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DIA DOS PAIS

Pai só tem um

Qual a importância do pai na Educação dos filhos? A psicóloga e professora da USP Belinda Mandelbaum fala como está a figura paterna neste mundo em transformação


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06/08/2009 16:47

Texto
Camilo Gomide

Foto: Arquivo pessoal
Foto: belinda

"Muitas famílias com valores menos tradicionais têm maior igualdade entre homens e mulheres"

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O mundo mudou. E com ele mudaram as relações familiares. Em questão de gerações, o pai deixou de ser uma figura temida, repressora e totalitária. As mulheres conquistaram (e continuam conquistando) espaço na sociedade e já conseguem sustentar o lar. Muitas já criam os filhos sozinhas. Como se não bastasse - graças aos inúmeros e velozes avanços tecnológicos - é cada vez mais comum que os filhos saibam mais do que os pais. E o pai nessa história, como ficou?

Para responder estas e outras questões, entrevistamos a psicanalista e professora do departamento de psicologia social e do trabalho, coordenadora do laboratório de estudos da família do instituto de psicologia da USP, Belinda Mandelbaum. Ela recebeu o repórter Camilo Gomide em seu consultório, e esclareceu algumas dessas dúvidas. As respostas você confere na entrevista abaixo.

Para ler, clique nos itens abaixo:
1) O que mudou no papel do pai nas últimas gerações?
Belinda Mandelbaum : No modelo familiar tradicional, o modelo burguês de família, o pai era o detentor do patrimônio, ele também tinha na casa um lugar de centralidade, autoridade, não só econômica como moral e na educação dos filhos. Houve mudanças sociais muito importantes no decorrer do século passado que causaram uma reviravolta no modelo familiar tradicional que resultou em uma fragilização do papel desse homem. A hierarquia familiar e os papéis do homem e da mulher sofreram uma transformação. Sem dúvida, o pai não é mais uma autoridade clara, definida, aquele que detém a verdade sobre tudo, sobre o que pode ou o que não pode.
2) Quais foram os fatores que contribuíram para essa mudança?
Belinda Mandelbaum : Houve vários fatores intervenientes. Os principais foram as crises econômicas do sistema capitalista (que resultaram em várias ondas de desemprego), a conquista da igualdade das mulheres e todas as transformações culturais e tecnológicas do século XX.
3) Como isso acarretou na perda da autoridade paterna?
Belinda Mandelbaum : Até o final do século XIX e início do século XX, você tinha a noção de que o pai transmitia seu saber e experiência. As transformações sociais que ocorreram nos últimos tempos colocaram os membros das famílias em situação de igualdade, na qual um pode confrontar a verdade do outro. Hoje, a experiência do pai não serve para o filho, o filho lida com outro mundo. Um mundo onde as informações são muito mais velozes. Os jovens têm mais condições de compreender o mundo atual com suas tecnologias e essa velocidade das informações do que seus pais. Muitas vezes ocorre uma inversão dos papéis e os filhos é que acabam ensinando os pais.
4) Podemos dizer então que o papel do pai acabou?
Belinda Mandelbaum : O que acabou é a noção de pai atrelada à figura do homem, ao pai biológico. A psicanálise retira a ideia da paternidade e da maternidade da questão biológica do homem e da mulher. Não falamos mais em pai e mãe mas em função paterna e materna, que podem ser desempenhadas por pessoas que não necessariamente são os pais biológicos da criança. Toda criança precisa no seu desenvolvimento de alguém que exerça a função materna e paterna.
5) O que é função materna e função paterna?
Belinda Mandelbaum : De maneira bem genérica, a função materna é a do acolhimento, do cuidado, da contenção das angústias do filho. Quem exerce a função materna pode atender às necessidades da criança e promover uma situação de conforto e bem estar. Toda essa vivência é incorporada pela criança que desenvolve a sensação de segurança, de confiança. Já a função paterna, em linhas bem gerais, envolve tanto a função de acolhimento quanto a imposição de limites e regras claras. A criança precisa saber conter seus impulsos, voracidade, desejos e ansiedade, para a sua própria segurança. Todo esse cuidado é muito importante para o desenvolvimento da criança.
6) Essa divisão das funções é clara na prática?
Belinda Mandelbaum : Não. Muitas vezes as duas funções podem ser exercidas apenas pelo pai, ou apenas pela mãe, ou por um avô, avó, etc. Isso que estamos chamando de função paterna está identificada com o pai, mas não necessariamente é feita por ele. Teremos outras configurações familiares, mas sem dúvida essas duas funções (paternidade e maternidade) são fundamentais ainda para o desenvolvimento saudável de qualquer filho. Se não é o pai biológico que vai desempenhar, alguém tem de desempenhar.
7) As transformações no papel do homem o fragilizaram?
Belinda Mandelbaum : Sim. Nesse processo, que já está sendo percorrido há muitas décadas, o homem perdeu um lugar mais tradicional e certamente ficou numa situação mais fragilizada. O fato de ter perdido um lugar de poder e estar em situação de maior igualdade com a mulher, para muitos homens é difícil.
8) Mas para outros a igualdade com a mulher não é problema?
Belinda Mandelbaum : Claro. Muitas famílias com valores menos tradicionais têm maior igualdade entre homens e mulheres. Em diversas situações familiares várias funções que antes eram exclusivamente femininas agora são compartilhadas entre homem e mulher na casa. A função doméstica (lavar, cozinhar, passar, etc), o cuidado com os filhos, levar as crianças na escola, essas atividades já são feitas por ambos.
9) Qual o risco de uma educação sem a função paterna?
Belinda Mandelbaum : Isso que estamos chamando, de maneira bastante genérica, de função paterna é responsável pela introjeção do conjunto de leis e regras morais que preparam a criança para a vida em sociedade. Na ausência de uma figura paterna em casa, as crianças podem acabar buscando essa referência em uma figura idealizada. A assimilação dessas regras que constituem a identidade moral das pessoas tinham características muito mais humanas quando o pai com o qual a criança se identificava estava em casa. Esse pai podia ser visto com todas as suas competências e falhas, era uma figura mais real. Com a ausência desse pai, as crianças correm o risco de se identificar demais com os ídolos da mídia, os jogadores de futebol, a celebridade da vez, e, na pior das hipóteses, com um grande líder político. Quando escolhemos uma pessoa dessas como exemplo o que conhecemos realmente como figura humana é uma criação midiática. O que torna difícil pras crianças distinguirem os verdadeiros limites e possibilidades do ser humano.
10) O que os pais podem fazer pra compreender melhor os novos papéis?
Belinda Mandelbaum : É fundamental que as famílias trabalhem essas questões conjuntamente. É preciso estimular a reflexão sobre o que é ser pai e o que é ser mãe. Pensar sobre o que representamos para nossos filhos e quais as nossas responsabilidades no desenvolvimento deles. E levar essas discussões para todos dentro da família.


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