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FAMÍLIA

O que aprendi com minha mãe

Lya Luft, Ivaldo Bertazzo e outras personalidades relembram os ensinamentos mais preciosos que receberam de suas mães


25/04/2012 19:40
Texto Bruna Nicolielo
Educar
Foto: Marta Santos
Foto: mãe
Neide Senna da Silva, mãe de Ayrton e Viviane Senna

Transmitir valores essenciais, amar, acolher, dizer "não" quando convém. Ser mãe é um exercício integral de amor e compreensão. E todos guardamos lembranças ternas e muito pessoais dessas mulheres tão especiais em nossas vidas.

Para comemorar o Dia das Mães, perguntamos a várias personalidades o que elas aprenderam no convívio materno. São relatos de memórias familiares, repletos de lembranças afetuosas. A escritora Lya Luft, por exemplo, revelou que aprendeu a cultivar a alegria e a coragem. O coreógrafo e bailarino Ivaldo Bertazzo se divertiu lembrando que a mãe o obrigava a ouvir música clássica. Atribui a isso seu gosto pela música. Já o maestro Júlio Medaglia se emocionou ao recordar que a mãe, apesar de pouco estudada, transmitiu a ele valores essenciais, como o respeito. "Por essa razão, tenho imenso orgulho de ter sido seu filho. E acho que ela também se orgulhou de mim", conta ele.

Para ler, clique nos itens abaixo:
Maitê Proença

"Fiquei curiosa pelas coisas da vida. Em minha casa as refeições vinham forradas de histórias, conversava-se sempre, sobre assuntos muito variados. Não se falava da vida dos outros, nunca. As viagens em família eram a mesma coisa. Em cinco dias de carro até o Uruguai, falávamos dos povos do sul, da imigração, mudávamos de idioma pra falar da guerra do Paraguai. Tínhamos um escritório de trabalho com prateleiras repletas de livros. Ouvia-se música clássica, minha mãe arrasava no piano de cauda, puxava meu pai pra dançar tango."
Viviane Senna

"Aprendi e aprendo a ser forte. Não aquela fortaleza fria, reservada, mas uma força repleta de energia feminina, que sustenta as decisões difíceis, que sabe acolher a fragilidade quando ela vem. E entender, também, o fracasso, transformando-o em motivação para superar o que tiver de ser superado. Que procura escutar as pessoas, sentir as circunstâncias, observar os eventos para perceber, nas entrelinhas, o que a vida quer me dizer. E essa força que ela me passa é muito dócil porque me ajuda a olhar o outro com compaixão, entendendo que cada pessoa tem a sua história, e que nenhuma história é melhor ou pior. Mas todas são importantes. Acho que aprendi com minha mãe a saber mais do outro e de mim mesma."
Gustavo Rosa

"Aprendi com minha mãe que o ser humano, o amor e o coração são as coisas mais importantes da vida. Política e ideologia não devem vir antes do indivíduo. Lembro-me de uma vez em que eu (ainda pequeno), minha mãe e meu pai saíamos de um restaurante e um mendigo nos abordou pedindo dinheiro. Antes que minha mãe pudesse abrir a bolsa meu pai a impediu. "Nem pensar, dar esmola para vagabundo". Meu pai era um homem muito culto, inteligente, esquerdista fervoroso; minha mãe, uma dona de casa comum. No caminho de volta, já no carro, minha mãe indagou: ‘Como um homem de esquerda, que se preocupa com o povo pode se negar a ajudar um necessitado?’. Meu pai rebateu dizendo que dar esmola não era a solução, que era preciso conscientizar a população de sua condição para que eles pudessem lutar por seus direitos. Minha mãe, por sua vez, disse que em primeiro lugar, ou seja, antes de qualquer convicção, vinha o ser humano. Isso me marcou muito e refletiu na maneira como encaro a vida. Não sou preso a nenhuma ideologia, não levo a vida tão a sério. Valorizo o humano, a sensibilidade e o amor"
Júlio Medaglia

"Tenho as melhores recordações de minha mãe, Miquelina. Aliás, muito orgulho. Meu avô, um italiano de Nápoles, chegou ao Brasil e teve sete filhos. Quando eram crianças, ainda, ele foi à Itália para "buscar uma herança" e nunca mais voltou. Minha mãe e seus irmãos tiveram que ajudar minha avó no trabalho. Ela lavava roupa para os vizinhos e as filhas ajudavam a secar a roupa e a passar a ferro. Por isso, minha mãe não pode estudar. Desenhava o próprio nome, apenas. No entanto, aprendeu sozinha a costurar. Comprava revistas francesas de moda e as copiava. Com o tempo, adquiriu uma clientela do mais alto nível. As melhores famílias paulistanas encomendavam vestidos a ela. Presidentes de empresas e nomes famosos ligavam para a minha casa para encomendar trajes e vestidos, mesmo porque ela estava sempre atualizada sobre os modelos internacionais mais finos. Sem ter educação básica, tinha um senso de civilização fora do comum. Me deu uma educação exemplar, na conduta, nos hábitos, na moral, no respeito às pessoas, nos compromissos com o próximo, como se tivesse tido, ela própria, uma educação de corte francesa. Por essa razão, além do amor que tive por dona Miquelina, tenho imenso orgulho de ter sido seu filho (e acho que ela também de orgulhou de mim...)"
Jorge Miguel Marinho
"Aprendi em situações bem concretas da vida é que todas as mães "de verdade" ou as mulheres que nascem com uma natureza materna, ainda que não tenham filhos, sempre acolhem e nunca abandonam seus filhos. Acontece o seguinte: venho de família muito simples, bastante modesta e extremamente precária do ponto de vista econômico. Minha mãe, nordestina, era dona de casa e pouco podia trabalhar fora porque sofria de uma terrível bronquite asmática. Meu pai, árabe, era caminhoneiro e, por vezes, saía a trabalho e ficava até três meses sem retornar à casa.

Nesses períodos chegamos a passar fome, sem que esta situação de penúria me provocasse o menor trauma, porque minha mãe colocava dentro de mim, com palavras calmas e seguras, que a qualquer momento a comida ia aparecer. Dizia assim: 'Jorginho, vai brincar com o Nico, fica brincando com ele o tempo todo, até não poder mais e, quando for a hora do almoço, a dona Irene, mãe do Nico, vai chamá-lo para almoçar e, é claro, vai convidar você também, porque mãe que é mãe nunca deixa os filhos dela ou das outras mães sem comer'. Era só esperar e dava sempre certo. Eu, ainda com as palavras da minha mãe nos meus ouvidos, comia até não poder mais.

É claro que estas palavras acabaram criando em mim um sentimento de crença no ser humano no seu sentido maior, para além da relação mãe e filho - minha mãe me ensinou a gostar da natureza humana e saber que, enquanto houver mães no mundo, e mãe não acaba nunca, a gente nunca está só".
Lya Luft

"Com minha mãe Wally, aprendi, sobretudo, a alegria. Ainda escuto suas risadas por aí. Outra coisa foi a elegância, que nunca aprendi direito.Era uma linda mulher,que meu pai tratava como rainha.Ela gostava de perfumes e de flores. Lembro dela cortando rosas nos canteiros do nosso jardim, mostrava-me o seu aroma incrível e depois as botava em vasos na sala. Sabia os nomes de muitas delas. Eram nomes hieráticos, mágicos. Era otimista,e costumava nos animar a todos. Para ela a vida não era nem difícil nem chata, mas cada dia um chamado de muitas pequenas coisas boas: a família,sua casa,o jardim grande feito um parque, as muitas amigas e primas, convivendo bastante como ocorre em cidades pequenas.

Era extremamente cuidadosa com a casa e nisso eu sempre a frustrei, pois os trabalhos da casa, mesmo com empregadas, me davam horror. Nunca aprendi a fazer direito a minha cama, a arrumar bem meus armários e ela se queixava de que eu era a única menina, entre todas as filhas de suas amigas e primas, que não era nem seria prendada... Ao contrário de meu pai, que foi certamente meu maior amigo, ela não era severa em questões de escola, e quando eu tirava notas baixas em alguma matéria no boletim, me consolava dizendo que nunca tinha sido muito boa aluna, mas era tão feliz.

Foi minha cúmplice no meu primeiro namoro, o único namorado em toda a minha juventude e também persuadiu meu pai---naqueles tempos!!!---a me deixar botar o primeiro batom e usar o primeiro sapato de salto alto. Eu devia ter uns catorze anos... Com minha mãe, aprendi resistência e coragem quando vieram tempos duros, e com ela muito sofri quando sua beleza, sua alegria, foram-se perdendo na sombra de uma doença cruel chamada Alzheimer.

Acho que as coisas importantes da vida foi com ela que aprendi. Não tão bem quanto quereria, mas seu jeito,suas manias,seus encantos, sua visão e vida, continuam em mim".
Ivaldo Bertazzo

"Eu aprendi a gostar de música com a minha mãe... Mas não foi nada fácil. Lembro que para dar um basta na minha hiperatividade e na do meu irmão, ela nos colocava na sala para ouvir música clássica. Era obrigatório... Imagine todo o domingo, a gente sentadinho no sofá e a coleção inteira de discos... (risos). Também tinha muito blues e jazz. Eu queria morrer! Mas, acho que isso contribuiu para a construção da minha memória musical. Hoje, adoro música clássica... Mas também gosto de ouvir músicas étnicas, pororocas... Quando recebo visitas em casa, gosto de colocar essas músicas estranhas... Da Romênia... E as pessoas não curtem muito. Mas, diferentemente do que aconteceu comigo, eu não as obrigo a ouvir!!! Adorei lembrar disso...".


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