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ENTREVISTA

"A tecnologia possibilita oferecer uma educação personalizada a todos"

Fundador da Geekie, Claudio Sassaki explica como a tecnologia colabora com a Educação.


08/05/2015 16:27
Texto Fabio Cardoso
Educar
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"A grande beleza desse momento que a gente vive é que a personalização do processo de aprendizado agora está acessível para qualquer pessoa."

Claudio Sassaki é mestre em Educação pela Stanford School of Education e fundador da Geekie, uma startup de tecnologia voltada para as escolas. Ele foi entrevistado pelo Podcast Rio Bravo sobre a implementação de soluções tecnológicas no ensino.

A iniciativa se baseia em duas premissas: 1) as pessoas não aprendem da mesma forma e 2) a tecnologia pode ser utilizada para entender como cada aluno pode aprender melhor. Existente desde 2011, a startup é especializada no desenvolvimento de produtos para o setor da educação.

O entrevistado destaca que o modelo de negócio permite que as soluções da empresa também sejam direcionadas para as escolas públicas."Seria uma contradição se o nosso produto buscasse apenas as escolas particulares; afinal, o aluno que mais precisa é o da rede pública".


Veja a seguir a entrevista - ou ouça a gravação na íntegra pelo site do Podcast Rio Bravo.

Para ler, clique nos itens abaixo:
1. O que mais motivou a Geekie: a oportunidade de empreender ou a carência de iniciativas que promovessem saídas para os problemas em educação?
Eu nunca imaginei que seria professor, mas foi uma forma que encontrei de ganhar meu dinheiro e isso transformou completamente minha vida. Eu me apaixonei por educação, percebi que as pessoas aprendem de formas diferentes. O problema é que o sistema de educação no Brasil é padronizado. O professor dá a mesma aula, do mesmo jeito, na mesma sequência para todos os alunos, e sabemos que as pessoas não aprendem da mesma forma. Quando eu fui para a Califórnia fazer mestrado em educação, isso me marcou demais, apesar de ter seguido carreira no mercado financeiro por quase dez anos. Em 2011, amadureceu a vontade de fazer alguma coisa que para mim fizesse mais sentido e tinha que ser em educação. A realidade do nosso país é que, de cada 20 jovens que começam na escola, só um termina com o nível esperado - não é nem acima - de Português e Matemática. Os jovens não estão aprendendo. A Geekie é baseada no conceito de que as pessoas não aprendem da mesma forma. A gente acredita no conceito de personalização. O que a tecnologia faz é possibilitar que a gente consiga oferecer uma educação personalizada para todos, não só para aqueles que podem pagar. Ela dá escala e ajuda a gente, com dados, a entender como cada aluno aprende melhor.
2. Como a tecnologia pode dar conta de alterar esse status quo da educação brasileira?
Esse modelo educacional tem uma série de desafios. Se você olhar as avaliações educacionais, verá que o aluno não está aprendendo e o cenário não está melhorando. Pelo contrário, está piorando. A tecnologia permite ver esse conceito em uma série de outros setores. Por exemplo, Google, Facebook, Netflix e Amazon têm toda uma tecnologia para que cada clique da pessoa nesses sites seja transformado em informação. Essa informação é captada, analisada e comparada com outros milhões de pessoas para entender qual o perfil desse usuário a fim de personalizar conteúdo. No caso do Google, é a busca; no caso do Facebook, são pessoas, amigos; no caso de um site de e-commerce, produtos. O que a gente fez foi entender como esse conceito poderia ser aplicado em educação e construir uma plataforma que, primeiro, conseguisse identificar como cada pessoa aprende melhor; segundo, o jeito que uma pessoa aprende matemática é diferente do jeito dela aprender português ou história; e terceiro, não é porque a pessoa aprende de um jeito hoje que vai aprender do mesmo jeito sempre. Tem um componente de aprendizado de máquina onde essa tecnologia teria que evoluir conforme o usuário também vai evoluindo.

No fundo, a tecnologia possibilita que todo mundo tenha acesso a uma educação personalizada. Esse conceito não é novo. Quem tem condições paga um professor particular. Quem tem condições de pagar uma escola mais cara com um número menor de alunos por professor também paga. O que hoje a tecnologia possibilita é entender como cada pessoa aprende e montar um plano de estudos que seja personalizado para ela. É como se cada aluno tivesse oportunidade de ter um professor particular que entende quais são as dificuldades dele, personalizando o nível de dificuldade para o nível de proficiência dessa pessoa; e organiza o plano de estudos dela numa sequência em que não só traga os assuntos que ela precisa aprender, mas também os pré-requisitos para o entendimento do assunto. Esse é o professor particular dos sonhos que hoje está disponível, através da tecnologia, para qualquer pessoa.
3. Quais são os produtos que a Geekie tem em termos de plataforma?
Nosso foco é o aluno do ensino médio, e o que está no final do ensino fundamental tem o grande desafio do vestibular. O que a gente fez foi desenvolver uma tecnologia preditiva ¬- hoje o Enem virou o grande vestibular nacional - onde, ao fazer uma prova nossa, a gente consegue dizer quanto o aluno tiraria no Enem com o que ele sabe hoje. Com essa nota ele consegue avaliar em quais faculdades entraria, caso tirasse essa nota. E o mais importante, a gente mostra para ele quais são os pontos que ele tem que focar, quais são os pontos fracos que esse aluno tem para poder entrar na faculdade dos sonhos dele. Depois desse diagnóstico, montamos um plano de estudos personalizado para cada aluno com base no que eu sei sobre esse aluno. E a beleza é que, por ser uma plataforma tecnológica, cada clique do aluno é um dado que a gente captura. Quanto mais ele estuda na nossa plataforma, mais aprendemos sobre ele e mais personalizado o plano de estudos vai ficando. O grande benefício para o aluno é ele conseguir saber, hoje, onde (em que faculdade) entraria. Se ele quiser mudar essa história, ajudamos da forma mais rápida, eficiente e divertida para conseguir chegar lá. No caso dos pais, a grande vantagem é poder dar visibilidade para cada pai de onde seu filho está, como seu filho aprende e como você como pai pode ajudar o seu filho.

É como se você não precisasse esperar o fim do bimestre para ver o boletim. É como se pudesse acessar, em tempo real, o desempenho do seu filho para ajudá-lo nesse percurso. Para as escolas, o grande benefício da nossa plataforma, tanto para professores quanto para os gestores, é poder acompanhar o desempenho dos alunos em tempo real para transformar essas informações em ações pedagógicas enquanto eles estão ainda estudando. Imagina se você conseguisse saber antes da próxima aula quem aprendeu e quem não aprendeu, qual o nível de dificuldade dessa classe. Você então poderá fazer uma aula mais profunda para os alunos que tiveram mais dificuldade, recuperar alunos que porventura não aprenderam e dar desafios maiores para os que já dominaram aquele assunto.
4. Para que essa estratégia funcione bem é fundamental a participação engajada dos alunos. Como é engajar esses alunos hoje, com tantos recursos diversionistas à sua disposição?
A realidade é que a maioria das escolas não consegue engajar o aluno, ele não se interessa pelo modelo que a escola tem hoje. Esse modelo, de 200 anos atrás, em que o professor tem uma atitude de detentor do conhecimento e o aluno tem uma postura passiva, todos enfileirados escutando, é completamente desalinhada com o que se espera dele como pessoa e profissional. Ele fica praticamente 13 anos sendo treinado ou doutrinado a não criticar, não questionar, a só escutar. Não interage dentro da sala de aula, não aprende a trabalhar em equipe e a articular seu raciocínio. O aluno não aprende desenvolver habilidades que, no mercado de trabalho, são completamente opostas ao que é esperado. Ele tem que ser criativo, ter um perfil de liderança, saber comunicar suas ideias, ter raciocínio lógico para saber comunicar seus pensamentos, analisar e criticar informações...

Ou seja, é uma educação que acaba não preparando esse aluno para o que é esperado dele depois, independentemente de qual trabalho vai desempenhar. A grande transformação é que essas plataformas libertam o professor do papel de ser simplesmente um transmissor do conhecimento e o ajudam a ser um intermediador para que os alunos possam desenvolver outras habilidades. Em muitos outros lugares fora do Brasil, esse modelo está sendo implantado e eu acho que é um modelo irreversível. A escola como é vista hoje, eu acho que vai ser completamente diferente num futuro não muito distante. Essa transformação já começa a ocorrer e é libertador, tanto para o aluno quanto para o professor e gestor, porque, afinal das contas, o conteúdo está disponível para todo mundo. O professor pode realmente ter um papel mais construtivo para o aluno, que é ajudá-lo a desenvolver outras habilidades, o que hoje na escola não se faz.
5. Como isso funciona com as disciplinas especificamente?
Como trabalhamos com a plataforma no ensino médio, e os vestibulares, incluindo o Enem, têm todas as disciplinas, a Geekie tem todas as disciplinas. São 12 disciplinas, inclusive redação, que é parte fundamental da nota do aluno, e as escolas usam de maneiras diferentes. A gente não controla a forma como a escola usa. Tem escolas que usam esse tipo de plataforma dentro da sala de aula. Elas têm infraestrutura, internet ou tablet para o aluno. Outras oferecem como lição de casa. O aluno faz uma lição de casa inteligente. Uma parte segue o currículo da escola, igual para todos, mas tem uma parte que é personalizada e já vai fazendo reforço escolar das aulas anteriores que porventura o aluno não dominou. Você faz esse reforço constante em tempo real e não precisa esperar o final do bimestre para saber se o aluno aprendeu ou não. E tem as escolas que acabam utilizando isso de forma complementar à atuação do professor na sala de aula e independente de qual forma a escola usa, um ponto fundamental é a assessoria pedagógica que a gente dá para as escolas. Ou seja, um time de especialistas ajuda os professores a interpretar essas informações, a usar esses relatórios, a transformar esses dados em ações pedagógicas para os alunos dentro e fora da sala de aula.
6. Essa estratégia se direciona também às escolas de ensino médio da rede pública?
Ainda não vendemos a plataforma diretamente para o consumidor. Isso deve acontecer no segundo semestre deste ano, mas o nosso modelo é vender para escolas e até acho que seria uma contradição se só vendêssemos para as particulares, porque o aluno que mais precisa é o da rede pública. Para cada escola particular que compra a gente oferece de forma gratuita para outra escola pública, cujos alunos não têm condições de pagar pelo produto. Dessa forma, a gente consegue levar o mesmo produto para os alunos que estão na rede pública. Conseguimos, através de parcerias com iniciativa privada, disponibilizar gratuitamente o nosso produto para o Enem em 2013 e 2014 durante um certo período de tempo. Em 2013, tivemos mais de 2 milhões de alunos inscritos para usar nossa plataforma. No ano passado, 2014, mais de 3 milhões tiveram acesso ao mesmo produto que a gente vende para as escolas particulares por todo o Brasil. Essa foi a nossa contribuição para ajudar a melhorar o nível da educação no nosso país.
7. Vocês já têm ouvido a respeito de resultados?
A gente vem trabalhando junto com uma organização de análise de impactos no setor de educação chamada Plano CDE, e avaliamos o seguinte. Tem duas métricas de resultados que são críticas para nós. Ao longo de um bimestre escolar, percebemos que os alunos que estudam com a nossa plataforma têm um desempenho, na média, 30% melhor do que os que não usam a nossa plataforma ao longo de um bimestre. Isso é muito relevante. A segunda informação importante é que, falando de Enem especificamente, ao longo de 2014, os alunos que estudaram com a nossa plataforma, para cada aula assistida, equivaleu na média 1.6 pontos a mais na nota final do Enem. Ou seja, o aluno que fez com a gente 100 aulas teve, na média, uma melhora em nota de 160 pontos na prova final do Enem. E faz muito sentido, porque ter uma tecnologia que personalize seu plano de estudos, que traga conteúdos que conversam com a forma como você aprende melhor, que personaliza o nível de dificuldade do conteúdo e que monte um plano de estudos seguindo uma sequência de conteúdos feita para você com base nas lacunas que você tem nos pré-requisitos que você precisa aprender, fica claro que o resultado é muito melhor do que o modelo tradicional, padronizado igual para todo mundo que é utilizado hoje nas escolas . O BID lançou um estudo recentemente sobre o impacto de tecnologia na educação e na sala de aula e eles perceberam que a implementação simples de equipamentos na sala de aula, como lousa digital, projetor e computador, gera uma melhora pequena, de 4%, no desenvolvimento acadêmico. Por outro lado, tecnologias de personalização do aprendizado resultaram no impacto de 17% de melhoria de aprendizado comparado com alunos que não tiveram acesso a esse tipo de tecnologia. A grande beleza desse momento que a gente vive é que a personalização do processo de aprendizado, antes um privilégio de poucos que podiam pagar, agora está acessível para qualquer pessoa.

 

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