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ENTREVISTA

Para pais e professores

Mario Sergio Cortella, filósofo e educador dos mais respeitados no País, lança livro para docentes, de olho em estreitar os laços com a família e assim valorizar a educação


25/06/2014 14:07
Texto Marion Frank
Educar
Foto: Divulgação
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"Há dois grandes mitos a afastar do cenário, o que nada pode ser feito e o que tudo pode ser feito", diz o filósofo e educador Mario Sergio Cortella.

É um dos formadores de opinião mais comunicativos da atualidade. Mario Sergio Cortella sabe sintetizar o seu conhecimento de modo a tornar a comunicação transparente, seja qual for o veículo em uso. Seu livro recém-lançado, "Educação, Escola e Docência", o 22º da trajetória como escritor, é ótimo exemplo. Escrito de modo simples, tem como público preferencial quem trabalha na Educação Básica, abordando os principais problemas do dia a dia de uma unidade de ensino no País. Entretanto, trata-se também de um livro dirigido à família. Afinal, o seu subtítulo, "Novos tempos, Novas atitudes", indica que a participação de todos, familiares incluídos, é condição primordial para fazer a escola acertar o passo com as mudanças destes tempos tecnológicos, sem desprezar a tradição.

Aluno de jesuítas, Mario Sergio ganhou o hábito de jamais titubear no que tem a dizer, especialmente ao defender seus argumentos. Na entrevista a seguir, o filósofo, que também é conselheiro do Educar para Crescer, vai direto ao ponto, fazendo críticas e provocando reações. Um convite (imperdível) à reflexão para professores e pais.

Para ler, clique nos itens abaixo:
1. Para quem já escreveu uma vintena de livros, boa parte deles sobre a arte de ensinar, qual o significado de "Educação, Escola e Docência", título recém-lançado?
Eu gosto de provocar com o que diz respeito à educação escolar, especialmente a provocação de lutar em não desprezar a tradição, mas sim o arcaico. Tenho uma ojeriza especial pelos chamados "pedagocidas", alguns deles inclusive teóricos especializados em demolir a escolarização, incriminar a docência e responsabilizar a escola por uma serie de malefícios, desmoralizando qualquer espécie de trabalho que porventura possa ser feito no espaço escolar. São, a meu ver, pessoas amargas que vivem o tempo todo dizendo que a escola não serve, que a escola faz mal, enfim, gente que gosta de fazer a autópsia da escola - eu já gosto de fazer a biópsia e este livro é uma forma de biópsia... Em uma autópsia, você investiga e descobre a causa da morte e sepulta. Na biópsia, você investiga algo vivo, descobre o problema e corrige para continuar vivo. O livro "Educação, Escola e Docência" é mesmo uma reação a esses sepultadores do espaço escolar na medida em que escola não fará a mudança social por si mesma, mas sem ela a mudança não será feita - como, aliás, já dizia Paulo Freire.
2. Você começou a dar aula cedo, tinha pouco mais de 20 anos... A respeito da escola que você frequentou, haveria o que ser preservado?
Tem vários aspectos dessa escola antiga, onde comecei a lecionar, que discuto nesse livro. O que vem do passado e precisa ser mantido, protegido e levado adiante é a tradição; e aquilo que tem de ser descartado e deixado para trás é o arcaico. Ou seja: a escola hoje apresenta uma serie de circunstâncias tradicionais e outras, plenas de arcaísmos. Muitas vezes se chama uma escola tradicional de antiga, o que não é ofensa, afinal, Mozart é antigo, Platão também. O que é ruim é ser velho.
3. Cite, por favor, exemplos de tradição e de arcaísmo dentro da escola - ou ainda, usando as suas palavras, o que deve ser mantido e o que deve ser eliminado no cotidiano escolar.
Exemplos de tradição que precisam ser levados adiante: atenção ao conteúdo e à autoridade docente, o respeito à comunidade escolar e a ideia de formação de valores - não apenas ensinar, mas também dar exemplo, praticar. Exemplos do que é arcaico? O autoritarismo, o desrespeito à participação de alunos nos eventos, a escola centrada na figura docente, a escola que não respeita os modos e os tempos das gerações... O intertítulo desse livro mais recente é "novos tempos, novas atitudes". Pois bem, eu não tenho a menor percepção de que "as novas atitudes dos novos tempos" seja a criação do que é inédito. Renovar não significa sempre criar o que é novo, mas sim dar vitalidade ao que é antigo. Um museu, ao contrário do que pensam os tolos, não é lugar de coisa velha - o velho vai para o lixo. Museu é lugar, sim, do que tem valor e precisa ser guardado porque persiste na nossa tradição.
4. Mas como a escola conseguirá acertar o passo da tradição com o que é irresistivelmente novo?
Temos hoje um anacronismo, no dia a dia da escola, que precisa ser resolvido. Boa parte dos alunos é do século 21, os professores são do século 20 e os métodos e a organização disciplinares, do século 19. É preciso ter um encontro, não uma colisão, entre essas variantes. Porque a nossa era é marcada muito mais pela pressa do que pela velocidade. Pressa que conduz ao que eu chamo de ‘miojização da vida’, a vida "miojo" - pesquisa, namoro, sexo, religião, relações, tudo miojo. Há mesmo faculdades que prometem cursos em dois anos, você faz a graduação junto com o pós-graduação, isso é a degradação da base da pesquisa.
5. E também há a família "miojo", que não tem mais tempo para se reunir, conversar...
Exatamente, é o apressamento das relações, da troca de afeto... Pressa é ausência de habilidade, velocidade é sinônimo de perícia. Alguém pode me perguntar, como foi possível escrever "Educação, Escola e Docência" em três meses, ao que eu respondo, mas eu levei 40 anos para escrevê-lo, só gastei alguns meses para colocar no papel! Nesta hora, a ideia de uma escola, de uma família e de uma sociedade apressadas é profundamente maléfica na sua capacidade de formação. E triste, porque conduz à superficialidade, à relação de vida que é epidérmica. Agora, a percepção de uma escola que ultrapasse esse tipo de referência é decisiva. Exemplo: o fato de uma parte dos jovens e das crianças que hoje chega à escola ser marcada pela pressa não significa que a escola precisa se submeter a ela, mas sim levar em conta. Porque eu não posso esquecer que eles têm uma tecnologia disponível no cotidiano - e isso desde pequeninos - de capacidade de simultaneidade, conectividade e mobilidade.
6. Acha possível atrair os mais jovens a viver de modo menos acelerado - e isso, já a partir do convívio familiar?
Fórmula mágica eu não tenho, mas posso apresentar algumas sugestões. São necessários exercícios de paciência, o conhecimento precisa ser adensado, paciência não é lerdeza, ser lerdo é um vício perigoso, ser paciente é sinal de sabedoria. A criança é exercitada na paciência, quando ela aprende, por exemplo, a cozinhar junto de sua família. Evidentemente, ninguém lhe dará uma faca para lidar, mas ela poderá ter a tarefa de lavar tomates para depois tirar as sementes, quando estiverem cortados. Cozinha é uma arte que exige paciência. Outra possibilidade: fazer atividades que não dependem de eletricidade. Reflexões, desafios lógicos e mentais - por exemplo, cite três frutas que não tenham a letra ‘a’, e por aí vai. Ou seja: há uma necessidade de serenar um pouco esse tipo de desespero, acalmar as crianças e os jovens.
7. Acontece que muitos pais fazem de tudo para corresponder aos desejos dos filhos, tudo em nome de um tal "sossego"...
Os pais não podem ficar nas mãos dos filhos, submetidos às vontades deles, isso terá um custo alto, é um equívoco! Há coisas que precisam ser feitas realmente cedo antes que seja tarde demais - é preciso retomar a autoridade, sem autoritarismo. Mais: é leviano abrir mão de uma responsabilidade, supondo que ela possa ser transferida para o equipamento escolar. Não se pode confundir escola com educação. Escola é escolarização, é apenas parte de algo muito mais amplo que é a educação. E ela se dá na convivência com a família, com a religião.
8. E qual seria a razão desse comportamento? Por que há pais que acabam transferindo para a escola a função de educar seus filhos?
Aluno, em latim, é aquele que está sendo nutrido. Paulo Freire apresentou um viés interessante a essa questão, ele dizia que ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho, e que as pessoas se educam reciprocamente em uma relação, mediatizadas pelo mundo. Agora, a família ao fazer essa transferência para o equipamento escolar, faz algo irresponsável. Por que ela se comporta assim? Às vezes, ela não tem conhecimento; por isso, a escola não pode abandonar a família. Mas, em muitas ocasiões, a família faz isso por preguiça, porque é mais fácil, o que torna tudo ainda mais irresponsável. O argumento que usam é o "de não ter tempo". E eu insisto, tempo é questão de prioridade, se não há tempo para conversar com os filhos, bem, caso eles caiam no mundo da droga ilegal, não será depois uma hora de conversa, que vai resolver o problema, serão necessários dez, vinte anos. E ainda há outros pais que dizem, "ah! se não tiver tempo para me dedicar ao trabalho, não serei capaz de propiciar essa vida para os meus filhos...", pois então, é o caso de perguntar, de qual vida estamos falando? O grande Santo Agostinho dizia: "Não sacia a fome quem lambe pão pintado". Ou seja: não se contente com as aparências.
9. Santo Agostinho, Paulo Freire... Você trabalhou com o grande educador brasileiro anos a fio. Que imagem guarda dele?
Além de ter sido o último aluno a ser orientado no trabalho de pós-graduação, ainda tive a honra de trabalhar 17 anos ao lado dele, como chefe de gabinete, na Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, em 1990 (quando ele saiu, fiquei no lugar do secretário - e não do homem, Paulo Freire era insubstituível...). Agora, muito mais do que imagem, guardo dele uma espécie de herança, a chamada "tríplice aliança consigo mesmo". O que seria? Uma humildade extremamente densa, sem ser subserviente; uma recusa contínua à negligência - Paulo Freire era caprichoso, era afetivamente rigoroso, jamais um rigor mal educado; e ainda uma afetividade grande, que nada tem a ver com a pieguice. Portanto, eu pude fruir essa experiência em larga escala... Quando trabalhava na Secretaria, ele tinha de assinar dezenas de documentos, só que eu ficava conversando enquanto ele dava cabo da tarefa, falávamos de política, de vida, de amor... Um privilégio. Eu tinha 34 anos, na época.
10. Lembra-se de um momento memorável entre Paulo Freire e a família brasileira?
Quando foi secretário em São Paulo, Paulo Freire chegou a reunir, no Anhembi, três mil pais para discutir o que era educação escolar, qual a responsabilidade da família - e eu sei que isso continua na rede pública até hoje, eventos programados apenas para os pais. Porque a parceria entre escola e família é fundamental, primeiro, porque a escola não pode assumir uma tarefa da qual não dará cabo; e, segundo, porque não pode abandonar as famílias sob o argumento de que a responsabilidade de educar é da família - isso também seria socialmente irresponsável. Assim, uma das maneiras de reduzir o fardo que a escola carrega hoje é a parceria a partir de uma escola de pais - e eu conheço vários modelos de sucesso em escolas públicas e privadas. A escola Castanheiras, por exemplo, em São Paulo. Todo mês os pais se reúnem na escola, à noite, e convidam um especialista para falar de um assunto específico, a criança e a TV, o uso da internet, a erotização precoce e por aí afora. É claro que a direção da escola incentiva a que isso aconteça... Por isso, redes públicas e privadas precisam estar atentas a essa situação e organizar caminhos.
11. Serem capazes, por exemplo, de atrair os pais a participarem ativamente das reuniões...
Sim, é preciso ser sensível, atrair a presença da família para discutir assuntos com os quais ela se identifica totalmente, razão de angústia direta - assim, o retorno será imediato. Assuntos que propiciam uma conexão e uma ponte entre família e escola. Essa ponte deve ser provocada pela escola, repito, mas não se trata de uma tarefa que deverá ser assumida somente por ela. Todos podem se ajudar em nome da valorização desta geração e das próximas gerações. Isso, se não quisermos uma geração patife. Eu digo inclusive que, às vezes, os adultos de hoje são covardes em relação ao que precisam fazer. Têm medo de serem obrigados a fazer um superesforço, de abrir mão do que julgam decisivos, caso de propriedades, da condição econômica que não é fruída... Como dizia Millôr Fernandes, ‘morrer rico é sinal de incompetência’. E é mesmo. Abundância não é excesso, abundância é carência inexistente. Há famílias que não têm abundância alguma, o que elas têm é excesso. Mesa de almoço abundante é mesa que tem com quem repartir.
12. Faltaria, portanto preparo, por parte dos pais, para educar seus filhos?
Há um desnorteamento entre os adultos. Houve um apressamento inclusive no modo de formação, pessoas inclusive de alta escolaridade assumindo a paternidade e a maternidade sem terem condições de tempo ideais... É necessário lembrar algo decisivo nesse tipo de processo: quando se decide ter filhos, isso, entre pessoas escolarizadas e com capacidade de escolha, deveria existir melhor entendimento do que vai acontecer, evitando ter de voltar ao trabalho logo um mês após o nascimento - caso da mulher, que teme ficar fora do mercado por muito tempo... E, para resolver esse dilema burguês, o que ela faz? Tira do lar outra mulher para cuidar dos filhos dela. E assim evita a crise de não ter profissão, só que ela continua em crise, insatisfeita...
13. Entretanto, o seu livro "Educação, Escola e Docência" apresenta um final esperançoso, mesmo jogando luz sobre tantos problemas...
Sou positivo, sempre. Gosto da esperança ativa. Eu vejo muitos colegas ao redor lutando em diversas áreas atrás de acender a vela e não ficar amaldiçoando a escuridão. Todo pessimista é um vagabundo, que chega ao ponto de se autointitular realista porque aí não há o quê fazer... E a melhor maneira de nada fazer é acreditar que nada pode ser feito. Há dois grandes mitos a afastar do cenário, o que nada pode ser feito e o que tudo pode ser feito. Quando se afastam os dois, sobra o que realmente é possível, algo que Paulo Freire chamava de o "inédito viável". Cabe ao otimista essa boa encrenca, ele tem de ir atrás.
14. E qual seria a tarefa - ou encrenca, como diz - dos otimistas em Educação?
Pais e escola se dão as mãos de forma estruturada, contando com o governo público que tem a tarefa de apoiar, com as suas estruturas de segurança, algo que faça com que a cidadania seja uma obra diária - apoiar as estruturas de rede de segurança coletiva, proteção social em relação à infância e à adolescência, criação de espaços de convivência, parceria com instituições da sociedade civil, caso de organizações ligadas ao mundo empresarial, fundações em geral, enfim, o nosso arsenal de instituições, que impeça o apodrecimento da nossa esperança e que nos tire da letargia que, às vezes, é cumplicidade. Porque em um mundo de urgências, omitir-se é ser cúmplice do podre. Então, vamos lá, é tudo um pouco mais complicado, mas não menos impossível.

 

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