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Biblioteca Básica

Dicas de livros para as férias

por: Equipe do Educar para Crescer

* Por Maria Slemenson

Aqui você encontra diversas opções de livros para serem lidos com seu filho nas férias. Eles foram selecionados pela sua qualidade literária e por terem o potencial de diverti-los nos dias de lazer.

Aproveite este período de descanso para se dedicar a momentos de prazer em família. Vocês podem realizar a leitura de diferentes formas: podem ler a história em voz alta, alternando as vozes das personagens. Outra opção é cada um ler o livro individualmente e depois discutirem as impressões e sensações suscitadas. Aqueles mais extensos podem ser lidos aos poucos, um ou dois capítulos por dia.

Para ajudá-los na escolha das obras, as indicações foram feitas pensando no público infantil (entre 3 e 7 anos) e infanto-juvenil (entre 8 e 13 anos). Bom divertimento!

 

INDICAÇÕES PARA CRIANÇAS ENTRE 3 E 7 ANOS

Obax

André Neves
Editora Brinque-Book

Andre Neves, autor e o ilustrador desta aventura, narra por meio das palavras e das imagens a história de Obax, uma menina africana que vive muitas aventuras. Porém, ninguém acredita nela, afinal, na aldeia onde vive não há muito o que fazer. Invencível diante do olhar incrédulo dos adultos, ela parte para a maior delas: uma volta ao mundo em companhia do parceiro Naifa, um elefante que se perdeu de sua manada.

 

O Leão e o Camundongo

Jerry Pinkney
Editora Martins Fontes

Na lei da selva os mais fortes vencem os mais fracos, sempre. Neste livro, baseado nas Fábulas de Esopo, a regra não se aplica: leão e camundongo protagonizam a história como grandes salvadores. O rato, sem querer, interrompe o sono do Leão, que em um ato de piedade, solta sua presa. Mais tarde, é ele quem liberta o leão de uma armadilha de caçadores. A narrativa é costurada apenas com imagens que pedem para serem lidas e apreciadas pelas crianças.

 

João Esperto leva o presente certo

Candace Fleming
Editora Farol

Neste conto de princesas, o Rei convida todas as crianças do reino para a festa de 10 anos de sua filha. João, aparentemente convidado por engano, se entusiasma com a festa. Apesar da pobreza em que vive com sua família, providencia um delicioso bolo de presente para a princesa e segue a caminho do reinado. Enfrenta uma revoada de corvos, o ogro desgrenhado e a floresta silenciosa e escura. E chega, apenas, com o morango que enfeitava o doce. O que será que a princesa achou do presente?

 

Gildo

Silvana Rando
Brinque-Book

Gildo era muito corajoso, mas havia uma coisa capaz de fazê-lo perder o sono: as bexigas que enfeitam as festas infantis. A cada novo convite de aniversário de seus colegas de escola ficava aterrorizado, mal pregava os olhos pensando nas inúmeras bexigas que seriam entregues após soprarem as velinhas. Até que em um dia não teve como escapar: leia o livro e saiba como Gildo enfrentou o seu medo.

 

INDICAÇÕES PARA CRIANÇAS ENTRE 8 E 13 ANOS

Matilda

Roald Dahl
Editora Marins Fontes

Todo mundo acha que qualquer pai ou professor gostaria de ter um filho ou um aluno que adorasse ler, que preferisse os livros aos jogos de computador, televisão e outras distrações. Mas com Matilda foi diferente. Seus pais não entendiam seu gosto pela leitura. A diretora da escola menos ainda. A menina passava horas na biblioteca, lendo um livro atrás do outro e quanto mais lia, mais aumentavam seus problemas. A história terminaria em tragédia se não fosse a Srta. Mel, uma professora muito querida.

 

Diário de um banana: um romance em quadrinhos

Jeff Kinney
Editora Vergara & Riba

Não é fácil ser criança, crescer menos ainda. Quem já passou pela escola conhece bem os problemas enfrentados por Grag, um menino de 11 anos que, em um diário, conta as desventuras de sua vida escolar. Em uma série com 5 títulos, o garoto enfrenta os desafios da pré-adolescência: disputa entre os meninos, festas e paqueras e mudanças em seu próprio corpo. Quem gostar de Diário de um banana: um romance em quadrinhos, o primeiro da coleção, poderá se aventurar a ler os outros.

 

Contos de Adivinhação

Ricardo Azevedo
Editora Ática

Ricardo Azevedo, autor brasileiro, aproxima as crianças e adolescentes dos contos populares de nosso país, diminuindo a distância existente entre os centros urbanos e rurais, a metrópole e o sertão. Em Contos de adivinhação apresentam-se os tradicionais reis e príncipes ao lado de pessoas simples do sertão, com histórias que transmitem mensagens sobre a vida e a natureza. Com textos curtos, podem ser lidos em uma só sentada e desfrutados pouco a pouco.

 

Pippi meialonga

Astrid Lindgren
Editora Cia das Letrinhas

O mundo é pequeno para Pippi, uma menina de 9 anos que não se amedronta com pouco. Encantadora e autoconfiante, desmente o mito de que as meninas são frágeis e medrosas. Para começar, não tem pai nem mãe e mora sozinha. Feliz e contente vive a sua independência: confecciona suas próprias roupas — nada convencionais. Em companhia de um cavalo e um macaquinho mostra a todas as crianças como transformar o medo em liberdade. Se gostar desta saga, procure os outros livros da coleção.

 

- Leia também: 6 razões para ler com seu filho nas férias

- Faça o teste: Com quem seu filho deve viajar nas férias?

Maria Slemenson foi professora de Educação Infantil e hoje é formadora de professores em projetos de fomento a leitura.

22 de novembro de 2011
14 comentários
 

Dez livros de limerique

por: Equipe do Educar para Crescer

Sugestões de obras que trazem esta poesia divertida sem sentido

Por Luciana Fleury

Diversão garantida é ler um limerique, tipo de poesia curta e que descreve uma situação absurda. Em apenas cinco versos, os autores deste estilo poético conseguem levar o leitor a imaginar como seria se tal situação se desse na vida real, proporcionando muita descontração. Listamos dez livros para quem quiser conhecer melhor essa poesia.
Não deixe de visitar também nosso Especial Limerique, em que você aprende a fazer um poema e ainda pode compartilhar com seus amigos.

Um Livro de Nonsense

Autor: Edward Lear (tradução de Vinícius Alves)
Editora Bernúncia

A obra de Edward Lear, cujo título original é A Book of Nonsense and nonsense songs foi finalmente traduzida para o português e traz limeriques ilustrados pelo próprio autor inglês. Vinícius Alves converte expressões tipicamente inglesas da era vitoriana para um português brasileiro contemporâneo.

 

 

 

Limeriques de um bípede apaixonado

Autora: Tatiana Belinky
Editora 34

Uma menina que só gosta de bichos. Um menino que é apaixonado por essa menina. Só lhe resta mesmo sonhar em ser peixe, macaco ou dromedário, para assim chamar a atenção de sua amada. Tatiana Belinky conta as aventuras deste bípede apaixonado.

 

Limeriques das coisas boas

Autora: Tatiana Belinky
Editora Formato

Perita na criação de limeriques, Tatiana Belinky dessa vez utilizou a fórmula para falar das coisas boas da vida: amigos, amor, natureza, frutas e comidas gostosas, brinquedos… enfim, todas as coisas que fazem da vida uma festa.

 

 

 

 

Limeriques para pintura – Romeu Britto

Autor: Zaé Júnior
Editora: Noovha América

Zaé Júnior inspirou-se no colorido e nas formas dos quadros
de Romero Britto para criar os textos que descrevem com inteligência
e cumplicidade os traços do pintor.

 


Limeriques para pintura – Gustavo Rosa

Autor: Elias José
Editora: Noovha América

O bom-humor dos quadros de Gustavo Rosa é o mote para Elias José criar textos divertidos, criando uma boa oportunidade para se conhecer e discutir a obra do pintor.

 

 


Marmeliques da Praia-Louca

Autora: Viviane Veiga Távora
Editora: Bicho que Lê

Nesta praia maluca, há ondas de areia, surfista-sereia e até tubarão usa touca! Os versos contam com ilustrações de Walter Moreira.

 

 

 

 

Batuques e limeriques

Autores: Clô Paoliello e Marcelo Dolabela
Editora Paulinas

 

Com estrofes leves e engraçadas e ricas ilustrações, a obra amarra em num mesmo nó regiões, Estados, pessoas, profissões, ritmos e instrumentos musicais. É um convite a uma viagem fascinante ao diferente, a trocas culturais que marcam a imensa diversidade e riqueza cultural do Brasil.

 

Limeriques da Coroa Implicante

Autora: Elisabeth Teixeira
Editora Paulinas

 

Os limeriques versam sobre uma senhora que, à primeira vista, pode parecer exigente e intolerante. Mas todas as suas implicâncias, além de engraçadas, têm boas justificativas: suas críticas são um apelo ao seguimento de algumas regrinhas básicas de comportamento como não baforar fumaça de cigarro.

 

 

 

Lé com Cré

Autor: José Paulo Paes
Editora Ática

Adivinhas, limeriques, histórias divertidas e poemas carinhosos compõem este livro, indicado para aqueles que já podem ler bem sozinhos. Prêmio Odilo Costa Filho de melhor livro de poesia para criança, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.

 

 

 

Criança Poeta – Quadras, Cordéis e Limeriques

Autor: César Obeid
Editora do Brasil

 

Por meio de quadras, cordéis e limeriques, esta obra apresenta situações variadas, como a escolha de um nome, a tia que vai ao cinema com o namorado, a saudade de um amor que está longe e as brincadeiras entre pai e filho, entre tantas outras com as quais o pequeno leitor, vai se identificar. Ilustrado por três diferentes profissionais, o livro é um convite ao mundo mágico das rimas.

 

 

Doze livros de Haicai

por: Equipe do Educar para Crescer

Teruko Oda , a melhor haicaísta em atividade no Brasil dá sugestões de leitura do gênero poético que prima pela simplicidade

Por Luciana Fleury


Teruko Oda, brasileira, filha de imigrantes japoneses, é considerada pelos especialistas em Haicai a melhor haicaísta contemporânea do Brasil. Ela teve contato com este gênero poético ainda na infância: seus pais eram praticantes de haiku (composições em japonês) e as reuniões eram, muitas vezes, realizadas na residência da família.

Crie seu próprio haicai e pendure em nossa Árvore do Tanabata!

Porém sua verdadeira iniciação seguida de o estudo sistemático e prática como filosofia de vida deu-se apenas no final dos anos oitenta sob a orientação de um dos mestres do Haicai, H. Masuda. Teruko começou a frequentar as reuniões do então recém-fundado Grêmio Ipê, grupo voltado à produção de haicais.

Sua obra de estreia, Nos Caminhos do Haicai, é lançada em 1993 e abriu caminho para participar de comissões de avaliação de concursos e ministrar oficinas em escolas, bibliotecas públicas e associações. Trabalho que continua, como uma forma de homenagear mestre Goga e dar sequencia à divulgação do haicai tradicional entre os brasileiros.

Nascida na pequena Pereira Barreto, Teruko se diz caipira de berço e coração. “A natureza é para mim repositório de energia vital e fonte de inspiração, não apenas na composição de haicais, mas para tudo na vida”, diz. “Penso que haicai não é poema que se resolve por si. Há uma filosofia milenar que lhe dá sustentação e nos cobra, antes de tudo, uma atitude, um jeito de ser e de ver o mundo. Justamente por isso, o que mais me encanta nesse estilo é a prática do desapego, da não interferência do autor no assunto do poema. Um texto breve e conciso, restrito ao essencial, o haicai nos mostra que nada é permanente, nada nos pertence, nem mesmo nossa própria vida. Pode haver fascínio maior do que buscar esse entendimento?”.

A convite do Educar para Crescer Teruko indicou obras para quem deseja ter maior contato com o Haicai tradicional:

 

Há Estações
Autora: Eunice Arruda
Editora: Escrituras Editora (2004)

“Como colher o haicai exato diante da escassa nitidez das estações?”. O livro é uma pequena amostra — sete haicais de cada estação — de uma década de convivência da autora com membros do Grêmio Ipê e procura respostas para a questão do kigo e sua identificação com o ‘aqui e agora’ do poema.

Oeste
Autor: Paulo Franchetti
Editor: Ateliê Editorial (2008)

Coletânea bilíngüe. Haicais em português acompanhados de versão de mestre Goga em língua japonesa.  Na introdução, colocações do autor sobre  questões como “o que significa fazer haicai em português?” ou “o que se busca incorporar à nossa tradição, por meio do haicai?”

 

Luas e Marés
Autor: Mahelen Madureira (org.)
Editor: Edições Costelas Felinas (2010)

Primeira Antologia de Haicais da Associação Prato de Sopa Monsenhor Moreira, de Santos (SP). Resultado de oficinas desenvolvidas pela organizadora ao longo de dois anos, a coletânea apresenta haicais produzidos por moradores de rua que buscam o Prato de Sopa para fazer suas refeições. As composições, de grande pureza, testemunham o (re)encontro do homem com a natureza — momentos mágicos, cuja leitura vale a pena.

 

Água de Nascente – Haikais
Autor: Matusalém Dias de Moura
Editor: Ed. do autor (2009).

Haicais classificados por estação e kigos catalogados com indicação de página na abertura das respectivas seções. Fruto de um longo e paciente trabalho de observação da natureza, o autor nos mostra com extrema humildade, que o haicai, muito mais que um exercício de síntese, é um caminho.

 

Burajiru: Haicais
Autor: Nelson Savioli
Editor: Qualitymark Editora (2007)

Coletânea onde o autor tenta responder à pergunta: “é possível para um brasileiro, que não descende de japoneses, escrever haicais minimamente aceitáveis nos moldes da tradição dos mestres [japoneses] dos séculos XVII e XVIII?

Apresenta notas detalhadas aos haicais distribuídos pelas estações e um interessante texto sobre “Haicai no mundo corporativo” e “o português no cotidiano japonês”.

 

Insistente Aprendiz: Haicais
Autor: Nelson Savioli
Editora: Qualitymark Editora (2011)

Apresenta haicais classificados conforme o kigo e senryu, poema japonês cuja tônica é a sátira introduzida com um toque de humor. Extensa nota nas páginas finais do livro contendo explicações e comentários que complementam a leitura e servem de guia para a compreensão do universo contido nas três linhas do poema. Na introdução, o autor alerta: Aprende-se fazendo e refazendo. Os haicais deste livro procuram expressar ‘uma sensação, um insight, um momento, muito além de uma simples descrição de imagem’.

 

Goga e Haicai: um sonho brasileiro
Autor: Teruko Oda
Editor: Escrituras Editora (2011)

Depoimentos, impressões, considerações, um pouco da história do Grupo Ipê e uma coletânea de haicais produzidos por seus membros, pretendem oferecer ao leitor uma visão do que é o haicai tradicional na interpretação de mestre Goga e seus seguidores.

 

Janelas e Tempo
Autor: Teruko Oda
Editora: Escrituras Editora (2003)

Coletânea de haicais que procura responder à questão: qual o sentido de se classificar o sol ou a noite, por exemplo, dentro das estações do ano (sol de verão, noite de inverno), uma vez que o sol é apenas sol e a noite é sempre noite, não importando o frio ou o calor. As mesmas colocações em relação aos dias, meses, rios, montanhas, céu, ventos e tantos outros [kigos]. Janelas e tempo é uma pequena coleção de cenas e momentos capturados ao longo de alguns anos de estreita convivência da autora com a natureza brasileira.

 

Furusato no Uta — Canção da terra natal
Autor: Teruko Oda
Editora: Escrituras Editora (2011).

Texto originalmente composto a convite da UNESP/ASSIS para integrar documento acadêmico em comemoração aos 100 anos da imigração japonesa no Brasil, o livro é uma ‘autobiografia poética’. Alternando prosa e poesia, a autora apresenta trechos de sua história familiar e os caminhos que a levaram à prática do haicai. Da apresentação de Paulo Franchetti: “este livro representa um momento de apogeu no processo de aclimatação do haicai à língua portuguesa e à literatura brasileira…”

 

Para se aprofundar no tema:

Haikai – Antologia e História, de Paulo Franchetti (org.), Elza Taeko Doi e Luiz Dantas. Editora Unicamp (1990).

Um dos mais completos livros de introdução ao haicai em língua portuguesa no Brasil aborda teoria, história e bibliografia básica, além de 107 haicais dos mestres japoneses organizados por estação. Apresenta o poema original em japonês e a tradução em português, muitos deles acompanhados de comentários e notas que ajudam o iniciante a entender ‘o que não está dito’ no texto poético.

O Haicai no Brasil, de H. Masuda Goga. Editora Oriento (1988).

Trabalho originalmente publicado no Japão, tradução de José Yamashiro. História, interpretação, apropriação e desenvolvimento do haicai no Brasil. As principais tendências e suas características.

Natureza – Berço do Haicai, H. Masuda Goga e Teruko Oda. Editora Empresa Jornalística Diário Nippak Ltda. (1996).

Kigologia e Antologia. Até a presente data, única obra do gênero, composta de três partes. A primeira apresenta um estudo sobre o kigo, catalogação e explicação de cerca de 1400 verbetes e sua distribuição nas respectivas estações do ano. A segunda, uma antologia de poemas produzidos por praticantes radicados no Brasil e que servem de exemplo de utilização dos kigos catalogados. A terceira, um suplemento com vários textos sobre o haicai encadeado e os princípios que norteiam a produção do Grêmio Haicai Ipê.

 

27 de setembro de 2011
3 comentários
 

11 perguntas (de adolescentes) para Mia Couto – e uma entrevista inspiradora

por: Marina Azaredo

E se você tivesse a oportunidade de entrevistar um escritor? Pois os alunos do 3º ano do Ensino Médio do Colégio São Luís, em São Paulo, tiveram. E não foi um escritor qualquer. Há duas semanas, os adolescentes estiveram com o moçambicano Mia Couto no auditório da escola. Em quase duas horas de conversa, os meninos não se intimidaram: fizeram perguntas inteligentes e não deixaram espaço para silêncios constrangedores (a propósito, veja o que o escritor tem a dizer sobre o silêncio na oitava pergunta).

Eu estive lá para acompanhar a entrevista e, junto com os alunos, ri e me emocionei com as respostas de Mia. Ao final, ainda tive a chance de perguntar a ele sobre a diferença que a Educação fez em sua vida. Confira abaixo a entrevista e encante-se com as histórias de Mia Couto, um dos maiores escritores africanos da atualidade. (Fiz questão de deixar as respostas na íntegra. Ficaram longas, mas valem a leitura, garanto!)

1 – Você lutou pela independência de Moçambique durante a guerra civil. Como a sua vivência como militante da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) marcou o seu trabalho como escritor?
Marcou de várias maneiras. Foi um processo longo, de escolhas, de um certo risco em um dado momento. Foi algo que me ensinou a não aceitar e a não me conformar. É a grande lição que tiro, que também me ajuda hoje a estar longe desse movimento de libertação, que se conformou e se transformou naquilo que era o seu próprio contrário. Mas eu acredito que ser uma pessoa feliz e autônoma é uma conquista pessoal. Não se pode esperar que algum movimento social ou político faça isso por você. Isso é algo que resulta do nosso próprio empenho.

2 – Como é ser escritor em Moçambique?
Vou contar um pequeno episódio que pode ajudar a responder a essa questão. Um dia eu estava chegando em casa e já estava escuro, já eram umas seis da tarde. Havia um menino sentado no muro à minha espera. Quando cheguei, ele se apresentou, mas estava com uma mão atrás das costas. Eu senti medo e a primeira coisa que pensei é que aquele menino ia me assaltar. Pareceu quase cruel pensar que no mundo que vivemos hoje nós podemos ter medo de uma criança de dez anos, que era a idade daquele menino. Então ele mostrou o que estava escondendo. Era um livro, um livro meu. Ele mostrou o livro e disse: “Eu vim aqui devolver uma coisa que você deve ter perdido”. Então ele explicou a história. Disse que estava no átrio de uma escola, onde vendia amendoins, e de repente viu uma estudante entrando na escola com esse livro. Na capa do livro, havia uma foto minha e ele me reconheceu. Então ele pensou: “Essa moça roubou o livro daquele fulano”. Porque como eu apareço na televisão, as pessoas me conhecem. Então ele perguntou: Esse livro que você tem não é do Mia Couto?”. E ela respondeu: “Sim, é do Mia Couto”. Então ele pegou o livro da menina e fugiu.

Essa história é para dizer que, para uma parte dos moçambicanos, a relação com o livro é uma coisa nova. É a primeira geração que está lidando com a escrita, com o escritor, com o livro. Nós, escritores moçambicanos, sabemos que escrevemos para uma pequena porcentagem da população, que são os que sabem ler e escrever. O livro tem uma circulação muito restrita. Mas, mesmo assim, as tiragens dos meus livros em Moçambique giram em torno de 6 mil, 7 mil exemplares, o que é um número alto. Quando comparo com as tiragens que faço no Brasil, posso dizer que o Brasil não vai muito além. O Brasil não lê tanto quanto pensamos. Se contarmos a população inteira do Brasil e apenas aquela que lê e compra livros, veremos que a situação é proporcional à de Moçambique.

3 – O que os escritores fazem para promover o livro em Moçambique?
A Associação de Escritores de Moçambique faz encontros em escolas primárias e secundárias e em fábricas. E aí tentamos fazer alguma coisa. Mas os livros estão muito caros. É o trabalho que escritor faz, mas é uma panaceia, porque o resto não depende do escritor.

4 – Quais são os maiores problemas de Moçambique hoje?
Antes de responder à pergunta, eu vou dizer uma coisa. A imagem que nós temos uns dos outros é feita muito de clichês, de estereótipos. Vocês também têm uma imagem feita fora. A primeira vez que eu vim a São Paulo, há alguns anos, fui protagonista de uma história engraçada. Quando eu estava saindo de Moçambique, disseram-me que São Paulo era perigosíssima, que havia balas perdidas, gente morrendo, e eu comecei a ficar cheio de medo. Uma das minhas filhas me dizia até que eu ia morrer. Na viagem de avião, que dura onze horas, eu vim pensando que era um perigo e que eu seria assaltado. Tinham me dito para tomar cuidado quando chegasse ao aeroporto, porque tinha saído na Globo – lá também temos Globo – que havia falsos táxis que raptavam as pessoas.

E, de fato, eu já estava contaminado com aquela coisa. Quando cheguei, tinha um motorista da minha editora, mas ele não estava usando uniforme e não tinha nenhuma identificação. Eu logo perguntei se ele tinha identificação e ele disse: “Não, eu sou o Pepe”. E foi me conduzindo por um corredor e dizendo que o carro estava lá no fundo. E o carro não era propriamente um táxi. E a ideia de que eu estava sendo raptado começou a soar na minha cabeça. Quando entrei no carro e sentei ao lado do motorista, eu já estava olhando para a frente e pensando “esses são os últimos momentos da minha vida, vou reviver todo o meu passado, como nos filmes”. Até que o motorista pegou algo no porta-luvas. Era uma coisa metálica, para o meu desespero. E ele estendeu essa coisa e disse: “Aceita uma balinha?”. Vocês estão rindo, mas eu não tinha nenhuma vontade de rir, porque balinha lá não quer dizer a mesma coisa que aqui. Quer dizer bala no sentido literal mesmo, projétil de bala. E aí eu só consegui pensar que estava sendo assaltado, que aquele homem ia me matar, mas que era o assassino mais simpático que eu podia encontrar.

Isso é para mostrar como construímos a imagem uns dos outros. A imagem que se tem da África fora da África é sempre associada à fome, à miséria, à guerra. Mas os africanos não vivem todos assim. Ele são felizes, são construtores de vida, têm uma vida social riquíssima, têm culturas diversas, é o lugar no mundo onde há mais diversidade do ponto de vista linguístico e cultural. Então os problemas que temos são os mesmos da maior parte dos países africanos. Têm a ver com a miséria, têm a ver com o fato de que a sua própria história é muito recente. Moçambique teve uma guerra civil de 16 anos, em que morreram muitas pessoas. Quando morre uma pessoa, tanto faz se é militar ou civil, mas o que é mais triste é que as guerras da África são guerras que matam sobretudo os civis. Os soldados morrem pouco, porque muitas vezes se transformam em forças descomandadas, já que não existe um Estado forte e não há territórios definidos. Mas a África toda não é isso, há grandes histórias de sucesso. Moçambique é ao mesmo tempo uma grande história de sucesso, porque a guerra acabou em 1992 e, quando eu pensava que nunca mais ia ver a paz, o governo conseguiu instalar a paz juntamente com a sociedade civil. E hoje Moçambique é um grande parceiro internacional de investimento e de outros governos. Por exemplo, hoje o Brasil está muito presente em Moçambique, com projetos de construção, de estradas, portos, barragens etc. Portanto, acho que Moçambique vive hoje um momento muito feliz. Mas continua sendo um dos países mais pobres do mundo.

5 – Com sua obra, você conseguiu apresentar a realidade de um país, e até de um continente. Como é a sua relação com Moçambique?
Eu não me considero representante de Moçambique, me considero apenas representante de mim mesmo. Eu tenho duas dificuldades: eu sou de um continente em que os brancos são minoria. Os brancos moçambicanos são minoria. Num país de 21 milhões, os brancos são 10 ou 20 mil. Portanto, eu não poderia ser o representante de qualquer coisa, se é que existe isso de representatividade. E a outra dificuldade é que eu tenho nome de mulher. Agora já não acontece tanto, mas antes, quando eu ia visitar um outro país, muitas vezes estavam esperando uma mulher negra. E eu ficava no aeroporto esperando que alguém viesse falar comigo e nada. Já tive desentendimentos terríveis.

Uma vez fui visitar Cuba e tinham organizado um presente para cada membro da delegação de jornalistas. Voltei com uma caixa de presentes. Na época, vivíamos em guerra. E, na guerra em Moçambique, nós vivíamos em uma situação-limite, não tínhamos nada. Nós saíamos de casa em busca de coisas para comer. Era essa a situação que meus filhos tinham de enfrentar todos os dias. Então eu estava fascinado com aquela coisa de ter ganhado um presente. Quando cheguei em Maputo, abri aquela caixa e eram vestidos, brincos, eram coisas para uma mulher, para a senhora Mia Couto. Então eu não me sinto representante nesse sentido, mas sinto que o fato de seu ser conhecido hoje fora de Moçambique me obrigar a ter uma responsabilidade para com o meu próprio país. Então, quando estou fora, eu tento divulgar a cultura de Moçambique, os outros escritores. Trago livros de escritores moçambicanos e entrego às editoras, para saber se é possível que sejam editados etc.

6 – E com Portugal?
Eu sou descendente, sou filho de portugueses e tenho uma relação com Portugal muito curiosa, porque eu não conhecia Portugal até eu ser adulto. Só fui a Portugal quando eu comecei a publicar meus primeiros livros. E era uma coisa muito estranha, porque a concepção africana de lugar é que o lugar é nosso quando os nossos mortos estão enterrados no lugar. E eu não tenho mortos em Moçambique, infelizmente. Então os meus mortos estão enterrados em algum lugar no norte de Portugal. E eu fui ver esse lugar. Eu queria ver justamente porque queria ter essa relação quase religiosa com o lugar.

O que acontece é que os meus pais imigraram para Moçambique quando eram jovens, tinham 20 anos, e viveram toda a sua vida lá, nunca mais tiveram relação com Portugal. E eles contavam histórias de um país que, ao mesmo tempo que me fascinava, era uma coisa muito distante. O que acontecia é que a minha mãe, ao contar histórias sobre a sua família, seus tios e avós, trazia para mim e para meus irmãos uma presença que nos fazia muita falta, porque todos os meus amigos tinha avós, tios e falavam dos primos. Eu não tinha ninguém. A minha família eram os meus pais e os meus três irmãos. Então o que a minha mãe fazia ao contar histórias era inventar a família inteira. Eu precisava ter um sentimento de eternidade que era conferido por essas histórias que a minha mãe contava. Mas eram quase todas mentira, quase todas eram inventadas por ela.

7- Qual é a sua opinião sobre a reforma ortográfica?
Eu não sou a favor. Considero que alguns dos motivos que foram invocados para a reforma ortográfica não são verdadeiros. E acho que é uma discussão com a qual os portugueses, principalmente, ficaram muito nervosos, porque, para Portugal, mexer na língua é uma coisa muito sensível. Algumas pessoas de Portugal acreditam que a língua é a última coisa que eles têm, que é a primeira e última coisa que têm, é um sentimento imperial da sua própria presença no mundo que foi posto em causa. Mas a minha questão não é essa. É que eu sempre li os livros dos brasileiros e nunca tive problema nenhum, nunca tive dificuldade nenhuma. Para vocês, que estão lendo meus livros em português de Moçambique, existe alguma dificuldade particular por causa da grafia? Ou a dificuldade é o resto e essa é a única coisa que não é difícil?

Eu acho inclusive que haver uma grafia que tem alguma distinção, um traço de distinção pode trazer um outro sabor a uma escrita. E os brasileiros conhecem muito pouco de Moçambique, de Angola ou de São Tomé. Às vezes eu ando na rua e tenho uma dificuldade enorme para explicar quem eu sou. Na verdade, isso eu não sei explicar, mas a dificuldade é para explicar de onde eu venho. Quando falo que não sou de Portugal, sempre fica uma coisa difícil. Fazem as perguntas mais estranhas sobre o que pode ser Moçambique, se é um país que fica perto do Paraguai, por exemplo. Então a distância entre nós não é um problema que deriva da ortografia, deriva de outras coisas, de política, de uma falta de interesse, de um distanciamento. Isso não será resolvido mudando o acordo ortográfico.

8 – O que pode mudar a imagem negativa que muitas pessoas têm da África?
Há várias Áfricas e eu estou falando daquela que eu conheço. Essa África que eu conheço sobrevive por um espírito de solidariedade, de abertura e de respeito com os outros. A forma que os africanos têm de se abordar, de saber um dos outros é uma coisa genuinamente autêntica. Quando eu estou cumprimentando alguém, quando estou falando com alguém, eu dou espaço para o outro. Então há uma lição de escutar os outros. Eu nunca falo quando o outro está falando, dou espaço, não tenho medo do silêncio, que é uma coisa que acontece aqui. As pessoas estão conversando, de repente há um silêncio, e isso é um peso, é uma coisa da qual temos que nos libertar, é uma ausência. Na África, essa ausência não existe. Nesse silêncio, há sempre alguém que fala. São os mortos. Por exemplo, a relação com o corpo. É preciso ter tempo para encontrar alguém. Quando eu estou falando com um homem, eu cumprimento com um aperto de mão. Mas o aperto de mão não é igual, tem um ritual. Depois do aperto, a mão fica na mão da outra pessoa. Não tem nada a ver com interpretação gay. A mão fica na mão da pessoa com quem estamos falando, e essa mão não tem peso, é uma mão leve. Porque se fala com o corpo. Temos essa liberdade de poder usar o corpo para dizer coisas que não podem ser ditas pela palavra. São coisas pequenas que nos mudam muito interiormente. É uma capacidade de estar disponível para os outros. E capacidade de ser feliz.

Eu também encontro muito isso no Brasil. Tem a letra de música brasileira que diz “levanta, sacode a poeira, dá volta por cima”. Eu acho que isso é, em grande parte, uma herança africana. Isto é para não ficar lamentando a desgraça. Eu acho que, se os europeus vivessem as dificuldades que vivem os africanos, eles seriam muito amargos. Aliás, já são. A forma como os africanos celebram a alegria de viver e o fato de que qualquer momento é um momento de festa, de celebração, de dança, de canto, acho que é outra coisa que é importante aprender. Há uma tolerância profunda. Vocês vão ouvir mil histórias sobre intolerância, e essas histórias também são verdadeiras.  O mundo é feito dessa coisa contraditória, mas a verdade é que há uma tolerância muito grande. Essa tolerância nasce de uma coisa. O que eu vou dizer agora é muito importante: a África só pode ser entendida se vocês perceberem que a África tem uma outra religião. Essa África negra tem uma outra religião. Essa religião não tem nome. Não é o candomblé, não é a umbanda, é outra coisa. É uma religiosidade que não se separou das outras esferas do pensamento. Não é um sistema de pensamento. Na África que eu conheço, existem os deuses das famílias. Você tem os seus deuses, eu tenho os meus deuses. Isso significa que eu não estou muito preocupado em te convencer de que existe uma verdade só, que é uma coisa muito típica das regiões monoteístas, que é uma verdade que tem de ser imposta ao outro e o outro tem de seguir esse princípio. Você pode ter a sua verdade, eu tenho a minha, e está tudo certo. Acho que essa é a razão para os africanos terem essa tolerância.

Mas a verdade é que africanos são muito parecidos com todos os outros. Essa ideia de que a África é muito diferente, muito exótica existe só na cabeça de algumas pessoas. Mas há uma coisa que é preciso ser dita. Em uma sociedade que é muito pobre, às cinco da manhã, às vezes eu saio de casa e vejo as pessoas já acordadas, atravessando quilômetros a pé, andando 30, 40 quilômetros para ir à escola, saindo de casa sem o café da manhã e tomando simplesmente uma xícara de chá com muito açúcar para dar energia, para ir para a escola aprender. Eu tenho um prazer enorme de ir às escolas em Moçambique, porque os meninos estão ali com uma fé quase religiosa. Eles estão ali absorvendo, têm os olhos abertos até o infinito, estão completamente ali. Não se ouve uma mosca passando na sala. É um investimento que eles fazem em uma outra esperança, em uma outra crença. É impressionante. Mas há escolas em Moçambique nas quais eu não vou: a escola americana, por exemplo, que é uma chatice. É uma vida feita de facilidades, em contraste com essa vida de conquistas, em que as pessoas têm de sair de manhã e têm de lutar. Às vezes nem tenho coragem de perguntar a esses meninos o que eles fizeram para chegar à escola naquele dia. Muitas vezes o giz é feito com pau de mandioca seca. Às vezes, não há sala. É uma árvore. E não há cadeiras, as pessoas sentam no chão. No entanto, aqueles meninos estão todos os dias ali na escola, assim como os professores. Isso é uma grande esperança. É um universo de gente que sabe que tem de fazer isso para construir uma vida diferente. É uma grande escola.

9 – Como você e as personagens da sua obra dialogam com o mundo contemporâneo, que é marcado pelo consumismo e pelo hedonismo?
Eu acho que um jogo de construção e desconstrução porque esse mundo que você retrata como sociedade do consumo existe e não existe em Moçambique, porque muitas vezes consumimos muito pouco. Consumimos mais aquilo que é ilusão. Cada vez menos o Estado confere Educação e saúde, e nós temos que conseguir isso por outras vias. Então o que eu procuro fazer nos meus livros é uma coisa que eu posso fazer como escritor. Eu não posso lutar para além desse limite, que é sugerir que há outros caminhos, que é possível sonhar, que não podemos ficar acomodados, resignados. Obviamente eu não posso propor uma tese ou um modelo alternativo nos meus livros, nem saberia fazer isso, mas posso incentivar o gosto, a vontade.

10 – Como você vê os seus personagens no cinema? Como é a visão física deles?
É um estranhamento, porque aquilo que eu criei não tinha voz nem rosto, nem para mim mesmo. Então de repente o personagem tem uma voz. Mas, mesmo que seja a mais bela voz do mundo ou o rosto mais belo do mundo, o fato de ter um rosto e uma voz e não estar aberto e não ter vozes múltiplas é uma perda. Por isso, eu me distanciei. Se participo do filme, é somente para pontualmente dar algum apoio, mas não como alguém que tenha competência para isso, porque eu não tenho. Eu quero que o realizador de cinema faça um produto distante, que é capaz de se soltar, ganhar asas e sair do texto escrito, senão perde como livro e perde como filme.

11- Você gostou de “Um rio chamado tempo, uma casa chama terra”, filme baseado em seu livro?
Mais ou menos. O que tinha de dizer já disse ao realizador, que é meu amigo. Gostei, mas não gostei.

 

Para saber mais:

4 livros de Mia Couto que você tem que ler – e 1 para ler com o seu filho

19 de agosto de 2011
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4 livros de Mia Couto que você tem que ler – e 1 para ler com o seu filho

por: Marina Azaredo

Ele nasceu na Beira, em Moçambique, em 1955, e hoje é considerado um dos principais escritores africanos, comparado a Gabriel Garcia Márquez, Guimarães Rosa e Jorge Amado. Filho de imigrantes portugueses, começou a carreira como jornalista e é formado também é biologia. Em suas obras, tenta recriar a língua portuguesa com uma influência moçambicana.

Conheça cinco livros essenciais de Mia Couto – quatro para adultos e um para crianças (e para adultos também, por que não?).

1 – Terra Sonâmbula (2007)

Um ônibus incendiado em uma estrada serve de abrigo ao velho Tuahir e ao menino Muidinga, em fuga da guerra civil que atinge Moçambique. O veículo está cheio de corpos carbonizados. Mas há também um outro corpo à beira da estrada, junto a uma mala com os “cadernos de Kindzu”, o diário do morto em questão. A partir daí, duas histórias são narradas paralelamente: a viagem de Tuahir e Muidinga, e, em flashback, o percurso de Kindzu em busca dos naparamas, guerreiros tradicionais, que são, aos olhos do garoto, a única esperança contra os senhores da guerra. É considerado um dos melhores livros africanos do século XX.

 

2 – Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra (2003)

O retorno de Marianinho a Luar-do-Chão não é exatamente uma volta às suas origens. Ao chegar à ilha natal, incumbido de comandar as cerimônias fúnebres do avô Mariano – de quem recebeu o mesmo nome e de quem era o neto favorito -, ele se descobre um estranho tanto entre os de sua família quanto entre os de sua raça, pois na cidade adquiriu hábitos de um branco. Aos poucos, Marianinho percebe que voltou à ilha para um renascimento. Luar-do-Chão encontra-se num estado de abandono, decadência e miséria. Trata-se também de um impasse cultural, religioso e político, que guarda correspondência com a situação social da África de hoje. O livro virou um filme de mesmo nome dirigido pelo cineasta português José Carlos Oliveira.

 

3 – E se Obama fosse africano? (2011)

É o livro mais recente de Mia Couto. Reúne o que ele chama de “interinvenções”, transcrições de palestras proferidas pelo autor em eventos na África, na Europa e no Brasil. Nelas, o autor aborda de modo corajoso e criativo os principais impasses da África contemporânea. Temas como a corrupção, o autoritarismo, a ignorância, os ódios raciais e religiosos, mas também a riqueza da tradição oral e das culturas locais, o vigor artístico, as relações complexas entre o português e as línguas nativas, a influência de Jorge Amado e Guimarães Rosa sobre a literatura luso-africana são abordados na obra.

 

 

4 – Venenos de deus remédios do diabo (2008)

Bartolomeu Sozinho é um velho mecânico naval moçambicano, aposentado do trabalho, mas não dos sonhos ardentes e dos pesadelos ressentidos que elabora em seu escuro quarto de doente terminal. Ele é atendido em domicílio por Sidónio Rosa, médico português. A narrativa entrelaça a vida de Bartolomeu, de sua rancorosa mulher, Munda, da ausente e quase mitológica Deolinda, filha do casal, do dedicado Doutor “Sidonho”, bem como de Suacelência, o suarento e corrupto administrador de Vila Cacimba, um lugarejo imerso em. São vidas feitas de mentiras e ilusões que tornam difícil diferenciar o sonho da realidade.

 

5 – O gato e o escuro (2008) – infantil

Pintalgato vive sendo alertado pela mãe para que não ultrapasse a fronteira do dia. Mas ele, louco para descobrir o que se esconde sob a sombra da noite, decide se aventurar e acaba tendo um encontro inusitado com o escuro. Quando volta para a luz do dia, descobre que seu pêlo, antes amarelo com pintinhas, está preto como a noite, e fica apavorado. Com ajuda da mãe, porém, consegue perceber que o medo do escuro, na verdade, é o medo das “ideias escuras que temos sobre o escuro”.
Com uma prosa envolvente e cheia de pequenas surpresas poéticas, este livro infantil fala das aflições e do encantamento com o desconhecido.

 

19 de agosto de 2011
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Para ler brincando

por: Mariana Queen

A Menina do Narizinho Arrebitado foi o primeiro livro infantil brasileiro a ganhar uma versão interativa para tablets

Por: Equipe do Educar para Crescer

Que pequeno leitor resiste à magia de livros que podem ser coloridos e depois apagados, para então ser coloridos novamente – ou em que é possível mover objetos com o chacoalhar da tela, compor música, ver peixinhos nadando ou até derrubar a casa dos Três Porquinhos com um sopro?

Com recursos sedutores e fáceis de usar, os tablets proporcionam à leitura níveis até aqui impensáveis de dinamismo e interatividade – uma forma excelente de despertar nos pequenos o interesse por essa atividade. “Os estímulos de novos elementos sensoriais, como sons e movimentos, ajudam a atrair a atenção da criança à narrativa”, explica a psicopedagoga Adriana Fóz. Ainda são poucos os títulos infantis em português. Mas, com o incentivo fiscal anunciado pelo governo brasileiro no fim de maio – os tablets produzidos no país terão redução de impostos e, consequentemente, de preços -, cada vez mais livros digitais devem chegar às lojas virtuais. A seguir, algumas boas opções já disponíveis para o iPad, que conta com o maior acervo nesse segmento:

A Menina do Narizinho Arrebitado

Primeiro livro infantil brasileiro a ganhar uma versão interativa para tablets, A Menina do Narizinho Arrebitado, escrito em 1920 por Monteiro Lobato, conta com diversos recursos animados. Em uma página escura, em que os personagens caminham dentro de uma caverna, o leitor ilumina o texto arrastando um vaga-lume pela tela. Por enquanto, o aplicativo inclui apenas uma parte do livro. Mas, segundo a editora, toda a obra estará disponível nos próximos meses

Ideal para: 5 a 10 anos

Desenvolvido por: Editora Globo

Preço: grátis

Alice no País das Maravilhas

Há diferentes livros digitais baseados na obra de Lewis Carroll. A versão em português (de Portugal, que apresenta diferenças apenas no sotaque da narração) tem frases curtas e desenhos divertidos que atraem a atenção dos mais novos. O aplicativo em inglês, embora possua recursos mais criativos, tem visual sóbrio e texto longo. É recomendado, portanto, para os mais crescidinhos

Ideal para: 2 a 7 anos (português) e a partir de 7 anos (inglês)

Desenvolvidos por: Itbook (português) e Atomic Antelope (inglês)

Preço: 2,99 dólares (português) e 8,99 dólares (inglês)

Os Três Porquinhos

O pequeno leitor participa da história, por exemplo, quando assopra e ajuda o lobo a derrubar as casas dos porquinhos. O livro traz ainda brincadeiras conhecidas das crianças, como o jogo dos erros e o da memória. O aplicativo foi desenvolvido em português de Portugal – que aparece no sotaque da narração, mas não atrapalha a leitura de frases simples

Ideal para: 2 a 7 anos

Desenvolvido por: Itbook

Preço: 2,99 dólares

Meus Dois Pais

Conta como o menino Naldo enfrenta a separação dos pais e aprende a lidar com uma família não convencional, depois que seu pai passa a morar com outro homem. A história, de Walcyr Carrasco, traz ilustrações animadas e uma atividade relacionada ao tema, em que a criança cria fotografias de famílias “diferentes”

Ideal para: 5 a 13 anos

Desenvolvido por: Editora Ática

Preço: 9,99 dólares

Rapunzel

Animações e efeitos sonoros interativos seduzem o pequeno leitor nesta versão digital da fábula dos irmãos Grimm. A criança pode ajudar um dos personagens a colher rabanetes e, em outra página, produzir sua própria música ao tocar notas musicais flutuantes. O aplicativo tem textos em português ou inglês

Ideal para: 5 a 10 anos

Desenvolvido por: Rene Retz

Preço: 4,99 dólares

A Ararinha do Bico Torto

Do escritor Walcyr Carrasco, o livro conta a história de Nina, uma arara rejeitada pela mãe por ter o bico torto. Traz desenhos para colorir e narração, além de fichas complementares com informações sobre as aves-personagens

Ideal para: 2 a 7 anos

Desenvolvido por: Editora Ática

Preço: 9,99 dólares

Se Criança Governasse o Mundo

Narração, trilha musical e efeitos especiais se combinam no livro escrito pelo artista plástico Marcelo Xavier. Quando a criança chacoalha o tablet, por exemplo, frutos caem de uma árvore ou objetos pulam, flutuam ou se movem pela tela

Ideal para: 2 a 7 anos

Desenvolvido por: Editora Saraiva

Preço: 7,99 dólares

Cinderela HD

Os desenhos são animados, mas a interação se limita a mudanças sutis no cenário. A história pode ou não ser narrada, mas com o toque na tela a criança ativa as falas dos personagens relativas àquela cena

Ideal para: 2 a 7 anos

Desenvolvido por: iBigToy

Preço: 4,99 dólares

Livro animado
Os livros interativos ainda nem deixaram de ser novidade e um estúdio americano resolveu dar um passo adiante. O recém-lançado The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore (Os Fantásticos Livros Voadores do Sr. Morris Lessmore) é uma adaptação para o iPad do premiado curta-metragem de mesmo nome produzido, no ano passado, pelo estúdio Moonbot. Um misto de livro digital e filme, o aplicativo conta a emocionante história de um homem que dedica sua vida aos livros. Mr. Morris Lessmore apresenta efeitos visuais de alta qualidade que permitem ao leitor interagir não apenas com ilustrações, mas com as próprias cenas ao longo da narrativa. Para crianças e adultos. Preço: 4,99 dólares

9 de junho de 2011
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21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo

por: Marcela Cataldi Cipolla

A 21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo acontecerá entre os dias 12 e 22 de agosto deste ano, no Pavilhão de Exposições do Anhembi. Como sempre, o evento contará com diversas atividades para todas as idades. A programação desta edição dará destaque aos temas Lusofonia, Livro Digital e para as obras de Machado de Assis e Clarice Lispector.

Além disso, o Salão de Idéias está programando cerca de 40 encontros que abordarão desde a literatura em suas diversas vertentes até o vampirismo. Haverá também um espaço dedicado aos livros gastronômicos (intitulado Cozinhando com Palavras) e áreas reservadas para os jovens (com encontros sobre assuntos de interesse dessa faixa etária, por exemplo, a escolha da profissão), além da presença de nomes do teatro, música e cinema no Palco Literário, que terá a curadoria de Walcyr Carrasco.

Para a capacitação dos profissionais ligados à Educação, a bienal organizou o Espaço do Professor, que terá como curadora a escritora Marisa Lajolo, o objetivo desse ambiente é promover pequenos cursos sobre o uso de livros em sala de aula.

Já para o público infantil, o evento oferecerá várias atividades para estimular o hábito da leitura entre as crianças. É possível destacar os espaços organizado pela IPL (Instituto Pró-Livro) e por Maurício de Sousa. Ambos com propostas de atividades lúdicas, divertidas e educativas. Para se ter uma ideia, o ambiente do autor da Turma da Mônica terá atrações como a Penteadeira Real, onde as crianças serão caracterizadas como personagens das fábulas; o Despoluidor de Rio, em que, as crianças ajudam a limpara o rio da história da Pequena Sereia com atiradores de bolinhas e o Labirinto Floresta, que reproduz um labirinto com troncos de árvores como na história da Chapeuzinho Vermelho.

Para as escolas que desejam visitar a bienal, as inscrições foram prorrogadas até o dia 12 de julho. É necessário que os representantes da escolas façam o cadastro, basta acessar a área visitação escolar do site da Bienal do Livro. É importante lembrar que a entrada para alunos e professores cadastrados é gratuita.

Mais informações:

21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo
Data: 12 a 22 de agosto de 2010
Local: Pavilhão de Exposições do Anhembi – Av. Olavo Fontoura, 1.209 – São Paulo/SP
Site: www.bienaldolivrosp.com.br

6 de julho de 2010
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Formação reflexiva

por: Bruna Nicolilelo

Entre 1995 e 1996, como diretora pedagógica do Colégio Poço do Visconde, em São Paulo, tive o privilégio de travar discussões sobre o planejamento, a avaliação e o processo de formação do professor democrático com meu pai, o educador Paulo Freire (1921-1997). Ao longo dos nossos encontros, discutimos o quanto seria importante ele escrever um livro que fosse diretamente voltado à formação do professor. Por isso, ouso dizer que a ideia da obra Pedagogia da Autonomia – Saberes Necessários à Prática Educativa (148 págs., Ed. Paz e Terra, tel. 11/ 3337-8399, 10 reais) esteve atrelada, em certa medida, a esses encontros. O fio condutor dos três capítulos é o processo de formação do educador democrático, cujo objetivo, afinal, é a conquista de sua independência, como também a do aluno.

A obra, a última de Paulo Freire em vida, é um convite apaixonado e intenso a todo profissional que aspira ser um educador crítico e autor do seu processo de formação. Ele deixa claro que os saberes necessários à prática docente, problematizados ao longo do livro, estão todos ancorados na sua forte convicção de que a Educação é um processo humanizante, político, ético, estético, histórico, social e cultural. Por outro lado, esses saberes denunciam a necessidade de o professor assumir-se um ser pensante. Curioso, que duvida e faz da sua fala um aprendizado de escuta. Humilde, que, embora se reconheça condicionado por circunstâncias sociais, econômicas e culturais, não é um ser incapaz de gestar transformações. Competente, que estuda, se prepara e tem o domínio do conteúdo que ensina. Por fim, generoso consigo próprio para que o possa ser com o aluno. Em razão do meu envolvimento nas discussões que levaram à produção da obra, recebi de meu pai um convite para escrever o prefácio do livro. Infelizmente naquele momento, não fui capaz de aceitar, pois não me sentia suficientemente preparada. Lembro-me ainda hoje da forma generosa com a qual ele acolheu a minha incapacidade de dar conta do desafio.

Anos se passaram e fui convidada a resenhar a obra para NOVA ESCOLA, o que me permite escrever hoje o que não consegui escrever ontem, tendo a chance, portanto, de ressignificar a experiência.

TRECHO DO LIVRO

“Na formação permanente dos professores, o momento fundamental é o da reflexão crítica sobre a prática. É pensando criticamente a prática de hoje ou de ontem que se pode melhorar a próxima prática. O próprio discurso teórico, necessário à reflexão crítica, tem de ser tal modo concreto que quase se confunda com a prática. O seu ‘distanciamento’ epistemológico da prática enquanto objeto de sua análise, deve dela ‘aproximá-lo’ ao máximo. Quanto melhor faça esta operação tanto mais inteligência ganha da prática em análise e maior comunicabilidade exerce em torno da superação da ingenuidade pela rigorosidade. Por outro lado, quanto mais me assumo como estou sendo e percebo a ou as razões de mudar, de promover-me, no caso, do estado de curiosidade ingênua para o de curiosidade epistemológica. Não é possível a assunção que o sujeito faz de si numa certa forma de estar sendo sem a disponibilidade para mudar.”

FÁTIMA FREIRE DOWBOR, autora desta resenha, é pedagoga formada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e consultora pedagógica.

*Matéria publicada na edição de maio da revista Nova Escola.

31 de maio de 2010
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