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O Colégio Engenheiro Juarez de Siqueira Wanderley parece uma instituição de ensino pública. Os 600 alunos que nele estudam não pagam a mensalidade, as refeições, o transporte, o material escolar e o uniforme. Mas a instituição não é governamental -- é mantida pelo Instituto Embraer de Educação e Pesquisa desde a sua fundação, em 2001. Voltado para o ensino médio, o instituto encoraja todos os formandos a seguir adiante nos estudos e entrar na universidade.
A rotina de estudo pesada do colégio assusta os alunos, todos oriundos da rede pública. São dez horas de aula por dia. “É um baque”, diz Juliana de Souza Melo, aluno do 2º ano. Os alunos entram as 7h45 e saem as 17h45. “É uma pedreira. Mas tem de ser assim para recuperar conteúdos defasados”, diz Pedro Ferraz, diretor superintendente do Instituto Embraer. As regras para ser aceito e permanecer na instituição são objetivas: passar por um exame seletivo concorridíssimo (no ano passado foram 4 mil inscritos disputando 200 vagas) e ter vindo do ensino fundamental em escola pública. E quem repete a série, sai da escola. Outra regra clara: filhos dos funcionários da Embraer não têm privilégios. “A escola foi pensada e montada para alunos dedicados. Eles estão lá porque querem e acho que isso faz a diferença”, diz Mariza Scalabrin, gerente de desenvolvimento social do instituto.
Estudar no “Colégio da Embraer”, como a escola foi apelidada, é duro, mas também gratificante. “Meu professor do fundamental me ligou às 3 h da madrugada para dizer que eu havia passado no colégio. Ele esperou, na gráfica, o jornal com a lista dos aprovados e ligou para cada um de nós. Fiquei muito feliz e aliviada”, lembra Ingrid Christine de Oliveira, também do 2º ano. Os alunos ralam, mas demonstram comprometimento com o projeto. No dia que o EDUCAR PARA CRESCER visitou o colégio, presenciou uma cena praticamente impensada para diversos colégios de ensino médio, público ou privado: salas de aula, com mais de 30 alunos, sem professor. Não havia anarquia. Reunidos em pequenos grupos, os adolescentes estudavam.
Quando a Embraer decidiu criar seu instituto, em 2001, a idéia era alinhar as ações sociais da empresa, que, na época, eram desenvolvidas por departamentos distintos e não tinham objetivos de longo prazo. “A Educação faz parte do DNA da Embraer, que é um desdobramento de instituições de ensino”, diz Ferraz. A criação da empresa, em 1970, precedeu o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em 1950, e o Centro Técnico Aeroespacial (CTA), em 69. “E, como empresa, a Embraer sempre se preocupou com a Educação de seus funcionários, incentivando que todos tivessem no mínimo o segundo grau completo”, completa Ferraz.
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- 1. O que o Instituto Embraer faz?
- Entre os projetos do Instituto Embraer, os educacionais recebem especial atenção. O principal programa é o investimento no colégio de ensino médio e em período integral Engenheiro Juarez de Siqueira Brito Wanderley, no bairro de Eugênio de Melo, em São José dos Campos. A ação primordial é a meritocracia. O diferencial, além do horário, é o Programa de Preparação para a Universidade (PPU) em pré-engenharia, pré-humanas e administração e pré-biomédicas, que os alunos têm a partir do primeiro ano e vai até o terceiro ano. "A carga horária tira o aluno da TV, do videogame, e o coloca no estudo. Já o PPU faz o aluno vivenciar experiência do cotidiano aliada ao conhecimento", diz Jamerson Peixoto, diretor do Juarez Wanderley.
O instituto, junto com o colégio, dá também atenção aos pais dos alunos. A direção explica, por exemplo, que os garotos não poderão colaborar com a renda familiar durante três anos, pois terão de se dedicar exclusivamente aos estudos. Os pais são convidados a passar um dia na escola para vivenciar o cotidiano do filho. Também mostram aos pais que o trabalho do colégio é despertar o potencial dos alunos de ir para a faculdade, e que, portanto. Pedro Ferraz, diretor superintendente do Instituto Embraer. Ferraz conta já ter escutado de pais que a escola estragou o filho pelo fato de o adolescente desejar ir para uma faculdade e lembra do caso de um pai que não permitiu ao filho tentar uma universidade. "Há um trabalho forte com a família, mas temos de ampliar a ação de conscientização de que os filhos são capazes de chegar à faculdade", diz Mariza Scalabrin, gerente de desenvolvimento social do instituto.
Uma das maneiras de manter o interesse do aluno em estudar e de convencer a família em permitir a continuidade escolar é o programa Fundo de Bolsas de Manutenção. "Alunos que entram na faculdade fora da região de São José dos Campos recebem 490 reais por mês para se sustentar", diz Ferraz. As bolsas são concedidas àqueles com ótimo desempenho acadêmico, oriundos de famílias sem possibilidade de bancar o estudo e beneficiários do ProUni. Ao final do curso, têm de devolver o dinheiro investido. "É a maneira que o instituto criou para incentivar os alunos a dar de volta à instituição aquilo que receberam, uma prática comum nos Estados Unidos", diz Pedro Ferraz. Em 2009, são 320 bolsistas. Qualquer pessoa pode contribuir para o fundo. O instituto, aliás, está em busca de doadores permanentes.
Outros projetos educacionais do instituto são o Programa Parceria Social (PPS). É realizado em escolas públicas onde a Embraer tem unidade, como São José dos Campos, Botucatu, Gavião Peixoto e Taubaté. "Quando a Embraer definiu que teria um colégio, de alguma forma a comunidade ficou ressentida porque o instituto passou a recusar pedidos que antes eram aceitos por ter mudado o foco de atuação. Chegamos a receber 500 pedidos de doação de berço. O PPS (www.cidadaniaembraer.org.br) é uma forma de manter esse relacionamento com a comunidade e a atuação voluntária do empregado. Mas os projetos agora têm de chegar com a Educação como base. Não vamos só repassar dinheiro", diz Mariza. No primeiro ano foram 42 projetos rejeitados. Hoje não recebem mais pedidos sem foco na educação. Os funcionários apadrinham os projetos. São cerca de 400 empregados engajados no PPS, de 1.400 cadastrados como voluntários, entre os 17 mil funcionários da multinacional. O número de engajados é consideram muito bom pelo instituto.
- 2. Como o Instituto Embraer define o local onde vão atuar?
- Os projetos são executados nos locais onde a Embraer tem unidades: São José dos Campos, Botucatu, Gavião Peixoto e Taubaté.
- 3. Qual o orçamento do Instituto?
- O Instituto Embraer investe 1.100 reais por mês por aluno do Juarez Wanderley. São 660 mil reais mensais, mais de 7 milhões por ano. O instituto optou por ter uma equipe pequena (cinco funcionários), utilizar de departamentos da Embraer, como o financeiro, para realizar alguns serviços e contratar parceiros com expertises em áreas nas quais realiza projetos. A metodologia de ensino é fornecida pela Rede Pitágoras. A Vunesp, que faz vestibular da Unesp, para o processo seletivo do colégio. Também há parcerias com o Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio Libanês e o Center of Occupational Research and Development (Cord), consultoria educacional do Texas, nos EUA. "Nas áreas onde não temos expertise fazemos parcerias com quem tem", explica Pedro Ferraz, diretor superintendente do Instituto Embraer.
- 4. Quais os resultados alcançados?
- Em seis anos de funcionamento, o colégio da Embraer se tornou o melhor colégio de ensino médio do Estado de São Paulo e a oitava melhor escola do Brasil, entre as públicas e as privadas, segundo o Enem 2008. Em 2006 e 2007, ele já havia sido classificado entre as 25 melhores escolas do Brasil e as quatro melhores de São Paulo, desbancando colégios tradicionais, alguns com mais de meio século de vida.
Outra dado que chama a atenção: nos vestibulares 2009, todos os 201 alunos foram aprovados em pelo menos uma instituição de ensino superior e 160 - 80% -- passaram em universidades públicas. Em 2008, essa marca era de 64%, também considerada alta. O feito inédito dos alunos está estampado no corredor de entrada do Juarez Wanderley: um quadro com as fotos de todos os 201 alunos, formados em 2008, mostram legendas das instituições onde cada um foi aprovado. Alguns foram aprovados em até quatro lugares. Demonstração de orgulho, o quadro é também motivo de pressão para as turmas que vão se formar, que tem que manter índice semelhante de aprovação de anos anteriores.
- 5. O que o instituto aprendeu desde 2001?
- "O colégio nunca foi igual. Todo ano, aprendemos algo novo", diz Mariza Scalabrin, gerente do instituto. Uma das descobertas importância de fazer uma avaliação dos alunos logo no início do primeiro ano. "No vestibulinho, não se vê diferença entre os alunos, Mas, quando ingressam no colégio, os alunos precisam ser avaliados para nivelar as turmas." O instituto também deseja ter outros colégios iguais ao Juarez Wanderley. "Quando pensamos em ter uma escola não era para terminar nela mesma e sim servir como modelo pedagógico, ser repassado para rede pública", afirma a gerente. O instituto também aprendeu a ampliar as expectativas dos alunos e da comunidade onde as unidades estão instaladas e são beneficiadas pelo PPS (Programa Parceria Social). "Os alunos entravam na escola querendo, ao saírem, trabalhar na Embraer. Fomos descobrindo que eles tinham potencial para serem líderes, médicos, administradores e teríamos de motivar a conhecer outras profissões", diz Mariza. Ela acrescenta que o Juarez Wanderley não é um colégio igual a qualquer escola. "O conteúdo é o mesmo, mas a maneira com que a escola faz o aluno interagir com as disciplinas e com o PPU são essenciais para a formação global dele. E aqui entra o trabalho do instituto, que é o de cobrar o Pitágoras para que esse objetivo, essa formação global, aconteça".
- 6. Como transformar a ação social da Embraer num bem para a marca da empresa?
- Segundo o diretor superintendente do Instituto Embraer Pedro Ferraz, a marca Embraer já era forte muito antes da criação do instituto. Para ele, essa conquista se deve à sociedade e, portanto, a ação social empresarial deve ser feita com o objetivo de devolver à sociedade parte dessa conquista. O projeto, de acordo o diretor superintendente, não pode ter olhar marqueteiro nem se resumir ao que irá ganhar em troca. "Os bons resultados obtidos pelo instituto agregam valor à marca, mas o trabalho social acontece porque a Embraer acredita que deve contribuir para elevar o nível de educação da sociedade e de dar a ela, sociedade, de volta o que conquistou", diz Ferraz.
- 7. Como separar as ações sociais das ações comerciais da Embraer?
- "Na Embraer, as ações comerciais não são alinhadas às ações sociais. Primeiro porque nossos produtos não têm nada a ver com os projetos do instituto e segundo porque não faz parte do script do departamento de vendas falar sobre a área social", diz Pedro Ferraz, diretor superintendente do Instituto Embraer. Segundo ele, porém, essas ações podem se encontrar eventualmente. Ferraz cita o caso da David Neeleman, dono da companhia área Azul. "Para cada avião entregue, ele doa US$ 10 mil para o fundo de bolsa de manutenção dos alunos do Colégio Engenheiro Juarez Wanderley que passam no vestibular e vão estudar fora de São José dos Campos". A Azul encomendou cem aviões.
Como a doação ocorreu? Ferraz não sabe ao certo, mas tem um palpite. "As conversas para a compra de aparelhos demoram meses, que incluem diversas visitas à sede da Embraer, em São José dos Campos, e em outras unidades, como Gavião Peixoto. Em algum momento nessas conversas, num bate-papo informal, Neeleman soube do trabalho da área social da empresa e teve a iniciativa de fazer essas doações", explica Ferraz. E brinca que adoraria passar o chapéu para cada cliente da Embraer. "Tenho o maior prazer e orgulho em mostrar nosso trabalho, mas não posso constranger o cliente perguntando se ele quer colaborar". Outros clientes da Embraer fazem doações para o fundo de bolsa - Ferraz nota que os doadores são pessoas ou empresas que também têm um trabalho social relevante e se preocupam se o fornecedor está na mesma sintonia. Para ele, ser uma empresa sustentável no século 21 não é mais questão de diletantismo, mas de sobrevivência. "A Dow Jones criou o índice mundial de sustentabilidade, que avalia os desempenhos econômico, ambiental e social de mais de 2.500 empresas. Para figurar na lista, as empresas só podem fazer negócios com fornecedores que cumprem os requisitos determinados pelo índice, e um deles, certamente, é gestão de projetos sociais, tal como investir em educação", diz Ferraz.