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QUESTIONAMENTO

Ricardo Azevedo: "Num passe de mágica, ler e estudar passou a ser algo imprescindível para mim"

O escritor e pesquisador conta quais motivações o fizeram aprender a estudar


01/11/2012 16:29
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"A sociedade atual quer que seus jovens desenvolvam sua criatividade e seu pensamento crítico no que diz respeito a ela mesma?"

Preciso dizer com todas as letras: não aprendi a estudar na escola. Frequentava as aulas, mas jamais compreendi de fato por que estava estudando, qual era a interligação entre as matérias, o que representavam em termos culturais e de que forma poderiam ser importantes para mim. Naquele ambiente, a lógica era uma só: estudar para um dia passar no vestibular. Nada disso fazia sentido, tanto para mim como para a maioria dos meus colegas. No final do Ensino Médio, como tirava boas notas em redação, decidi fazer jornalismo. O problema é que não havia este curso à noite e eu precisava trabalhar. Resolvi então, meio por acaso, prestar vestibular para Artes Plásticas. Tive muita sorte com essa decisão.

Só na faculdade fui compreender o valor do estudo e da leitura, principalmente por meio de duas matérias: História da Arte e Estética. Graças à primeira, pude perceber como as obras de arte tinham sempre tudo a ver com o contexto em que eram criadas, ou seja, com as crenças, ideias e contradições de sua época. Em resumo, os artistas relevantes eram aqueles que traziam e discutiam as questões de seu tempo dentro de suas obras. Compreender isso me deu uma nova visão do que significava o conhecimento. Por outro lado, nas aulas de Estética, pude entender melhor o que caracteriza e diferencia as obras de arte de outras expressões humanas como, por exemplo, as Ciências. Tudo isso foi fundamental na minha formação e me fez ver que não estamos soltos, boiando sozinhos no espaço, mas, sim, somos cercados de costumes, ideologias, teorias e crenças que podem e devem ser discutidos e, mais, que integramos uma narrativa cultural e civilizatória que está em construção e é cheia de contradições, discussões e caminhos possíveis. Se é assim pensei eu, quais as questões do meu aqui-agora e como discuti-las e representá-las? Logo me dei conta de que, para enfrentar essa indagação, seria preciso conhecer as questões anteriores, ou seja, aquelas que nos levaram às atuais. Num passe de mágica, ler e estudar passou a ser algo imprescindível para mim. Afinal, para adotar alguma posição crítica diante da vida e do mundo, era preciso conhecer quais ideias estavam em jogo e isso seria impossível sem a leitura e o estudo.

Vale lembrar que, para qualquer trajetória ou área de conhecimento, as questões que, no meu caso, foram levantadas pela História da Arte e pela Estética, continuam básicas. Seja como pessoa, cidadão ou profissional, precisamos nos situar na vida e no mundo. Eis, a meu ver, um dos papéis essenciais da escola. Creio que todas as matérias escolares deveriam ter como ponto de partida e substrato esses questionamentos.

Acabei mais tarde fazendo mestrado e doutorado, apenas porque queria estudar de forma sistemática certos assuntos que me desafiavam e ainda me desafiam. Continuo a estudar até hoje e farei isso até o fim da vida.

Voltando à escola, como tenho a oportunidade de conversar com jovens que leram meus livros, sinto que, infelizmente, a maioria deles vive hoje a mesma situação que vivi no passado: não têm a menor ideia do que estão fazendo na escola a não ser que precisam se preparar para fazer o tal exame vestibular. É uma situação irracional e desmotivadora, um verdadeiro atentado à inteligência e à criatividade de qualquer estudante.

Tal descompasso pode ter razões variadas, mas quero ressaltar uma delas. Escolas são representações da sociedade e, sendo assim, cabe a pergunta: a sociedade atual quer que seus jovens desenvolvam sua criatividade e seu pensamento crítico no que diz respeito a ela mesma? Sinceramente, não creio. Um jovem com pretensões a construir uma sociedade melhor do que esta que aí está, torna-se inquieto, faz perguntas, busca informações, aponta contradições, usa a inteligência e dá trabalho. O oposto disso, lamentavelmente, é o que mais se vê: estudantes alienados e egocêntricos, incapazes de pensar ou se expressar com competência, e sem consciência de que fazem parte de uma cultura e de uma sociedade. São preparados para serem meros técnicos, consumidores, despolitizados e, portanto, presa fácil da alienação propiciada pelo consumismo, pelo niilismo e pelas drogas. Quem é inquieto, faz perguntas, sabe pensar e deseja compreender a si mesmo e a sociedade em que vive, não costuma aceitar ser massa de manobra de ideologias totalitárias, políticos corruptos, comerciantes inescrupulosos e traficantes. Para gente assim, tenho certeza, ler e estudar faz todo sentido."  

 Ricardo Azevedo é escritor, ilustrador, pesquisador e publicitário. Já escreveu mais de 100 livros infantis. É formado em comunicação visual pela FAAP e é mestre em Letras e doutor em Teoria Literária pela USP. Seus livros já receberam cinco prêmios Jabuti e um prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), entre outros.


 

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