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José Pacheco: "No meu percurso escolar, houve quatro pessoas que recordo com ternura"

O educardor português relembra os seus professores mais marcantes


22/11/2011 17:57
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Foto: José Pacheco coordena a Escola da Ponte, instituição que se notabilizou pelo projeto educativo inovador, baseado na autonomia dos estudantes
José Pacheco coordena a Escola da Ponte, instituição que se notabilizou pelo projeto educativo inovador, baseado na autonomia dos estudantes

No meu percurso escolar, houve quatro pessoas que recordo com ternura. O primeiro foi um professor padre, que me ensinou a pergunta fundadora de toda a pedagogia: O que quereis aprender? E, porque era homem de questionar em tempo de Ditadura, de padre e professor passou a "clandestino", por ser considerado "jacobino". E eu, que desconhecia o significado da palavra jacobino, logo fui ao dicionário. A última herança que esse padre-professor me deixou foi a inquietação que me conduziu ao primeiro passo de uma aprendizagem que também lhe fiquei a dever. 

Também tive um professor-poeta (todos o são, mas este publicava poesia). Acendeu trilhos poéticos que me levaram muito para lá dos versos que convencem os adolescentes de que são poetas. Foi o primeiro professor a mostrar-me o que não cabe nas palavras, a guiar-me pelas palavras que estão para lá das palavras e das ideias que as palavras ocultam. Provocou deslumbramentos perante Caeiro e solenidade perante os primeiros versos da Sophya. Desocultou poetas malditos e resgatou um Camões que andava naufragado em fastidiosas dissecações de decassílabos. 

Aos dezoito anos, apaixonei-me pela professora de Francês, logo à primeira (amor platónico, como é bom de ver!). Era uma mulher fantástica, que se envolvia no que ensinava. Interrogava as nossas vidas na língua de Voltaire e de Vian. As suas perguntas, feitas em catadupa, levavam-nos a novas descobertas e à descoberta de nós. Só muito mais tarde consegui entender o que aconteceu. As suas aulas - que eram mais uma espécie de liturgia - produziam em mim um efeito mágico, e eu para ali ficava a contemplá-la, automaticamente absorvendo tudo o que ela dizia, antropofagicamente exaurindo tudo que ela era. Numa alquimia dos sentidos, de que só ela conhecia os segredos, mais do que a amá-la, levou-me a amar a cultura francesa: Camus, Yourcenar, Eluard, Piaf… 

Finalmente, evoco o professor que me "desviou" da Electrotecnia para a Pedagogia. Lograva conciliar duas características aparentemente incompatíveis: era exigente, pois a escola é estudo e esforço; transbordava afecto, porque uma escola sem vínculos afectivos é um redil de eunucos. Era um praticante convicto do que se convencionou chamar "ensino tradicional". Durante alguns anos, também eu fui um professor "tradicional". E orgulho-me de o ter sido. Preparava as minhas aulas com rigor, acreditava ser aquele o melhor modo de ensinar. Isto, antes de conhecer outros modos… 

No seu tempo, o professor Lobo foi alvo de depreciação e de calúnias. Creio ser sina dos inovadores esta de serem vilipendiados. O que fez com que alterasse as suas práticas, ao cabo de dezenas de anos de "tradicional puro e duro", foi a pergunta que um aluno lhe dirigiu: Professor, porque me castigas? Porque não me ensinas? O professor Lobo passou por uma profunda revisão de vida - escutei-o, numa das suas últimas palestras, em 1969 -, transmutou o autoritarismo (típico das escolas da Ditadura) em autoridade. Os alunos passaram a chamar-lhe "mestre" e a tratá-lo na segunda pessoa do singular, numa saborosa mistura em que o afecto não se confundia com languidez. 

O professor Lobo não mitigava os afectos. Manifestava-os. Estava ali, inteiro, no dia em que o conheci. Por isso, pude encontrá-lo. Foi na luminosa verdade daquele ser que eu encontrei o meu caminho.
Quando falo de afecto, eximo-me de um idealismo piegas, para o abordar como Freneit o entendia: para aprender, transformar e viver é preciso fechar as fronteiras entre o intelectual e o afectivo, entre o brincar e o desafio

Portugal deveria conhecer e orgulhar-se dos anónimos construtores de saberes e de afectos, como o professor Lobo. Deveria celebrar a memória de mestres como Agostinho da Silva, que dizia que professor é o que sabe e o que ama.

José Pacheco é coordenador e idealizador da Escola da Ponte, em Portugal, uma das insitutições de ensino mais vanguardistas do mundo. É specialista em Música e em Leitura e Escrita e mestre em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 



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