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ANÁLISE

Competir, só se for com ética

Disputar afeto, atenção, respeito e admiração no trabalho é algo que fazemos o tempo todo. O desafio é não passar por cima de comportamentos aceitáveis para atravessar a linha de chegada


Bons-Fluidos

21/05/2009 14:19

Texto
Anderson Silva

Foto: Getty Images
Foto: competição

"Competir não é um coisa ruim, pelo contrário, é uma das forças motrizes da vida"

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Você já parou para pensar como tudo na natureza é regido pela competição? As plantas disputam espaço e alimento. Os animais lutam par garantir o território e a chance de procriar. Como definiu Charles Darwin, pai da Teoria da Evolução pela Seleção Natural: "Há uma grande guerra movendo a natureza". Com os homens a história não é diferente. Nossa existência só é garantida pela batalha de milhões de espermatozoides brigando para ver quem fecunda o óvulo primeiro. E depois que nascemos essa luta continua a toda prova. "Quando o bebê chora, ele está competindo com os outros membros da família pela atenção da mãe, e é por essa habilidade que ele garante sua sobrevivência", comenta a psicopedagoga Maria Cristina Mantovanini, do Instituto de Educação Superior Vera Cruz, em São Paulo. Na infância, a disputa se concentra entre os colegas e os irmãos e segue nos acompanhando vida afora.

"Competir não é um coisa ruim, pelo contrário, é uma das forças motrizes da vida e um dos principais responsáveis pelos avanços da sociedade", avalia Maria Cristina. Foi por meio das disputas que os grandes atletas conseguiram alcançar marcas impensáveis e que os cientistas desenvolveram novas tecnologias, só para citar dois exemplos. "É justa a competição que se inspira no respeito mútuo e no reconhecimento de que sem competidores não tem partida", completa o físico Luis Carlos de Menezes, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). "O importante é lutar com armas como o talento, a inteligência, a técnica e a experiência." Seja qual for a razão que leva alguém a entrar numa disputa, ela jamais deve se sobrepor ao comportamento ético. Dissimulações, manobras, rasteiras e mentiras devem ficar de fora da briga. Coisas que, infelizmente, ainda são bastante comuns nos dias de hoje. Uma das raízes desse tipo de comportamento inaceitável pode ser encontrada ainda nos primeiros anos de vida da criança. "Os pais que estimulam a competição em casa, que exigem que o filho seja o melhor da escola e o expõem como um troféu, dizendo a todos suas qualidades impecáveis, estão ensinando que para ser amado ele precisa ser o melhor, sempre", ressalta Maria Cristina. "Consequentemente, a criança cresce com medo de desagradar e de ser rejeitada caso não vença sempre e isso gera um enorme sentimento de frustração na vida adulta, já que ninguém é capaz de ser o melhor em tudo. Cada um tem suas habilidades e se sairá melhor em uma disputa ou outra." Na realidade, são esses pontos que deveriam ser reforçados, e não o contrário. Só assim o pequeno poderá caminhar para a maioridade de uma maneira equilibrada e consciente de suas reais possibilidades.

UNIÃO DE FORÇAS

Ainda no âmbito da infância, é importante que as crianças aprendam, tanto na escola quanto em casa, a compartilhar com os colegas e a família os motivos que as levaram a vencer uma partida. Quais estratégias usaram para ganhar? O que elas podem ensinar para que os adversários melhorem seu desempenho? Numa atividade aparentemente simples como essa, há um aprendizado muito importante: os grandes vencedores são aqueles que sabem colaborar com os outros e que percebem na vitória uma chance de aprendizado. "Estimular a solidariedade pode nenutralizar o individualismo predatório, uma das características mais nocivas da atualidade", pondera Menezes. Assim, a criança vai aprender a não se importar somente com o resultado, mas com toda a diversão que uma competição pode gerar.

As vertentes mais modernas da Educação apostam nessa ideia. Valorizar o trabalho em equipe e entender que o conhecimento construído coletivamente é fundamental para desmitificar o desejo individual da autossuficiência. "No ambiente corporativo, a colaboração deve ser a base da competição. As chances de sucesso são maiores quando todos se preparam para alcançar um objetivo comum, pois a união de forças garante um maior conhecimento acerca do objeto da disputa", ressalta Eugenio Mussak, consultor em desenvolvimento humano e profissional, de São Paulo.

Por outro lado, ninguém tem que se sentir infeliz por perder uma partida. As contingências que levaram a esse desfecho podem se transformar em oportunidades mais à frente. "Uma vitória não se conquista ao acaso. Ela é fruto de muita dedicação e preparação", diz Mussak. Assim, competir deve estar ligado a se autossuperar e melhorar sempre. Um aprendizado para lá de importante e que pode garantir no futuro um comportamento diante das derrotas da vida muito mais seguro e livre das frustrações que costumam bater à porta quando perdemos uma batalha.

"Estimular a solidariedade pode neutralizar atitudes individualistas e predatórias."

 




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