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Sérgio Rouanet: "A base que tornou possível meu desenvolvimento foi o estímulo que recebi em casa".

O filósofo e diplomata brasileiro atribui a seus pais seu lugar na Academia Brasileira de Letras e agradece pelo ambiente enriquecedor em que viveu


22/09/2011 15:22
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Foto: Sérgio Rouanet
Para Sérgio Rouanet, o hábito da leitura deveria ser imprescindível para todos

 

Nasci em um ambiente privilegiado: meu pai era médico sanitarista e bastante letrado. Naquele tempo era mais comum haver médicos assim. Existiram vários membros da Academia Brasileira de Letras que eram médicos, inclusive um senhor chamado Oswaldo Cruz e outros tantos, como Afrânio Peixoto e Moacyr Scliar.


Meu pai lia coisas que hoje não são lidas. São, na verdade, até meio menosprezadas, como Anatole France e Eça de Queirós. Ele era mais queirosiano do que eu. Ficávamos o tempo todo brigando um com o outro amistosamente: ele defendendo Eça de Queirós e eu achando que Machado de Assis era superior. Foi uma boa relação pai e filho. Com minha mãe, fui educado a gostar da cultura francesa. Ela foi educada em um colégio francês e falava perfeitamente a língua. Todas as referências culturais dela vinham da França. Graças a isso, fui um leitor apaixonado por Corneille, Molière, Sthendal. Minha mãe lia para mim Racine quando eu tinha 11, 12 anos. Sem dúvida alguma, a base que tornou possível meu desenvolvimento foi o estímulo que recebi em casa.

O primeiro livro que eu li na minha vida se chamava Os Nenês D'Água, de Charles Kingsley. A partir desse momento eu lia incessantemente. Ler para mim é um prazer, algo indispensável como respirar. Eu me lembro de quando era garoto e andava permanentemente com um galo na testa porque lia andando e batia a cabeça em um poste!

Meu pai não queria que eu correspondesse a um determinado perfil ideal, tudo se dava com naturalidade. Essa é a segunda razão pela qual considero a minha infância feliz e privilegiada.

Só posso agradecer meus pais por terem me proporcionado esse tipo de ambiente. Infelizmente isso é um privilégio, e por definição, privilégio é algo restrito a poucas famílias num país tão desigual como o Brasil, com chances tão assimétricas.

Acho que a escola é algo fundamental. A família como instância formadora original também é fundamental, mas algo que complementa tudo isso é a leitura. Não vejo nenhuma possibilidade de as pessoas serem consideradas educadas sem adquirirem o hábito da leitura.

Mas sou otimista: acho que por meio da Educação de qualidade, estendida ao número maior de pessoas, será possível formar indivíduos capazes de compreender a cultura e ensinar às crianças a fazê-lo também.

Outro dia eu estava dando uma palestra num instituto de formação para psicanalistas e ao fim um dos participantes perguntou que autor eu recomendaria a leitura, ao qual prontamente respondi: "Machado de Assis". Ele retrucou explicando: "Não, quero saber que autor o senhor recomendaria para psicanalistas". Minha resposta então foi: "Ah bom! Você deveria ter me explicado! Nesse caso, nesse caso... Machado de Assis!"



Sérgio Paulo Rouanet é diplomata, filósofo, tradutor e ensaísta brasileiro. Desde 1992, ocupa a cadeira nº13 da Academia Brasileira de Letras. É responsável pela criação da Lei Rouanet, que concede incentivos fiscais à cultura. Entre suas obras publicadas estão "Mal-estar na Modernidade" e "Os dez amigos de Freud" pelo qual ficou em segundo lugar no Prêmio Jabuti 2004 na categoria Educação, Psicologia e Psicanálise. É um dos palestrantes do Ciclo Mutações: Elogio à Preguiça, que acontece até o dia 27 de outubro em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte.

 



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