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LIMITE

Como dar limites ao seu filho pequeno?

Dizer “não” e confiar na decisão tomada, sem perder o afeto e a delicadeza, não é uma missão para superpais! Especialistas explicam como isso é possível!


02/02/2015 07:02
Texto Adriana Fonseca
Educar
Foto: Aline Casassa
Foto: Quando os pais percebem, os filhos já perderam o limite. Nessas horas, mantenha a calma e a firmeza.
Quando os pais percebem, os filhos já perderam o limite. Nessas horas, mantenha a calma e a firmeza.

A questão dos limites dados às crianças pequenas é um dos pontos primordiais da educação e, por isso, assusta tanto os pais. O frequente comentário "tal criança não tem limite" é traduzido como: ela faz o que quer, não obedece aos adultos ou não sabe lidar com as frustações. Nenhum pai deseja que seu filho seja alvo desse tipo de comentário. Mas como fazer isso? Como os pais podem ajudar o filho (desde bebê) a desenvolver recursos para lidar com o NÃO, sem que se sintam verdadeiros vilões?

Rosana Augone, psicóloga, explica que "até aproximadamente os 3 anos educar e colocar limites significa rotina e disciplina dos pais no cotidiano. A criança está descobrindo o mundo e tudo para ela é fascinante, o que a torna obediente porque ela faz tudo com o prazer da descoberta, do novo e da imitação". Por isso, durante os anos iniciais os rituais diários são de extrema importância. Hora para dormir, hora para comer, hora para tomar banho! A rotina é estabelecida e deve ser permeada pelo desenvolvimento da paciência, ao se ensinar a criança a esperar. Com a rotina organizada a criança pequena se sente mais segura em relação ao imenso mundo que tem à sua volta.

 

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Depois dessa fase, conta Rosana, há uma transformação e "a partir dos 3 anos, o momento da criança muda radicalmente". Inicia-se um período que ela costuma chamar de "adolescência da infância", fase em que a criança passa a usar a oposição, a autoafirmação, o questionamento dos combinados, a birra, a manipulação e a sedução em favor do que ela deseja de imediato. Esse período se torna exaustivo para os pais e também exige deles uma transformação no comportamento. Devem ser agora mais firmes e muito claros em relação às consequências para as ações do filho.

Rosana traz ainda uma nova maneira de se nomear essa ação dos pais; "Eu prefiro explicar aos pais que seus filhos precisam de margens, tal qual um rio que, se não as tiver, perde a forma e deixa de ser um rio. As margens dão o contorno, criam uma forma, uma identidade, um ser que pode aprender quem é e qual seu papel no núcleo familiar. As margens desenham a personalidade da criança, enquanto os limites a cerceiam sem lhe dar forma nem consistência. Sem margens o rio deixa de ser rio, perde a forma, a identidade. Com margens muito apertadas ele perde seu potencial de rio e torna-se um riacho, um córrego, com forma, porém muito aquém das suas potencialidades."

Lucila Bernardes, terapeuta familiar e orientadora educacional, explica que o filho é uma realização dos pais, um motivo de orgulho. "Não é à toa que quando os filhos não são aquilo esperado pelos pais, esses se sentem mexidos e até traídos em suas expectativas. Dizer NÃO para o filho, vê-lo chorando, frustrado ou contrariado diz respeito a ferir a representação da realização do filho idealizado e feliz."

Os pais precisam ter cuidado para não escolher o caminho que parece mais fácil, mas que é o mais danoso. A opção por não frustrar e deixar de lado motivos para o conflito só para ganhar um sorriso e uma momentânea satisfação é perigosa. O problema, esclarece Lucila, "é justamente que a criança vai se tornando mal acostumada, sem a menor resistência aos impedimentos naturais da vida e aquilo que parece bom, torna-se na verdade a causa das crianças birrentas e tiranas. É nesse momento que os pais podem virar vilões de verdade, pois quando perdem a autoridade não são mais respeitados. "

Para ler, clique nos itens abaixo:
1. Escolha que valores passar a seu filho
As diferenças culturais e educacionais refletem e determinam a forma de ser e de agir das crianças, como relata de maneira bastante clara Pamela Druckerman, em seu livro "Crianças francesas não fazem manha". Também é possível criar crianças "não-manhosas" em nosso país. Exige grande esforço dos pais, mas não é impossível, pois eles "são os principais responsáveis pelos valores culturais que passam para os filhos, por meio de suas escolhas, de suas ações e de suas prioridades", como esclarece a psicóloga Rosana Augone. São eles o primeiro contato social do bebê, está tudo nas mãos deles. Lucila Bernardes, orientadora educacional e terapeuta familiar, explica que "o povo brasileiro tem como algumas de suas marcas a simpatia, a cordialidade e a afetividade. Temos um laço forte com a família em nosso país, o que pode gerar excessos. Excesso de zelo e de controle, talvez camuflados em uma imensa afetividade. Somos inclusive muito físicos nas nossas manifestações de amor: muitos beijos, colos e abraços fervorosos. Se somos afetivos e gostamos de lamber nossas crias, é importante que tenhamos consciência disso, mas não percamos de vista que o papel de pai e o de filho diferem."
2. Transmita a certeza do cuidado
Desde os primeiros meses, uma dúvida que ronda, de maneira angustiante, o coração dos pais está relacionada à forma de responder ao choro do bebê durante a noite. Ir até o berço imediatamente ao ouvi-lo chorar, esperar para ver se para sozinho ou estabelecer rituais rígidos e cronometrados de visita ao quarto? Na verdade, organizar o sono do bebê é uma importante etapa inicial de "dar limite" a ele. Atualmente tem se ressaltado a necessidade de uma breve situação de espera, uma pequena pausa antes de atender imediatamente pode criar condições para que o bebê desenvolva algumas capacidades, como a de autodistração. Rosana acredita que "os contrastes, os sentimentos opostos, como fome e satisfação, inquietude e aconchego, desamparo e proteção são verdadeiramente assimilados pelo bebê, enquanto a satisfação imediata promove uma impulsividade e pouca resiliência para suportar insatisfações e frustrações, para saber "esperar com esperança" e estes são sentimentos legítimos e presentes durante toda a vida". Lucila explica que a separação entre mãe e bebê, que ocorre no parto é um exercício necessário para o resto da vida e que deve ocorrer de forma gradual. "É importante para o bebê perceber que pode contar com a presença da mãe, que sua fome, frio e desconforto serão aplacados por um outro ser que cuida. Porém, com a mesma importância ele deverá contar com a ausência. É na ausência que ele começa a lidar com seu desconforto de outra maneira. Se há a certeza do cuidado, ele chorará muito em uma primeira vez, mas em uma segunda, ele já terá aprendido que o auxílio está garantido e que um pequeno sinal já é o suficiente. A alternância de ausência e presença é essencial para a criança ir construindo a ideia que deve e que pode lidar com a falta, e consequentemente com a frustração e com os "nãos."
3. Mostre para a criança quem está no comando
Para os pais é muito difícil privar o filho de alguma coisa que ele deseja. Ver a expressão de braveza no rosto do filho ou, o que é pior, vê-lo chorar ou espernear em público é sempre constrangedor! Muitos pais não conseguem evitar essas situações e, quando percebem, já estão no meio delas. Caso esse tipo de situação ocorra, muita paciência e firmeza são recomendáveis. Lucila Bernardes diz que o constrangimento e a dificuldade em lidar com o próprio filho em lugares públicos pode atrapalhar muito a ação dos pais. "Alguns pais se deixam levar pela permissividade até o limite e quando são ridicularizados e dominados pelos filhos em público, reagem com tapas e puxões, impondo-se pela força física. O primeiro passo é não se deixar se influenciar pelo o que os outros vão achar. A relação de educação de um pai e seu filho diz respeito aos dois e por mais que as impressões possam ser inúmeras, as pessoas que testemunham tais cenas não são conhecedoras do contexto. O segundo passo é mostrar para a criança que quem está no comando e que sabe o que é melhor para ela são os pais e para isso, é necessário assumir a posição de autoridade e dar um limite firme e claro. Pode ser tirando-a do ambiente para uma conversa, pode ser olhando-a nos olhos e deixando bem claro que não irá aceitar tal comportamento". Rosana Augone é clara sobre a melhor atitude: "quando a criança faz birra (e isso faz parte do desenvolvimento emocional infantil aos 3 anos aproximadamente) os pais ficam desconcertados, principalmente em público. A criança é sábia e escolhe justamente essas situações para exercer a birra, porque percebe que tem mais chances de conseguir o que quer. Se os pais cedem, estão "ensinando" seu filho que é por meio desse comportamento que ele irá conseguir o que deseja, e é claro que ele irá repeti-lo sempre que precisar insistir para obter o que quer. Se os pais suportam o constrangimento e não cedem, irão ensinar ao filho que sua decisão e palavra têm força e propriedade e que com esse comportamento ele não conseguirá mudá-la nem atingir seus objetivos."
4. Entenda que a frustração do cotidiano é saudável
A ideia de limite está associada ao entendimento que não se pode ter e fazer tudo na hora que se deseja, isto é, que ninguém está sozinho no mundo. Porém, esse aprendizado causa frustações à criança. Os pais podem colaborar, ou melhor, ensinar os filhos a lidar com essas frustações, sem que se sintam causadores de um sofrimento irreparável. Lucila explica que os pais precisam ter clareza de que causar uma frustração cotidiana é muito diferente de um profundo sofrimento. "Como os bebês são encantadores e irresistíveis, os pais perdem a clareza e se entregam a essa "sedução", saindo do seu papel de pais. Quando os pais começam a impor com mais força os "nãos" aos quatro anos, por exemplo, já é tarde demais. A criança já não aceita e fica tudo mais difícil. Regrar o sono, a alimentação, repreender a criança quando ela apronta algo que não seja socialmente aceito, funcionam como um trabalho de formiguinha que demostra para a criança de que seus pais realmente sabem o que é o melhor para ela." Rosana também diferencia dois tipos de frustações e suas consequências: "A frustração só é um sofrimento irreparável quando tem dimensões dramáticas: a morte, a violência doméstica e urbana, o abuso sexual, o bullying contínuo tanto na escola como na família. A frustração do cotidiano é saudável, não causa danos, ao contrário permite à criança desenvolver e criar recursos próprios e saudáveis para ultrapassá-la, auxilia a ver a possibilidade de desejar outras coisas que ela nem havia pensado, além de ajuda-la a lidar com a realidade e evoluir para a compreensão de que ela não é o "centro do Universo".
5. Dê espaço a seu filho
Sim, existe um mundo privado, onde a criança pequena pode (e deve) se entreter e brincar sozinha, (com supervisão, é claro!). Estar com si mesmo é um momento precioso para as crianças. "Criança que sabe brincar sozinha é criança saudável, com autonomia e identidade", diz Rosana. "Quando damos margens aos nossos filhos eles criam identidade própria e desejam exercê-la sem a presença do adulto. Isso é saudável! De acordo com a idade e maturidade da criança é sempre importante dar autonomia para ela escolher o que está dentro de sua possibilidade". Brincar sozinho é uma experiência interna preciosa, concorda Lucila. "O que podemos observar é que os pais, no afã de servir as crianças nos seus desejos, não acham que é certo deixá-las sozinhas. Muitas vezes, porque trabalham muito e não conseguem curtir os filhos, preferem brincar com eles, proporcionando brinquedos, jogos, sem dar tempo de a criança criar seu próprio repertório simbólico. Conseguir dar esse espaço ao filho, desde que eles são bem pequenos é algo essencial. Engano daqueles que acham que somente na presença estão fazendo o bem para os filhos."
6. Ensine-o a saber esperar
Na vida atual, a velocidade está dada! Não se espera, se faz, se corre! Em geral, as crianças têm sido educadas para serem atendidas imediatamente em todos seus desejos e necessidades. Porém, saber esperar e desenvolver a paciência ajuda as crianças a viverem melhor e em menos conflito. A única saída é fazer que as crianças aprendam a esperar. "Os pais podem estabelecer metas e determinar datas especiais para presentes e/ou realização dos desejos e cumpri-las! Pais que sabem esperar são excelentes modelos para os filhos!", explica Rosana Augone.

Lucila Bernardes diz ainda que estar no coletivo é uma maneira preciosa de se exercitar a espera. "Em uma escola, por exemplo, há de se pegar fila em uma cantina e esperar para ser atendido pelo professor em inúmeras situações. As famílias devem se esforçar para conscientizar que seus filhos não são os únicos no mundo. Combinar o quanto e o quando cada filho vai ter seu espaço, ao invés de tentar suprir o desejo de todos ao mesmo tempo pode ser um caminho. É muito saudável a criança entender que os pais têm outros interesses. Desse modo, ela aprende não só a esperar, mas percebe que, além dela, há outras realidades."
7. Respeite para ser respeitado
A vida em família será mais agradável se todos agirem com paciência e respeito pelos outros e isso acontecerá mais facilmente se os limites e combinados estiverem claros. Essa paciência e respeito são ensinados de pais para filhos, não há milagre nem receita mágica. É um exercício contínuo, repetitivo, individual e coletivo. Como cada idade tem seus encantos e espinhos, os pais devem estar atentos às demandas de cada faixa etária. "Os pais podem e devem assumir seu papel de autoridade, tendo clareza que ao frustrar e ao dizer não só estará preparando seu filho de forma mais efetiva para vida. Hoje, a autoridade dos pais é construída pelos pais na relação com suas crianças dia após dia", diz Lucila. "Ensinar o exercício da paciência, da tolerância e do respeito às diferenças é um desafio que remete os pais a uma reavaliação de si mesmos: são os filhos fazendo com que os pais se tornem pessoas melhores!", conclui Rosana.

 

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