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ENTREVISTA

"Uma pessoa que escreve tem que ter sido um leitor"

Escritor Pedro Bandeira chama atenção para a importância da literatura infantojuvenil


10/12/2014 18:52
Texto Fabio Cardoso
Educar
Foto: Rubens Romero
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"Eu sempre fui jornalista. Desde jovem, essa foi a minha principal fonte de sobrevivência: escrever".

Pedro Bandeira tem uma trajetória marcante no segmento infantojuvenil. Ele teve 30 milhões de exemplares de seus livros vendidos em suas quatro décadas de carreira. Nessa entrevista ao Podcast Rio Bravo ele comenta sobre seu sucesso e a longevidade de suas obras: "trato dos sentimentos humanos, das ligações entre as pessoas. Isso não muda".

O autor também fala sobre a importância da leitura em nossa formação: "Eu sempre li para me divertir. Um livro para mim é diversão e estudar para mim é divertido. Acho que seria interessante se todo mundo pensasse assim."

Veja a seguir a entrevista - ou ouça a gravação na íntegra pelo site do Podcast Rio Bravo.

Para ler, clique nos itens abaixo:
1. Como surgiu a sua vontade de participar desse processo de escrita e de formação de leitores? Conte-nos essa trajetória de tantos anos como escritor.
Pedro Bandeira: Eu sempre fui jornalista. Desde jovem, essa foi a minha principal fonte de sobrevivência: escrever. Escrever aqui, ali, em jornal, revista, onde fosse. Eu não estava preocupado com educação, escola ou literatura infantojuvenil. Eu sempre fui um grande leitor de livros juvenis durante a minha biografia e no jornalismo, devagarzinho, eu comecei a trabalhar em coisas assim, como escrevendo pequenas histórias para crianças em revista de banca. E comecei a gostar disso. Sou casado com uma educadora e vivia um pouco, de ouvido, a educação. Politicamente sempre fui muito interessado na educação, sabendo que esse país só pode ser mudado quando nós tivermos uma população efetivamente com grande acesso ao conhecimento. Então, daí, eu, em determinado momento, notei que tinha dezenas de pequenas histórias publicadas em revistas de banca, mas revista de banca é efêmera. Ela hoje está aqui, amanhã é substituída por outro exemplar. Experimentei pegar uma das minhas histórias e estendê-la para um livrinho. Gostei muito da experiência e resolvi entrar um pouco mais dentro desse mundo.

Aí, eu fui estudar o que era a literatura infantil já existente no Brasil e no mundo e essa ideia da adoção escolar. Isto é, quando a professora adota livros de literatura para a criança ler na escola. Isso aconteceu no Brasil a partir do fim da década de 70, começo da década de 80. E hoje essa chamada adoção de literatura nas escolas é muito grande no Brasil. Então, pessoas como eu, Ruth Rocha, Ziraldo e tantos outros escritores passaram, a partir desse momento, há 30 anos mais ou menos, a se dedicarem a criar uma literatura específica para ser consumida dentro das escolas, orientada pelas professoras e não necessariamente pela família.

No mundo inteiro, no mundo adiantado e desenvolvido, a literatura entra em casa para as crianças pela família, não necessariamente pela escola. O Brasil é um fenômeno interessante. A cultura entra obrigatoriamente pela escola e não pela família. As nossas famílias nunca consumiram literatura. Raramente o faziam, tanto que, antes de mim, havia Monteiro Lobato. Só o Lobato escreveu profissionalmente para as crianças antes dessa geração, que é a geração de Ruth Rocha, Pedro Bandeira, Ziraldo, Ana Maria Machado, Odete de Barros Mott, Stella Carr, João Carlos Marinho, Marcos Rey. Nós somos os pioneiros e acabamos por criar um tipo de literatura que se tornou clássica. Até hoje, as crianças leem O Gênio do Crime, de João Carlos Marinho, O Reizinho Mandão, da Ruth Rocha, O Menino Maluquinho, do Ziraldo, Bisa Bia, Bisa Bel, da Ana Maria Machado, O Caso da Estranha Fotografia, da Stella Carr ou Justino O Retirante, de Odete de Barros Mott. E, há 30 anos, eles leem A Droga da Obediência, que eu escrevi e publiquei em 1984. Esse livro começou a fazer bastante sucesso. Até hoje, já vendeu quase dois milhões de exemplares e é lido por meninos com cerca de 12 anos. Esse título ensejou uma sequência, com Pântano de Sangue, Anjo da Morte, A Droga do Amor, Droga de Americana, protagonizados por uma turma de meninos heroicos. Sempre me escreveram pedindo continuação da série e eu demorei muito, mas acabei continuando. Este ano saiu a sexta aventura com eles, que é A Droga da Amizade.
2. Como foi essa transição da sua carreira como jornalista para ser autor de literatura infantojuvenil? Quais foram os principais desafios e dificuldades que você enfrentou nessa trajetória?
Pedro Bandeira: Quando você resolve escrever para uma fatia do público específica, é realmente necessário que você conheça esse público e que você se adeque a ele. Que tipo de adequação é essa? Muita gente acha que é simplesmente pela linguagem e que haveria uma linguagem do jovem. Não, eu aprendi que não é isso. A linguagem do jovem depende da época. A linguagem do jovem da década de 50 era uma, da década de 80 era outra e daqui a 50 anos será outra. A norma tem que ser sempre a norma culta. Não adianta procurar usar gírias da época. Se eu quiser falar de dois adolescentes que estão namorando e dão um rápido beijo, eu não posso falar que eles deram um selinho. As gírias morrem, passam. Então, você tem que ter essa consciência.

Claro que você tem que usar uma linguagem sem ser com grandes dificuldades. Você não pode usar palavras raras. Tem que ser um texto um pouco mais coloquial, com períodos não muito longos. Deveria ser assim até para a literatura adulta, na minha modesta opinião. Mas o que você tem que entender é o nível emocional do ser humano que você quer atingir. Se eu quero que o meu livro seja entendido por uma pessoa de oito anos, eu tenho que saber qual é o universo emocional de uma pessoa de oito anos. Eu tenho que saber que essa pessoa é muito mais ligada a sua própria casa do que ao mundo geral.
3. E como é possível capturar o universo emocional desse público?
Pedro Bandeira: O artista, em primeiro lugar, tem que ter sensibilidade, mas tem que ter conhecimento também. Eu tive a sorte de minha mulher ser experiente nisso. Ela sempre foi minha consultora. Claro que eu devo ter alguma sensibilidade para sentir isso também. Eu fui realmente tentar estudar a psicologia do desenvolvimento e saber que, por exemplo, eu não posso falar de namoro para alguém de seis anos, a não ser brincando sobre o namoro do pai e da mãe. Quando eu escrevo isso para uma pessoa de 12 anos, eu sei que não pode ser um namoro tão entrado nas consequências finais, como será aos 16 e 18 anos. Então, para tudo há uma sensibilidade. Não adianta eu escrever de modo livre. Se eu escrever assim, eu escrevo o que eu quero. Então, eu faço uma literatura adulta.
4. A própria literatura adulta também não tem esse direcionamento em termos de estilo e temática?
Pedro Bandeira: Eu acho que você não é obrigado. Se eu quero fazer um livro cheio de palavrões, sobre a vida realista, cruel, dos excluídos, eu escrevo. Leia quem quiser ler. É claro que um adulto tem uma experiência de vida suficiente para ler qualquer coisa e compreender qualquer coisa. Um intelectual pode, com muito prazer, ler uma história escrita nas sextilhas de cordel, do Pompílio Diniz, e achar muito sabor naquilo, porque tem ideia do que é a vida no campo e no nordeste. Ele tem essa abertura. Ele pode ler uma história como o Apanhador no Campo de Centeio, em que o autor escreve sobre um garoto de 17 anos muito revoltado com a vida. Eu, com 70 anos, posso ler esse livro e compreender. Quando eu tenho uma idade pré-adulta, eu não tenho essa distância e nem quero ter. Se eu tenho 12 anos e me dão um livro infantil, eu acho chato. Agora, seu eu tenho 70 e pego um livro infantil acho legal ler. Eu tenho essa distância. Até a adolescência, eu sou muito centrado no meu tempo mesmo.

Eu tenho livros para crianças dos seis aos 15 anos. Cada um deles sai bem em cada idade, porque eu sei como escrever. Por exemplo, se eu quero fazer um poema, como fiz, para crianças pequenas, eu falo sempre na primeira pessoa. Então, se eu quero falar sobre as visitas que entram na casa da criança, falam "ai, que gracinha, você é a cara do papai" e apertam a bochecha dela, eu tenho que fazer um poema odiando essa visita. Eu tenho que entrar no ponto de vista da criança. Eu tenho que entender que uma criança pequena quando olha para o rosto do adulto, o que ela vê atrás é o teto ou o céu. O adulto quando olha para uma criança vê atrás é o chão.

Então, só essa diferença da altura do ponto de vista de altura muda a maneira de eu ver o mundo. O que é um automóvel para uma criança de seis anos? É um lugar chato, porque não pode sentar na frente com a mamãe. Tem que ser na cadeirinha, atrás. Se eu tenho 16 anos, eu já quero pegar o carro do papai. Por que esperar até os 18 anos? O mundo é diferente de acordo com a idade do meu desenvolvimento. Se eu sou um adulto, tudo bem, já passei por tudo isso e posso ter a diferença cultural. Então, se eu quero escrever para o público adulto, eu posso ser livre, usar palavrões e cenas sexuais explícitas. Se eu quero falar sobre sexo para um pré-adolescente, eu tenho que ter muito cuidado. Ele não chegou lá, só pensa nisso.
5. A , Droga da Obediência, não envelheceu, mas os seus leitores daquela época envelheceram e passaram a ler outras coisas. De alguma forma existe um contato?
Pedro Bandeira: Felizmente há. Muitos desses meninos me escrevem. Antes, mandavam cartas. Muitos deles se tornaram meus amigos queridos e são adultos que mandam convites de casamento e fotos dos filhos. Com esse lançamento do sexto livro da série Os Karas, eu andei pelo Brasil inteiro dando palestras e autógrafos e encontrei com eles. Geralmente, esses eram os bons alunos de sua época. O mau aluno da época nem mandou carta. Certamente, não gostou do livro. Agora eu estou fazendo novos livros para os filhos desses leitores. São pessoas no Pará, no Rio Grande do Sul, leitores que já se tornaram advogados, jornalistas, publicitários e até escritores, com livros publicados. Eu recebi o e-mail de uma leitora advogada que prestou concurso e se tornou juíza. Ela escreveu "Ai, Pedro, sabe, eu às vezes pego um julgamento e me pergunto: como um Kara agiria numa hora dessas?" Essa é a maior glória de um autor, já que meus livros trabalham muito a ética. Por isso que os personagens nunca morrem.

Nos primeiros livros, não havia computador, celular, nada disso e esses livros ainda são lidos, porque eu não trato de computador, celular, nada disso. Eu trato de sentimentos humanos e da ligação entre as pessoas. Por isso que Shakespeare nunca morreu. Depois de 400 anos, ele não é velho porque ele não tratou do seu tempo, mas dos sentimentos humanos. São histórias sobre amor, ciúme, inveja, violência, ambição, cobiça. Isso não muda nem hoje, nem amanhã. Daqui a cem anos, ainda vão montar as peças de Shakespeare e emocionar as pessoas. Eu estava pensando sobre um grande livro chamado Dom Quixote. Foi escrito há muitos e muitos séculos e trata de um velho que não nota que o mundo está mudando. Ele ainda quer o mundo passado das cavalarias, dos heroicos cavaleiros de espada na mão, mas a Espanha está se tornando burguesa e não é mais nada daquilo. E ele enlouquece com isso. Se isso era verdade na época do Cervantes, imagina hoje, em que as coisas mudam toda hora.
6. Em relação a autores, como Shakespeare e Cervantes, quais outros passam pelo seu crivo e pelas suas mãos e servem como referência?
Pedro Bandeira: Uma pessoa que escreve tem que ter sido um leitor. E um leitor apaixonado, ávido. E eu fui ávido, mas nunca li para ser mais inteligente e para aprender. Eu sempre li para me divertir. Um livro para mim é diversão e estudar para mim é divertido. Acho que seria interessante se todo mundo pensasse assim. Por exemplo, quando você tem uma curiosidade, você vai ao Google para saber. É quase como diversão, não uma necessidade. Isso é estudar. E na literatura você aprende sem notar. Você quando é jovem e lê Os Três Mosqueteiros, acha ótimo. Sem querer, você está aprendendo sobre o tempo dos Luíses, a força da Igreja sobre o Rei, a entrada da Idade Moderna, o que é aristocracia e tudo sem querer. Eu estava relendo um livro importante sobre cultura, do Max Weber, e ele cita o Robinson Crusoé e a importância desse livro. Não só como um homem sobrevive sozinho em uma ilha, mas o momento em que é impossível você ser uma ilha no mundo. Você é dependente de todo mundo. É um livro filosoficamente muito importante, além de ser muito divertido. É melhor aprender se divertindo do que por obrigação. Então, você tem que escrever de modo gostoso.

Hoje em dia, eu frequento muitas editoras e conheço autores de livros didáticos. Eles lutam muito para fazer um livro agradável, que não seja chato. Eles querem ensinar as crianças, mas ensinar gostosamente. É importante que elas não achem que estudar é chato. Chato é ser burro.

 

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