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APROVEITAMENTO ESCOLAR

Uma nova grafia

As regras para a unificação da forma de escrever em português já estão em vigor. Preparem-se


22/05/2012 17:00
Texto Beatriz Santomauro e Beatriz Vichessi
Nova-Escola
Foto: Wikimedia Commons
Foto: Com o acordo, Brasil, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Portugal passam a escrever da mesma forma
Com o acordo, Brasil, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Portugal passam a escrever da mesma forma

Os romances editados no Brasil raramente são lidos em Portugal. Da mesma forma, as produções literárias de lá têm pouco mercado por aqui. Em Moçambique e Angola, países africanos que também falam o português, as edições impressas tanto no Brasil como em Portugal não circulam entre a população. Apesar de todos esses países usarem o mesmo idioma, nem sempre é fácil para o habitante de um deles entender o texto escrito no outro - porque, além das diferenças culturais, existem as variações na maneira de grafar as palavras, aqui e do outro lado do Atlântico.

A unificação da ortografia da Língua Portuguesa, anunciada com alarde pelo Ministério da Educação (MEC) no ano passado, promete acabar com parte desse cenário de desencontros. Desde 2009, os habitantes de quatro nações (Brasil, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Portugal) passaram a seguir as mesmas regras para escrever, definidas por um novo acordo ortográfico. Os outros quatro integrantes da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (Angola, Guiné-Bissau, Moçambique e Timor Leste) aguardam a aprovação formal do tratado para também adotar as regras.

Para ler, clique nos itens abaixo:
1. Quando as mudanças começam a valer?
O governo brasileiro definiu que as mudanças entraram em vigor no dia 1º de janeiro de 2009 - mas o uso da grafia antiga (em livros e outras publicações, além de vestibulares, provas e concursos públicos) está liberado até o fim de 2012. Os especialistas acreditam que esses quatro anos são mais do que suficientes para que nós, usuários da língua, nos acostumemos às novidades. Calcula-se que, no Brasil, 2 mil palavras sofrerão alterações, ou seja, 0,5% do total.

"É importante ressaltar também que o acordo não interfere na língua falada. Cada uma das nações de Língua Portuguesa mantém seus padrões de entonação e pronúncia. Essa diversidade de sotaques não será abalada. Por isso, a adaptação não deve ser tão difícil para quem escreve com frequência", afirma Irandé Antunes, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da Universidade Estadual do Ceará. Além disso, o acesso a materiais escritos é maior do que há algumas décadas e tanto os principais jornais do país (como O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo, O Globo e Extra) quanto a maior editora de revistas (Abril) - já adotaram as normas da nova ortografia.
2. A reforma pode prejudicar a alfabetização?
Crianças em processo de alfabetização serão as menos afetadas. Isso porque nas séries iniciais ainda não há um trabalho sistemático com acentuação nem com o uso do hífen - que são os dois principais grupos de mudanças do novo acordo. "Nesse momento, os pequenos se preocupam com outros aspectos da ortografia. Quando chegarem à fase de refletir sobre acentos circunflexos e agudos, as regras novas certamente já estarão mais consolidadas e será mais simples as colocarem em prática", afirma Clécio Bunzen, coordenador do curso de pós-graduação em Alfabetização e Letramento da Universidade de Jundiaí, na Grande São Paulo.

Apesar de o jeito de escrever já ter mudado, o tempo relativamente longo de adaptação faz com que nem todos os livros didáticos e materiais impressos disponíveis para os alunos tenham a grafia nova (e essa situação deve perdurar). A convivência com palavras escritas de duas formas diferentes pode provocar alguma confusão entre os estudantes recém-alfabetizados ou mesmo nos que dominam bem algumas regras da língua escrita. Por isso, professores de todas as disciplinas precisam conhecer as mudanças para ajudá-los a revisar textos e ter sempre bons materiais de consulta para usar quando aparecerem dúvidas.
3. Como os alunos podem aprender as novas regras?
Artur Gomes de Morais, da UFPE e autor de livros sobre o aprendizado da ortografia, diz que ler palavras grafadas corretamente é importante, sobretudo para compreender as formas que não podem ser explicadas com regras e, portanto, precisam ser memorizadas. O fato de as mudanças afetarem poucos verbetes vai ajudar a garotada. "Ninguém terá de gastar tempo decorando muitas expressões que raramente serão usadas em textos."
4. Qual a importância do ensino da ortografia?
Kátia Lomba Bräkling, professora de pós-graduação do Instituto Superior de Educação Vera Cruz, em São Paulo, reforça a importância do ensino da ortografia. "A escrita é uma construção histórica que se modifica com o tempo e em função dos usos no processo de comunicação. Ela segue um conjunto de convenções que deve ser respeitado." Momentos como esses, de mudanças de regras, são ideais para apresentar as realidades em que a Língua Portuguesa é utilizada e para mostrar que já houve muitas outras formas de grafar no passado. "Todo idioma tem história e as crianças devem ser levadas a perceber isso com clareza. É uma maneira de elas notarem que os pais e avós escreveram de maneira diferente porque a língua é viva", diz Ulisses Infante, professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira na Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha, e autor de livros didáticos.
5. Como ensinar as novas regras para alunos do Ensino Fundamental?
Se os estudantes dos anos finais do Ensino Fundamental tiverem mais dificuldade, atividades de revisão e pesquisa em dicionários são suficientes para que eles passem a dominar todas as mudanças gradativamente. "O mais importante é entender e desenvolver procedimentos de escrita considerando os ajustes necessários para produzir um texto de qualidade em função dos objetivos e dos leitores para os quais ele se destina", completa Kátia. As regras só devem ser o tema das aulas nos momentos em que as questões ortográficas forem o foco da revisão. Isso significa que, além de escrever corretamente sempre, o professor também precisa saber o momento de tornar a ortografia objeto de reflexão e colocá-la em foco nas atividades.
6. Outras reformas ortográficas já aconteceram no Brasil?
Alterações na ortografia não são novidade no Brasil. Em 1943, foram realizadas as primeiras mudanças oficiais. Na época, nossa língua escrita era mais próxima da de Portugal, mas diferente da utilizada oralmente no dia-a-dia. Então, ficou decidido que alguns dos usos locais seriam norma, como dita o Formulário Ortográfico da Língua Portuguesa: "Está registrada a inclusão dos brasileirismos consagrados pelo uso e a substituição de certas formas usadas em Portugal pelas correspondentes formas usadas no Brasil".

Durante o governo do presidente Emílio Garrastazu Médici, em 1971, ocorreu a segunda reforma. O período de transição foi de dois anos, pois eram poucas as alterações. O trema nos hiatos átonos (como em vaïdade) foi abolido. Também saíram de cena o acento circunflexo diferencial nas letras e e o das palavras escritas da mesma maneira, mas com sons diferentes (como a conjugação do verbo almoçar na primeira pessoa do singular e o substantivo almoço e a letra "ele" e o pronome pessoal êle) e os acentos circunflexo e grave dos vocábulos com os sufixos mente ou zinho e derivados de palavras que eram acentuadas (tênuemente, sòmente e cafèzinho, que tinham na raiz as palavras tênue, só e café).

Nessa época, Odilon Soares Leme era professor do Ensino Médio do Instituto Mackenzie, em São Paulo. Ele lembra que as mudanças facilitaram a escrita, embora as regras causassem dúvidas e algumas surpresas. "Sempre me recordo de uma questão sobre a acentuação da palavra alcachofra. Até então, ninguém sabia que ela precisaria ser acentuada - pela regra que deixava de existir - porque havia uma homógrafa com outra entonação: a conjugação do verbo alcachofrar, que significa 'tornar crespo', na terceira pessoa do singular do presente do indicativo."

Lucia de Brito Salgado Gomez, que hoje leciona para turmas de Ensino Fundamental e Médio no Colégio Militar do Rio de Janeiro, nos anos 1970 dava aulas no antigo supletivo, atual Educação de Jovens e Adultos. Ela também guarda na memória situações inusitadas: "Embora tenha sido uma transição tranquila, alguns colegas teimavam em tirar os acentos de todas as palavras. Imagine a confusão que os alunos fizeram com isso! Lembro-me de um menino que tentou me convencer de que você não levaria mais circunflexo", diz, divertindo-se.

Na pele de aluna da 5ª série, Rosalie Bin, hoje docente da EE Professor Benedito Gomes de Araújo, em Santo André, na Grande São Paulo, não tem na lembrança um cenário de "confusão" por ter de escrever de maneira diferente daquela com que tinha sido alfabetizada. Contudo, ela afirma que agora sim terá algumas dificuldades. "As regularidades antigas estão gravadas na minha memória. Terei de prestar mais atenção ao redigir e certamente levarei algum tempo para me adaptar por completo."
7. Quais os objetivos da mudança ortográfica?
Foram muitos anos - mais precisamente, 18 - de muito trabalho e discussão para chegar a um acordo que permitisse à Língua Portuguesa ter apenas uma grafia (era provavelmente o único idioma a ter duas normas oficiais). O principal objetivo das mudanças é mesmo econômico: facilitar a integração comercial entre as nações. Mas é claro que elas também abrem as portas para o intercâmbio científico e cultural, já que a comunicação fica muito mais fácil e caem os custos de produção e adaptação de material impresso. O português é a sexta língua mais usada do mundo, com 230 milhões de falantes (está atrás do mandarim, do inglês, do espanhol, do hindu e do árabe). "A circulação de livros entre os países pode proporcionar o maior contato com a cultura escrita", aposta Godofredo de Oliveira Neto, presidente da Comissão da Língua Portuguesa, órgão ligado ao MEC responsável pela implementação do novo acordo ortográfico. "Num mundo formado por blocos, o lusófono pode ser mais um deles."

As conversas para unificar o idioma começaram entre Portugal e Brasil em 1990. Desde então, diversas reuniões foram realizadas e os outros países que têm o português como seu idioma oficial passaram a participar do debate.
8. Todos os países envolvidos já aderiram ao acordo?
A partir do mês de janeiro, os habitantes de quatro nações (Brasil, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Portugal) passaram a seguir as mesmas regras para escrever, definidas por um novo acordo ortográfico. Os outros quatro integrantes da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (Angola, Guiné-Bissau, Moçambique e Timor Leste) aguardam a aprovação formal do tratado para também adotar as regras - o que deve ocorrer nos próximos meses.

Embora Portugal tenha tomado a iniciativa, o país foi um dos que mais resistiram às mudanças, pois a quantidade de alterações lá é bem maior do que aqui: cerca de 10 mil palavras. Para nossos vizinhos d’além-mar, acção, acto e baptismo passam a ser grafadas como no Brasil: ação, ato e batismo.
9. Quais são as principais mudanças?
Com o novo acordo ortográfico, as palavras em que o trema é usado para indicar a pronúncia da letra u ficam sem o sinal gráfico. Ele deixa de existir na Língua Portuguesa e só se mantém em nomes próprios estrangeiros e suas derivações. Essa é uma das novidades mais simples de memorizar, assim como a inserção oficial no alfabeto das letras k, w e y. Porém as mudanças que envolvem os acentos agudo, circunflexo e diferencial e o hífen são mais complexas e vão exigir consultas frequentes a materiais de apoio. Um exemplo é a dupla heroico (que perde o acento agudo, pois é uma paroxítona com ditongo aberto) e herói (que segue acentuado porque é uma oxítona terminada em ói). NOVA ESCOLA e as editoras Ática e Scipione organizaram, no ano passado, o Manual da Nova Ortografia, que terá nova edição agora, em fevereiro, revisada e ampliada. O guia também apresenta um histórico das transformações que a língua sofreu e volta às bancas por apenas 1,99 real.
10. Como trabalhar as nova regras em sala de aula?
Ulisses Infante, professor de Língua Portuguesa de uma universidade espanhola e autor de livros didáticos, sugere usar cartazes e outros recursos de memorização, além de um bom dicionário. Mas ele chama a atenção para o foco. "O fundamental no ensino de Língua Portuguesa continua sendo o uso dos textos no mundo social."

Os especialistas são unânimes em dizer que é desnecessário separar um tempo específico para trabalhar a nova ortografia na escola, mesmo em turmas já alfabetizadas. As regras devem ser objeto de reflexão e discussão somente durante atividades de re-escrita e de revisão de texto que estarão previstas no planejamento. Algumas sugestões que podem ser incorporadas à rotina escolar. Cleuza Bourgogne, diretora pedagógica da Escola Móbile, e Elaine Rissato, coordenadora pedagógica da EMEF Olavo Pezzotti, ambas de São Paulo, apontam algumas:

- Peça que os alunos escrevam cartazes com as palavras que eles mais usam cuja grafia foi alterada. Deixe o material exposto na sala.

- Organize a produção coletiva de um manual com as novas regras, acompanhadas de exemplos. Assim os estudantes terão outro material de consulta sempre à mão. É importante que todos participem da elaboração.

- Combine com a turma o período em que a grafia antiga será aceita e quando ela passará a ser considerada incorreta. O prazo deve ser estabelecido quando você perceber que todos já incorporaram as mudanças.

- Planeje momentos para apontar e comentar as alterações - mas sem se desviar do conteúdo previsto para trabalhar. Durante a leitura de um determinado texto, se surgir a palavra geleia grafada da maneira antiga (geléia), incentive os alunos a justificar o "erro", descobrindo, por exemplo, quando o livro foi impresso.

- Identifique o acervo da biblioteca com etiquetas que informem os exemplares publicados com a grafia antiga, como se pode ver na foto acima.

- E não esqueça: desde já, use as novas regras para escrever comunicados para os pais e alunos e também para produzir todo o material exposto nas paredes da escola (exatamente como você está lendo nesta reportagem).
11. Quem aderiu?
Os países que fazem parte do Novo Acordo Ortográfico são: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.
12. O novo acordo é benéfico?
O professor Godofredo de Oliveira Neto, presidente da Comissão de Língua Portuguesa do Ministério da Educação, defende o acordo: "A existência de duas formas de escrita - o português de Portugal e o do Brasil - enfraquecia a língua portuguesa. Unificá-la acaba com as diferenciações que existiam nos variados países."

No entanto, o professor Sérgio Nogueira acha que ele não traz benefícios à população: "Não acredito que um acordo venha a padronizar a língua. Não basta apenas unificar as grafias." Polêmica à parte, ele já está aí. Então, que tal acostumar-se logo a usar essas novas normas?

 

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