Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco.
alg1 tempo hesitei c devia abrir estas memorias pelo principio ou pelo fim, isto eh, se poria em 1º lugar o meu nascimto ou a minha morte. suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimto, 2 consideraçoes me levaram a adotar ? metodo: a 1ª eh q ñ sou propriamte 1 autor defunto, + 1 defunto autor, p/ qm a kmpa foi outro berço; a 2ª eh q o escrito ficaria assim + galante e + novo. moises, q tb contou a sua morte, ñ a pôs no introito, + no kbo: ? radical entre este livro e o pentateuco.
O primeiro parágrafo de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, no original e traduzido para o internetês.
A globalização e a revolução tecnológica da internet estão dando origem a um "novo mundo lingüístico". Entre os fenômenos desse novo mundo estão as subversões da ortografia presentes nos blogs e nas trocas de e-mails e o aumento no ritmo da extinção de idiomas. Estima-se que um deles desapareça a cada duas semanas. Cresce a consciência de que as línguas bem faladas, protegidas por normas cultas, são ferramentas da cultura e também armas da política, além de ser riquezas econômicas.
A reforma do português se defronta com um desafio inédito. Outras mudanças foram feitas em situações em que era bem menos intenso o ritmo de entrada de palavras e conceitos na corrente da vida cotidiana. Em tempos de internet, as línguas, por natureza, refratárias a arranjos de gabinete e legislações impostas de cima para baixo, podem se comportar como potros indomáveis. Quem vai ligar para as novas regras de uso do hífen quando mantém longas e satisfatórias conversações na internet usando apenas interjeições e símbolos gráficos como os consagrados "emoticons" para alegre :-) ou triste :-(?
O linguista David Crystal cunhou o termo netspeak para designar as formas inéditas de expressão escrita que a internet gerou. A inclusão de símbolos audiovisuais, os links que permitem "saltos" de um texto para o outro nada disso existia nas formas anteriores de comunicação. A comunicação por escrito se tornou mais ágil e veloz, aproximando-se, nesse sentido, da fala. "A necessidade de diminuir o tempo de escrita e se aproximar do tempo da fala levou os usuários a ser cada vez mais objetivos e compactos", diz o linguista Antonio Carlos dos Santos Xavier, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Essa tendência é mais notória nas conversas que os adolescentes mantêm através de programas como o MSN, com abreviações como blz (beleza) e frases de sonoridade tribal como bora nu cinema - pod c as 8? (vamos ao cinema pode ser às 8?). Mas o netspeak não é só para os imberbes. Até no âmbito profissional a objetividade eletrônica está imperando. A carta comercial que iniciava com a fórmula "vimos por meio desta" é peça de museu. "Gêneros como a carta circular ou o requerimento estão em extinção. O e-mail absorveu essas funções", observa a linguista Cilda Palma, que, em sua dissertação de mestrado na UFPE, estudou a comunicação interna de uma empresa pública - um posto regional dos Correios - e de uma empresa então recentemente privatizada, a Petroflex. Ela constatou que a correspondência eletrônica tornou a comunicação mais informal - e que essa tendência foi mais longe na empresa privada. Observa a pesquisadora: "Os Correios ainda mantêm uma infra-estrutura anacrônica, que exige fotocópias e carimbos nos comunicados internos".
Leia também a entrevista com David Crystal
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