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SAÚDE

Entrevista Ivaldo Bertazzo

Coreógrafo quer ensinar professores a identificar problemas corporais que interferem no aprendizado dos jovens


13/07/2011 15:31
Texto Bruna Nicolielo
Educar
Foto: Mário Rodrigues
Foto: Para Ivaldo,  má postura e a respiração pela boca indicam de falta de organização motora
Para Bertazzo, má postura e a respiração pela boca indicam de falta de organização motora
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Em mais de 35 anos dedicados à dança, o bailarino e coreógrafo Ivaldo Bertazzo sempre se preocupou em atrelar sua arte ao desenvolvimento pleno do corpo. Começou a dançar aos 16 anos. Teve aulas com grandes nomes da dança brasileira, como Renée Gumiel, Klauss Vianna e Márika Gidali. Estudou o funcionamento do aparelho locomotor e da biomecânica humana desenvolvido pelas pesquisadoras Marie Madeleine Béziers e Suzanne Piret, na França, e Godelieve Denys Struyf, na Bélgica.

Trabalhando com jovens em seus projetos sociais de dança, como o marcante espetáculo Milagrimas, percebeu que a falta de postura e a respiração errada dos jovens são, além de indício da falta de consciência corporal, entraves para o bom aprendizado. Por isso, ele quer ensinar professores a identificar bloqueios dessa ordem em seus alunos. "Para aprender, o jovem precisa de concentração. Se ele respira mal, se agita, não consegue se concentrar. Fica difícil aprender", explica ele, que ensina educadores a desenvolverem a percepção corporal de estudantes em seus workshops -- os próximos ocorrem entre os dias 20 a 22 de março, 15 a 17 de maio e 14 a 16 de agosto, na Escola do Movimento-Método Bertazzo (Rua Cotoxó, 1, Pompéia, São Paulo, 11/3294-1755).

A obrigatoriedade do ensino de música nas escolas tornou os ensinamentos de Bertazzo ainda mais oportunos. Em seus cursos, ele ensina os professores a explorarem técnicas de percussão corporal, o que pode ser uma alternativa para atender a demanda por capacitações na área, resultante da nova lei.
Nesta entrevista à repórter Bruna Nicolielo, ela fala sobre seu método e dá dicas de exercícios simples que podem ajudar o professor a vencer os bloqueios corporais dos jovens. 

Para ler, clique nos itens abaixo:
1. Qual a relação entre corpo e aprendizado?
Ivaldo Bertazzo: A má postura e a respiração pela boca são indícios de falta de organização motora. Elas estão associadas ao aprendizado porque dificultam o foco do olhar e deste modo, a atenção. A hiperatividade de um aluno, que não para de se mexer na cadeira, está relacionada à insatisfação corporal. Ao realizar atividades elaboradas, como escrever um texto, é preciso criar uma atitude de concentração. Para aprender, o jovem também precisa de concentração. Se ele se agita, respira mal, fica difícil aprender, pois ele não consegue se concentrar. Todos esses comportamentos, enfim, podem atrapalhar a absorção dos conteúdos escolares.
2. Como a má postura, por exemplo, interfere no rendimento?
Ivaldo Bertazzo: O jovem largado na cadeira, sentado todo torto, tem um encurtamento na bacia. Ele não senta em cima dos ossos da bacia, como deveria. Com isso, a coluna fica torta e só a cabeça se movimenta para acompanhar a lousa e o professor. O maxilar recua e a respiração acaba acontecendo pela boca. Esse jovem fica incomodado com o corpo e não se concentra. Respira mal e não consegue articular um discurso, o que provoca um stress cognitivo: ele entende o que está ouvindo, mas não tem em condições de compreender, de assimilar.
3. Alguns alunos curvam o corpo para escrever. Isso é ruim?
Ivaldo Bertazzo: Esse hábito é indício de desconforto corporal. O aluno que se encolhe todo, abaixa a cabeça, faz uma força enorme para escrever, não consegue fazer o movimento rotatório do ombro corretamente. Faz um movimento curto demais. Antigamente, se ensinavam as primeiras letras no chão, na areia, para o aluno poder libertar esse movimento do braço, fazê-lo a favor da gravidade.
4. Como identificar bloqueios de aprendizado com fundo corporal?
Ivaldo Bertazzo: O desconforto de razões corporais é visível e pode ser identificado pelo professor facilmente. As pessoas têm diferentes tempos de atenção e a leitura é uma atividade ótima para desenvolver esse tempo. Observar os estudantes lendo é uma forma de identificar tais bloqueios. Dessa forma, o professor conseguirá saber se seu aluno é inquieto, cruza e descruza as pernas o tempo todo, etc.
5. Como favorecer a atenção do estudante para fazê-lo aprender mais?
Ivaldo Bertazzo: Exercícios simples podem ajudar. Não quero transformar a escola em um centro de reeducação corporal, tampouco o professor em um terapeuta, mas dar subsídios para ele lidar com esses problemas. Exercícios como levantar, bater os pés, girar o tronco, dar palmadas com as mãos no peito, nas coxas, estimulam a circulação, os músculos, corrigem a respiração. Depois deles, o aluno consegue voltar a se concentrar novamente, sem ficar dormindo todo jogado na cadeira. Propor isso não é modificar o ensino formal. Basta dedicar cinco minutos do dia. Professores de todas as áreas podem adotar essas técnicas.
6. Outras atividades podem ajudar o jovem a conquistar a percepção corporal?
Ivaldo Bertazzo: A flauta doce é ótima, barata e exige concentração. Para conseguir assoprar, o estudante precisa segurá-la com os braços e regular as diferentes notas musicais por meio da pressão dos dedos. Ele aprende a respirar melhor. Além disso, a coluna precisa estar reta. A percussão corporal, que consiste em bater palmas e dar palmadas em outras partes do corpo com o objetivo de produzir sons, também pode ajudar: ela desenvolve a consciência corporal e a coordenação, além de ativar a circulação. Encher bexigas também é um bom exercício, pois essa atividade melhora a capacidade respiratória.
7. O mobiliário escolar pode ajudar os alunos a ter consciência de seu corpo?
Ivaldo Bertazzo: Colocar as cadeiras da sala de aula em círculo acaba com a turma do fundão. Isso ajuda o estudante a ter noções de espaço e consequentemente, do próprio corpo. Os diretores podem permitir essa disposição.
8. Você costuma dizer que as pessoas esquecem a relação que há entre o corpo físico e o intelecto. O que isso quer dizer?
Ivaldo Bertazzo: Esquecemos de prestar atenção no nosso corpo. A coluna, depois de tanto tempo curvada, encurta. As pessoas não colocam os pés corretamente no chão, por isso não têm equilíbrio, nem percebem o quanto isso interferem em seus movimentos. Essa interferência se dá, inclusive, nas condições de receber e processar informação. O jovem, hoje, olha para todos os lados o tempo todo, não se fixa em nada. Esse é um indício de desconforto corporal.


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