No meu percurso escolar, houve quatro pessoas que recordo com ternura. O primeiro foi um professor padre, que me ensinou a pergunta fundadora de toda a pedagogia: O que quereis aprender? E, porque era homem de questionar em tempo de Ditadura, de padre e professor passou a "clandestino", por ser considerado "jacobino". E eu, que desconhecia o significado da palavra jacobino, logo fui ao dicionário. A última herança que esse padre-professor me deixou foi a inquietação que me conduziu ao primeiro passo de uma aprendizagem que também lhe fiquei a dever.
Também tive um professor-poeta (todos o são, mas este publicava poesia). Acendeu trilhos poéticos que me levaram muito para lá dos versos que convencem os adolescentes de que são poetas. Foi o primeiro professor a mostrar-me o que não cabe nas palavras, a guiar-me pelas palavras que estão para lá das palavras e das ideias que as palavras ocultam. Provocou deslumbramentos perante Caeiro e solenidade perante os primeiros versos da Sophya. Desocultou poetas malditos e resgatou um Camões que andava naufragado em fastidiosas dissecações de decassílabos.
Aos dezoito anos, apaixonei-me pela professora de Francês, logo à primeira (amor platónico, como é bom de ver!). Era uma mulher fantástica, que se envolvia no que ensinava. Interrogava as nossas vidas na língua de Voltaire e de Vian. As suas perguntas, feitas em catadupa, levavam-nos a novas descobertas e à descoberta de nós. Só muito mais tarde consegui entender o que aconteceu. As suas aulas - que eram mais uma espécie de liturgia - produziam em mim um efeito mágico, e eu para ali ficava a contemplá-la, automaticamente absorvendo tudo o que ela dizia, antropofagicamente exaurindo tudo que ela era. Numa alquimia dos sentidos, de que só ela conhecia os segredos, mais do que a amá-la, levou-me a amar a cultura francesa: Camus, Yourcenar, Eluard, Piaf
Finalmente, evoco o professor que me "desviou" da Electrotecnia para a Pedagogia. Lograva conciliar duas características aparentemente incompatíveis: era exigente, pois a escola é estudo e esforço; transbordava afecto, porque uma escola sem vínculos afectivos é um redil de eunucos. Era um praticante convicto do que se convencionou chamar "ensino tradicional". Durante alguns anos, também eu fui um professor "tradicional". E orgulho-me de o ter sido. Preparava as minhas aulas com rigor, acreditava ser aquele o melhor modo de ensinar. Isto, antes de conhecer outros modos
No seu tempo, o professor Lobo foi alvo de depreciação e de calúnias. Creio ser sina dos inovadores esta de serem vilipendiados. O que fez com que alterasse as suas práticas, ao cabo de dezenas de anos de "tradicional puro e duro", foi a pergunta que um aluno lhe dirigiu: Professor, porque me castigas? Porque não me ensinas? O professor Lobo passou por uma profunda revisão de vida - escutei-o, numa das suas últimas palestras, em 1969 -, transmutou o autoritarismo (típico das escolas da Ditadura) em autoridade. Os alunos passaram a chamar-lhe "mestre" e a tratá-lo na segunda pessoa do singular, numa saborosa mistura em que o afecto não se confundia com languidez.
O professor Lobo não mitigava os afectos. Manifestava-os. Estava ali, inteiro, no dia em que o conheci. Por isso, pude encontrá-lo. Foi na luminosa verdade daquele ser que eu encontrei o meu caminho.
Quando falo de afecto, eximo-me de um idealismo piegas, para o abordar como Freneit o entendia: para aprender, transformar e viver é preciso fechar as fronteiras entre o intelectual e o afectivo, entre o brincar e o desafio.
Portugal deveria conhecer e orgulhar-se dos anónimos construtores de saberes e de afectos, como o professor Lobo. Deveria celebrar a memória de mestres como Agostinho da Silva, que dizia que professor é o que sabe e o que ama.
José Pacheco é coordenador e idealizador da Escola da Ponte, em Portugal, uma das insitutições de ensino mais vanguardistas do mundo. É specialista em Música e em Leitura e Escrita e mestre em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto.
depoimentos
recomendamos
MAIS LEITURA
Conheça atividades simples - e baratas! - que podem transformar seu filho em um pequeno grande leitor
TESTE
Você sabe lidar com seu filho adolescente?
mais lidos
VESTIBULAR
Os 100 melhores livros da literatura brasileira para você ler uma vez na vida
FÉRIAS E FILMES
Uma seleção de filmes que passam grandes lições e podem tornar as férias mais divertidas
blogs