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Entrevista Esper Kallás

"Suspender as aulas tem efeito limitado"

O infectologista da Universidade de São Paulo recomenda que as escolas treinem a equipe para receber os alunos e façam cartilhas informativas


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10/08/2009 13:19

Texto
Bruna Nicolielo

Foto: Stock
Crianças e professora em sala de aula

"Temos que aprender a lidar com a gripe suína, pois o problema vai estar presente todos anos", diz o infectologista Esper Kallás

O prolongamento das férias escolares como medida para conter a disseminação da gripe suína, causada pelo vírus influenza A ou H1N1, deixou muitos pais em alerta. O temor aumentou no último dia 21 de julho, quando a OMS (Organização Mundial da Saúde) divulgou um comunicado em que recomendava os países a considerar a suspensão das aulas como medida de prevenção. Como reflexo da recomendação, parte das escolas brasileiras (incluindo as redes municipal e estadual de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, além de instituições privadas desses Estados) adiou a volta às aulas para a próxima segunda-feira (17). Na cidade do Rio de Janeiro, o início das aulas em creches e da pré-escola foi prorrogado para o dia 24. Com o prolongamento do recesso, as escolas devem treinar seus funcionários para receber crianças e adolescentes da melhor forma possível, alerta o infectologista Esper Kallás, do Hospital Sírio Libanês e da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). "A meu ver, só há uma justificativa para a suspensão de aulas: usar esse período para fazer um mutirão de treinamento para professores e funcionários, criar sistemas de diagnóstico e fazer cartilha informativas sobre a doença", explica.

Na entrevista a seguir, ele esclarece as principais dúvidas dos pais.

Para ler, clique nos itens abaixo:
1) Qual o efeito da suspensão das atividades escolares?
Esper Kallás: Todos os estudos que avaliaram a suspensão de aulas como medida contra a disseminação da gripe suína mostram que ela tem efeito parcial. Isso ocorre porque as crianças podem pegar a doença em outros locais de grande aglomeração. O risco de contrair o vírus é o mesmo em igrejas, shoppings, parque de diversões, na casa dos amiguinhos e no cinema. O vírus não se dissemina mais ou menos, de acordo com os lugares onde circular. Quanto mais contato entre crianças, mais disseminação haverá.
2) Nesse caso, o mais seguro é ficar em casa?
Esper Kallás: Se pensarem desse jeito, as pessoas não saem mais de casa. Embora a gripe suína seja um pouco mais agressiva, ela é uma gripe como outra qualquer. As pessoas morrem de gripe todos os anos. Suspender as aulas, nesse sentido, tem efeito limitado, pois essa é uma realidade que acontece anualmente.
3) Como devemos agir, se a nova gripe pode se tornar tão comum?
Esper Kallás: Temos que aprender a lidar com ela, pois o problema vai estar presente todos anos. É preciso preparar profissionais de saúde, difundir informação sobre a doença, detectar casos com rapidez. Ano que vem já teremos vacina para a gripe suína.
4) Como vê o prolongamento das férias?
Esper Kallás: Tenho um filho de 8 anos que estuda no Colégio São Luiz, onde o reinício das aulas foi remarcado para esta segunda-feira (10). As escolas não estão erradas em suspender as aulas. Quando o Estado divulga um comunicado informando que suspenderá as aulas nas escolas estaduais, põe as outras instituições em uma situação difícil. Afinal, se houver casos de gripe suína, os pais culparão a escola. Esse episódio, para mim, foi o diagnóstico de que as escolas não estão preparadas para lidar com doenças. A meu ver, só há uma justificativa para a suspensão das aulas: usar esse período para fazer um mutirão de treinamento para professores e funcionários, criar sistemas de diagnóstico e fazer cartilha informativas sobre a doença.
5) O índice de letalidade da gripe suína é similar ao da gripe comum. Por que tanto alarde?
Esper Kallás: O vírus é relativamente novo e é natural que as pessoas fiquem com medo diante da imprevisibilidade de um novo vírus. Episódios de gripe que ocorreram no passado, como a gripe espanhola, aumentaram o temor da população. Isso é um erro, pois nenhuma epidemia pode ser prevista com base em outra anterior. Além disso, a OMS chamou muito atenção da opinião pública e da imprensa, atribuindo estágios crescentes à doença a cada semana, com graus 3, 4, 5, 6... Parecia a contagem regressiva de uma bomba relógio. Isso sensibilizou a população e deu no que deu: dezenas de pessoas, vítimas da enxurrada de informação, sobrecarregaram os serviços de saúde com sintoma de gripe banal. Menos de 1/3 dos casos era de gripe suína. Conclusão: essas pessoas correm o risco de pegar a doença no posto onde foram buscar tratamento. Muitas vezes, a própria imprensa se encarrega de alimentar essa sugestão. Um colega do Incor apresentou uma pesquisa interessante, que mostrava que, quando o humorista Bussunda morreu de ataque cardíaco, muitos jovens obesos procuraram postos de saúde achando que estavam tendo um infarto.
6) O que devemos aprender desse surto de da nova gripe?
Esper Kallás: Esse foi um tratamento de choque. Antes dessa gripe, as pessoas mal sabiam a diferença entre gripe e resfriado. Devemos conscientizar que gripe mata e que ela é um problema de saúde pública. Não à toa, o governo faz campanhas de vacinação voltadas para pessoas idosas. Pessoas com maior vulnerabilidade, como idosos e mulheres grávidas, beneficiam-se de vacinas. O Brasil precisa investir em meios de vigilância da gripe. Tivemos a oportunidade de rever a educação e a preparação dos profissionais de saúde no atendimento da população. É preciso fortalecer o serviço de saúde e prever uma capacidade ociosa no inverno, período em que aumentam os casos de gripe, suína ou não.


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