twitter poderia ter em suas aulas de Língua Portuguesa. Ele escolheu trabalhar a escrita autoral de microcontos -- que em uma definição possível são histórias curtas e objetivas, sem muitos elementos narrativos (leia o quadro abaixo). "Os estudantes sabiam que o texto que escreveriam estaria publicado na internet e seria lido por muitas pessoas. A partir daí, a dedicação foi tanta que começaram não só a policiar os errinhos mas também discutir com os colegas formas de melhorar o conto", explica.
Discussões como essas devem ocorrer desde o início da produção, mas até elas começarem cabe ao professor apontar maneiras de melhorar e diminuir o texto. "É importante que, no começo, os alunos não fiquem restritos aos 140 caracteres, mas que escrevam um conto comum, pensando que ele precisará ser sintetizado", explica Jorge Luiz Marques, professor do Colegio Pedro II, no Rio de Janeiro. Os alunos precisam de tempo para praticar. Começar limitando a escrita reduzirá a capacidade criativa e não oferecerá um exercício tão efetivo de síntese do que foi redigido.
Outro bom uso do Twitter é a reescrita de notícias com o mesmo objetivo: refletir sobre a síntese. Os alunos podem ouvir ou ler algumas delas e replicá-las em 140 caracteres. "É um bom trabalho para as séries finais, já que também inteira o jovem sobre o que está se passando no mundo", diz Marques.
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