Os prós e os contras de recorrer aos professores particulares quando o boletim do seu filho chega pendurado no fim do ano
Reforço escolar: pais e professores devem chegar à decisão juntos
O fim do ano letivo está chegando. Muitos estudantes pensam nas férias de verão, enquanto outros estão preocupados com as notas vermelhas no boletim. Para estes estudantes que comprovadamente não aprenderam o conteúdo previsto nas suas séries, o risco de reprovação é real. Para resolver o problema, muitos pais procuram o reforço escolar - as chamadas aulas particulares. Mas há questões importantes escondidas nesta operação de guerra: vale a pena investir em ensino individualizado? O reforço é mero paliativo? O Educar para Crescer consultou psicólogos e pedagogos para responder a algumas das dúvidas mais frequentes.
Para ler, clique nos itens abaixo:
- Como ajudar seu filho sem recorrer ao reforço escolar?
- O ideal é que você acompanhe a vida escolar do seu filho desde o início do ano letivo. Essa é a melhor maneira de influenciar positivamente sua aprendizagem. Pesquisas realizadas em todo o mundo confirmam a afirmação. Um estudo recente da Fundação Itaú Social, por exemplo, revelou que a participação da família na educação representa 70% do desempenho escolar de um estudante.
Outro ponto importante é procurar o coordenador pedagógico da escola, questioná-lo sobre o problema do estudante e propor uma parceria. "Pais e professores devem ter o mesmo objetivo. Muitas vezes, a parceria não existe porque um empurra para o outro a responsabilidade pelo problema", diz Silvia Colello, professora de psicologia da Educação da USP, de São Paulo (SP).
- Quais os indícios de que ele precisa de ajuda extra?
- Notas ou conceitos baixos sugerem que algo vai mal. Mas o ideal é que a escola trabalhe sintonizada à família, mesmo fora das épocas de prova. Ou seja, ao menor sinal de que seu filho esteja com desempenho menor do que o esperado, você é informado. É obrigação do colégio identificar as deficiências do estudante e providenciar ajuda durante todo o ano letivo. A recuperação da escola da Vila, em São Paulo, por exemplo, se estende de fevereiro a dezembro. As aulas são ministradas pelo próprio professor, na escola, durante o contraturno. "Em alguns casos essa recuperação não é suficiente, por isso, recorre-se ao professor particular, que vai para a casa do aluno", diz Suzane Sarfatti, orientadora educacional do ensino fundamental II.
- Como saber se devo recorrer ao reforço?
- Antes de contratar um professor particular e gastar fortunas com isso - a hora/aula custa partir de 35 reais - é necessário conversar com o coordenador pedagógico da escola e pedir uma diretriz. "É preciso cobrar da escola e, em último caso, buscar algum tipo de apoio externo", diz Silvia Colello professora de psicologia da Educação da USP.
A decisão sobre o reforço deve ser tomada depois da consulta à escola, que saberá avaliar a necessidade da medida. "Em muitos casos, o próprio colégio já oferece o reforço necessário", explica professor Ricardo Costa Mesquita, diretor do curso de ensino fundamental II do Colégio Santa Cruz, em São Paulo (SP).
- Como definir se o problema é o aluno ou a escola?
- Na maioria das vezes, a dificuldade de aprendizagem não é determinada pelo desinteresse ou incapacidade do aluno. "Crianças com dificuldades neurológicas de aprendizado representam apenas de 3% a 7% dos estudantes no mundo todo", explica a professora Silvia Collelo. A maior parte dos problemas de aprendizagem é resultado de falhas no ensino. A apatia pode estar relacionada a problemas na própria infra-estrutura escolar. Muitos alunos por classe, professores mal-formados e metodologias de ensino que não aproximem o conhecimento do aluno são entraves para deixar de aprender bem. Além disso, o baixo desempenho pode indicar, por exemplo, que falta identificação entre a criança e a escola ou entre a criança e o professor. "Se o seu filho não estiver gostando da escola, é um sinal de que algo não vai bem", diz Silvia Colello.
- O que os pais devem perguntar à escola?
- A família deve tentar entender as dificuldades do estudante. "O que a escola já fez ou está fazendo para corrigir o problema? O que eu posso fazer?" são perguntas a fazer, aconselha o psicólogo Jacques Akerman, de Belo Horizonte (MG).
- O fim do ano é tarde demais para recorrer ao reforço?
- É preciso respeitar as particularidades de cada aluno, já que ritmo e dificuldades de aprendizagem, disciplina e maturidade influem. Não há uma regra geral, pois cada caso deve ser examinado separadamente. "Se o baixo desempenho é resultado de falta maturidade ou de dedicação durante o ano, considero o reforço válido", diz a pedagoga Carmen Galuzzi, de São Paulo (SP). Segundo ela, a própria escola deve sinalizar isso para os pais. "Nada impede, no entanto, que a família tente ajuda extra", explica.
- Como saber se o professor particular é qualificado?
- Há empresas especializadas neste tipo de serviço, mas o ideal é contratar um profissional recomendado pela própria escola. "Um professor sintonizado com a metodologia da instituição pode ser uma vantagem", diz a professora Silvia Colello. Fique atento às normas do colégio em que seu filho estuda. Na Escola da Vila, por exemplo, os professores não podem dar aulas particulares para seus alunos.
- Devo punir meu filho se ele precisar de reforço?
- Não há consenso em relação à aplicação de castigos ou de restrições, mas os pais precisam prestar atenção na relação que estabelecem com os filhos. "Se a necessidade de reforço estiver associada à ausência de limites, a restrição de alguns privilégios pode ser útil", diz o psicólogo Jacques Akerman. Prometer presentes caso o objetivo seja alcançado também não é aconselhável. "O estudante deve entender que a aquisição de conhecimento é a recompensa", recomenda Silvia Colello.