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FAMÍLIA

Conheça artistas e escritores que tiveram a obra influenciada pelos filhos

Algumas obras de arte, sobretudo as literárias, guardam as marcas dessa relação delicada entre os artistas e seus descendentes


25/08/2011 15:17
Texto Kelvin Falcão Klein
Vida-Simples
Foto: Divulgação
Foto:
"Maternidade", 1935, de José Almada Negreiros

Em algum dia de 1918, em Paris, o artista-plástico Marcel Duchamp teve um encontro inesperado. Ele estava descendo as escadas de uma das estações do metrô. Jeanne Serre, uma de suas primeiras namoradas, vinha na direção contrária, trazendo uma linda menininha pela mão. O romance entre os dois datava de 1910, e eles não se viam havia tempo. Após uma breve conversa, Jeanne indicou a Marcel, sem utilizar qualquer palavra, que aquela criatura silenciosa de 8 anos de idade era sua filha. Duchamp nunca comentou o fato - seu biógrafo recolheu as informações com outras pessoas. E mais de 40 anos passariam até que ele visse sua filha novamente.

Duchamp declarou muitas vezes que procurava viver o mais livremente possível. Sem amarras de qualquer tipo, fossem materiais, fossem sentimentais. Carro, casa, família: essas coisas só servem para atravancar a vida, dizia. E sua obra (que está mais para uma não-obra, cheia de desistências, recuos e ironias) foi se desenvolvendo sob esse espírito - mas quem poderia dizer que a imagem daquela menina não tenha ficado marcada na memória do solitário Duchamp?

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A vida é breve
Como a questão dos filhos pode influenciar no trabalho criativo? Essa é uma pergunta que se desdobra, gerando inúmeras respostas. Algumas obras de arte, sobretudo as literárias, guardam as marcas dessa relação delicada entre os artistas e seus descendentes.

Principalmente quando os rebentos são pequenos: exigem dedicação, paciência e cuidado; como dar prosseguimento às ideias quando se tem uma pequena bolota de carne chorando de fome logo ao lado? A escritora canadense Alice Munro, em entrevista recente, foi questionada pela razão de ter escolhido o conto como forma predominante em seus livros. "Por que você não escreveu romances?", perguntou o entrevistador. Alice respondeu que nunca gostou de deixar uma história esperando por muito tempo - e, além do mais, precisava aproveitar todo o tempo que tinha, já que escrevia durante a soneca dos filhos pequenos, e nunca sabia quando iriam acordar.

Os meninos de Alice tiravam suas sonecas, os contos foram se acumulando, a escritora foi se aperfeiçoando e, no fim das contas, o que começou como uma distração da rotina tornou-se um trabalho artístico de excelência. A escritora diz que, agora, os filhos já estão adultos, morando em suas próprias casas, com as próprias famílias, e ela segue lá, escrevendo seus contos.
O futuro dos filhos
O escritor chileno Roberto Bolaño, morto em 2003, trabalhou exaustivamente em seus últimos anos de vida, com a intenção de proporcionar um futuro confortável para seu casal de filhos e para sua mulher. A única alternativa que ele tinha era intensificar aquilo que vinha fazendo ao longo de toda a vida: escrever. Sofrendo de doenças hepáticas, Bolaño sabia que não lhe restavam muitos anos. Foi durante esse período final que se dedicou a seu livro 2666, publicado postumamente.

2666 é um grande livro formado por cinco partes, e Bolaño declarou, antes de morrer, que gostaria que cada uma das partes fosse lançada separadamente. Desse modo, sua obra renderia por mais tempo, favorecendo o futuro dos filhos. Talvez seja por isso que ele tenha escrito tanto, sacrificando sua saúde já debilitada. 2666 terminou por sair em um único volume - e com a seguinte dedicatória: "Para Alexandra Bolaño e Lautaro Bolaño", cuidados pelo pai até o fim.
Atenção redobrada
Assim como acontece na dinâmica de Alice Munro e seus filhos, a escritora italiana Natalia Ginzburg (1916-1991) se lembrava com nitidez de quando o pequeno Carlo, hoje o renomado historiador Carlo Ginzburg, passeava por entre suas pernas enquanto ela escrevia.

Estavam sozinhos, pois o pai de Carlo, o professor Leone Ginzburg, morrera na mão dos fascistas em 1944. O pequeno Carlo enchia a casa, exigindo atenção, mexendo nos livros, correndo, aprendendo as primeiras palavras. Agora, distantes no tempo, as influências se misturam: o pequeno Carlo, agora historiador, mescla a infância aos livros da mãe; Natalia lembra desses mesmos livros, e recorda como a presença de Carlo mudou sua maneira de encarar o ofício literário.
O peso da falta
Os filhos exigem atenção e tem-se a impressão de que já não é mais possível pensar em nada mais. Mas o que fazer quando eles já não estão mais lá? E como lidar com o peso dessa falta?

A ausência brusca de um filho atingiu dois escritores contemporâneos, mundialmente reconhecidos: o sul-africano J.M. Coetzee, Nobel de Literatura em 2003, e o israelense David Grossman. Coetzee perdeu seu filho Nicolas em um acidente, em 1989, quando o rapaz tinha 23 anos. Uri, o filho de Grossman, sargento do Exército israelense, morreu em agosto de 2006, aos 20 anos de idade, durante uma ofensiva no Líbano.

Na época em que recebeu a notícia da morte de seu filho, Grossman estava escrevendo A Mulher Foge. Trata-se da história de Orah, uma mulher que resolve percorrer Israel para fugir da possibilidade de receber a ligação que informará sobre a morte de seu filho - que é também um soldado na guerra contra o Líbano. Orah se agarra à memória do filho, anotando tudo que consegue lembrar a respeito dele, tentando, dessa forma, proteger seu corpo e assegurar sua volta para casa.
Trabalhos de memória
O escritor norte-americano Paul Auster, amigo de Grossman, acrescenta a seguinte dedicatória a seu livro Homem no Escuro: "Para David Grossman e sua esposa, Michal, seu filho, Jonathan, sua filha, Rithi, e em memória de Uri". Há, inclusive, nesse mesmo livro de Auster, um personagem inspirado em Uri: um soldado norte-americano que morre no Iraque.

Tanto A Mulher Foge quanto Homem no Escuro são homenagens ao filho que se foi, mas são também, e principalmente, trabalhos da memória, no sentido de que essa vida ausente segue reverberando na vida daqueles que ficam.

J.M. Coetzee, assim como David Grossman, incluiu a experiência da perda em seu trabalho literário, e talvez o tenha feito de forma ainda mais profunda. O livro que produziu foi O Mestre de Petersburgo, cujo protagonista é ninguém menos que Fiódor Dostoiévski. Coetzee, utilizando fatos da vida de Dostoiévski e do momento político da Rússia em fins do século 19, constrói uma trama que se desenvolve a partir de uma busca: o escritor vai a São Petersburgo para encontrar o corpo de seu enteado, supostamente morto em ações anarquistas.

Coetzee promove um meticuloso mergulho na história para, dessa maneira, elaborar um trauma que havia acontecido muito recentemente. E, nesse processo, termina por refletir também sobre a arbitrariedade dos acontecimentos da vida, sobre o acaso dos encontros.
A lição
Toda relação entre pais e filhos gera uma história. É impossível permanecer indiferente diante de uma ligação tão definitiva. Como não sentir as vibrações que percorrem a Carta ao Pai, de Franz Kafka, mesmo tantos anos depois de escrita? Como não pensar naquilo que também herdamos quando escutamos Jorge Luis Borges lembrar-se da biblioteca do pai?

Alguns filhos surgem para ensinar lições preciosas aos seus pais. É o caso dos filhos especiais do escritor japonês Kenzaburo Oe, que relata seu aprendizado em Uma Questão Pessoal, e do brasileiro Cristovão Tezza, que faz o mesmo em O Filho Eterno. Alguns ajudam os pais na difícil adaptação ao exílio, como no caso de Dmitri Nabokov, que auxiliou seu pai, Vladimir Nakobov, a traduzir para o inglês seus livros escritos em russo. Outros acompanham a força criativa dos pais tão de perto que decidem seguir os mesmos passos, como foi o caso de Anna Freud, a filha de Sigmund Freud.
Quando os laços se transformam em obra de arte
É inegável que os laços entre pais e filhos são muito profundos. Quando se transformam em obras de arte, esses laços costumam ultrapassar a linha cronológica de uma vida, fincando suas raízes no imaginário coletivo. Essas obras desconhecem a passagem do tempo, os obstáculos dos idiomas e das fronteiras - e, no fim das contas, são compartilhadas por todos aqueles que as recebem e cultivam, celebrando e reinventando, nas histórias que leem, seus próprios laços.


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