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VIOLÊNCIA

Aqui a violência não entra

Investindo na formação de professores, na aproximação com a comunidade e na aprendizagem, três escolas construíram uma barreira contra a violência


13/05/2009 15:50
Texto Gustavo Heidrich
Nova-Escola
Foto: Photoxpress
Foto: O caminho mais eficaz para combater a violência dura é a integração com a comunidade
O caminho mais eficaz para combater a violência dura é a integração com a comunidade

Os muros pichados e os vidros quebrados são apenas o cenário de um drama presente em muitas escolas. Enquanto do lado de fora o tráfico de drogas e as gangues envolvidas com roubos e homicídios pressionam para entrar - e não raro encontram brechas -, do lado de dentro alunos e professores são agentes e vítimas de agressão física e verbal e de uma lista enorme de atos violentos.

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Alguns acreditam que a solução seja o isolamento do mundo exterior com grades reforçadas e portões cada vez mais altos, cadeados e câmeras de vídeo. Essas barreiras, embora deem a sensação de segurança, não resolvem o problema. Ao contrário, deixam a instituição ainda mais acuada, com professores amedrontados e gestores intimidados.

A população, apreensiva com os frequentes casos divulgados pela mídia, coloca a preocupação com a integridade dos filhos acima das questões de aprendizagem. Pesquisa realizada com 2.002 pessoas em 141 municípios brasileiros e divulgada em março pelo Movimento Todos pela Educação aponta que metade dos entrevistados tem a sensação de que a falta de segurança nas escolas é o principal problema do sistema educacional do país (a baixa qualidade do ensino ocupa a terceira posição).

As instituições que venceram a violência, veja os exemplos abaixo, em vez de se isolarem e culparem o entorno pelo baixo desempenho dos alunos, investiram na consolidação de uma equipe unida e determinada, na formação de professores, na aproximação com a comunidade e no acompanhamento dos jovens usuários de drogas ou com dificuldades de aprendizagem. Com isso, criaram uma barreira muito mais duradoura e eficiente do que a formada por grades e cadeados.

Para ler, clique nos itens abaixo:
Quando a violência é mais preocupante?
No jargão dos especialistas, a violência resultante de atos criminosos é chamada de "dura". No ambiente escolar, ela costuma estar relacionada a um entorno inseguro. Em situações extremas, armas e drogas invadem as salas de aula - e isso é mais comum do que muitos imaginam. Levantamento feito em 2006 pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) em cinco capitais brasileiras mostra que, entre os alunos, 69,4% já presenciaram roubos e 34,8% viram amigos portando armas. Entre os professores e funcionários, 55,8% presenciaram invasões e 14% testemunharam tráfico de drogas dentro de suas unidades.

A EM Expedicionário Aquino de Araújo, no Rio de Janeiro, viveu essa realidade. Em 2002, ela ganhou as páginas dos jornais quando o professor de Educação Física Alberto Vasconcellos foi assassinado por traficantes na secretaria da escola. Na época, a reprovação atingia 25% dos cerca de 2 mil estudantes e a taxa de evasão beirava os 20%. Fora dela, roubos e tráfico de drogas eram frequentes. Porém, depois de quatro anos de ação firme dos gestores - com projetos didáticos que relacionam aprendizagem e combate à violência, monitoramento dos estudantes usuários de drogas e daqueles com baixo rendimento -, a Aquino de Araújo vem enfrentando a insegurança com sucesso.
Qual o melhor caminho para combater a violência?
O caminho mais eficaz para combater a violência dura é a integração com a comunidade, que passa a respeitar o papel social da escola (ensinar) e a reconhecer que aquele espaço é de todos. "De vítima, ela passa a ser parceira do bairro e das famílias", afirma Ana Maria Leite, pesquisadora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. A aproximação pode começar com o diálogo com os pais. Envolvê-los no acompanhamento da aprendizagem, dos êxitos e das dificuldades dos filhos é tarefa dos gestores e ajuda a romper o empurra-empurra sobre a responsabilidade pelo sucesso (ou o fracasso) escolar.

Outra frente bastante eficaz, segundo os especialistas, são atividades esportivas e culturais, que podem ser feitas em parcerias que articulem o trabalho extracurricular com a aprendizagem de conteúdos e valorizem a história e a cultura locais.
Qual o papel do diretor neste combate?
Mais do que disponibilizar o espaço físico para a comunidade, é preciso ultrapassar os limites dos muros escolares. "O diretor tem de estar presente nas tarefas cotidianas, visitar a casa dos alunos, conversar com os grupos e associações comunitárias, procurar parceiros e estimular professores e funcionários a fazer o mesmo", afirma Kátia Freitas, consultora do Programa de Capacitação a Distância para Gestores Escolares. Contudo, existem limites para essa aproximação. Negociar com traficantes e bandidos, por exemplo, não é função dos gestores. "Nesses casos, o melhor é buscar apoio na Secretaria de Educação e nas instituições públicas de segurança, além do Conselho Escolar", aconselha Roberta Panico, coordenadora pedagógica do Centro de Educação e Documentação para Ação Comunitária e consultora de NOVA ESCOLA GESTÃO ESCOLAR.
E quando a escola é agressora?
O bom convívio com o entorno ameniza os atos violentos, mas não resolve diretamente a agressão que a própria escola pratica. Essa violência é chamada de simbólica pelos especialistas: "Um espaço depredado, o professor que abandona o aluno ao faltar e um sistema disciplinar e de avaliação repressivos são parte desse problema", aponta Bernard Charlot, professor da Universidade de Paris 8. Já a violência na convivência escolar é chamada de microviolência. "Ela se manifesta nas relações entre os alunos e entre eles e os professores, em ações como ofensas, discriminação e bullying", analisa Miriam Abramovay, do Observatório Ibero-Americano de Violências nas Escolas.

A EMEF Comandante Garcia D’Ávila, na capital paulista, viveu uma situação semelhante e percebeu que parte da solução estava em olhar para si mesma. A chave para a mudança foi a união da equipe liderada pelo então diretor Waldir Romero (leia mais no quadro ao lado). A origem da violência simbólica e da microviolência geralmente está no fracasso da função principal da escola: a de ensinar. A frustração do aluno que não avança e a do professor que não atinge seus objetivos geram tensão no ato pedagógico", afirma Charlot. O caminho é investir na gestão da aprendizagem, na formação de professores e funcionários e na gestão participativa.

"Isso não significa acabar com os conflitos, que são uma discordância sadia de ideias e podem se manifestar sem violência", destaca Reinaldo Nobre, professor da Universidade da Amazônia. No outro extremo do país, em Florianópolis, a EE Hilda Teodoro Vieira usou justamente o debate para superar a violência. Ela era palco de preconceitos e discussões que se transformavam em agressões físicas entre alunos e professores. O aluno Zeca, personagem da novela Caminho das Índias, da TV Globo, também é uma faceta do preconceito social e da falta de limites. Sempre acobertado pelo pai, o garoto não vê barreiras para ofender e agredir professores e colegas.

Na vida real, a Hilda Teodoro superou essa questão, ao investir na gestão colaborativa e na formação de mediadores de conflito. A escola quase dobrou seu Índice de Desenvolvimento da Educação Básica em apenas dois anos.

Manter um clima favorável à Educação apesar do entorno violento é uma ação de longo prazo. Cabe à equipe gestora reconhecer a existência da violência e buscar a melhor maneira de combatê-la. Uma direção que compartilha decisões, uma coordenação pedagógica atuante na formação dos professores e uma orientação educacional que atua para resolver os problemas de alunos, familiares e professores são o primeiro passo para fechar as portas da escola para a violência, mas deixá-las sempre abertas para a aprendizagem e para a paz.
Exemplo n° 1: Escola e comunidade
Localizada entre duas comunidades de baixa renda de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, a EM Expedicionário Aquino de Araújo convive com a violência dura originária do tráfico de drogas. Há alguns anos, o comércio era livre nos portões da unidade e muitos alunos se tornaram usuários. A situação atingiu seu pior momento em 2002, quando o professor de Educação Física Alberto Vasconcellos foi morto a facadas depois de pedir aos traficantes que se afastassem. A primeira ação da equipe gestora, comandada por Naise Martins, foi fazer uma parceria com a Secretaria de Assistência Social para mapear os jovens usuários de drogas e álcool e encaminhá-los para a recuperação. Ao mesmo tempo, dentro das salas de aula, a orientação era desenvolver projetos didáticos que valorizassem a origem e a identidade dos estudantes. Um deles foi o Repensando a Negritude (foto), em que lutas e conquistas dos afro-descendentes uniram a aprendizagem sobre a importância dos povos africanos na história do Brasil (já que 80% dos estudantes são negros) à quebra de preconceitos. Um questionário e conversas com as famílias foram os instrumentos usados para conhecer a realidade do entorno e direcionar a formação dos professores para lidar com suas origens e culturas. Atividades como festivais de música e poesia, feiras de ciência, olimpíada de Matemática e uma gincana cultural sobre a cidade de Duque de Caxias atraíram os pais e a comunidade para a Aquino de Araújo. A mudança de clima inibiu os traficantes que ficavam nos portões e reduziu a taxa de evasão. "Conversamos com os estudantes sobre tudo, até sobre a roupa com que eles vêm para a aula e a maneira como se expressam, sem discriminar ninguém, mas procurando mostrar respeito e fazendo com que também eles respeitem os outros", diz Naise.

Raio x da escola EM Expedicionário Aquino de Araújo
2 mil alunos

Ideb 2007 da Escola nos anos finais: 2,9
Ideb 2007 do Município nos anos finais: 2,7
Ideb 2007 - Estado nos anos finais: 3,5
Bom exemplo n° 2: a força da equipe
Os 13 anos de convivência ininterrupta da equipe gestora da EMEF Garcia D’Ávila, no bairro do Parque Peruche, na capital paulista, transformaram a escola, conhecida por "maloquinha", numa referência de bom ensino. O diretor Pedro Paulo Poudzius (de barba), Luiza Harumi e Luciana Sacchi, coordenadoras pedagógicas, e Waldir Romero, ex-diretor, começaram a trabalhar juntos em 1996. Waldir saiu no ano passado e Pedro Paulo assumiu seu lugar. "A Educação é um processo de longa duração e o sucesso está ligado à permanência e ao compartilhamento de um projeto de escola, senão vira um recomeçar constante", afirma Luciana. Conscientes de que a escola não estava ensinando os alunos e a infraestrura não era nada acolhedora, a equipe promoveu reformas físicas e mudanças na gestão da aprendizagem. Uma sala foi transformada em apoio pedagógico para a alfabetização e passaram a existir turmas de reforço em Língua Portuguesa e Matemática. Professores e gestores se uniram em grupos para acompanhar individualmente os alunos com dificuldades, num projeto batizado de "adoção", em que todos checam os cadernos, as avaliações e outros elementos que possam atrapalhar o desenvolvimento cognitivo. Parcerias com empresas e organizações não-governamentais viabilizaram programas de formação continuada e o acompanhamento psicológico dos alunos. Para vencer o entorno inseguro, a equipe apostou no esporte, na cultura e na valorização da história do bairro. As ações reduziram a depredação, eliminaram as invasões e transformaram a Garcia D’Ávila num espaço valorizado. O reencontro de Romero com os ex-colegas para tirar a foto acima foi marcado pelo saudosismo e pelo orgulho do dever cumprido. "Quando um ex-aluno me disse que fazia questão que a filha dele estudasse no Garcia, percebi que tínhamos chegado lá", diz o ex-diretor.

Raio X da EMEF Garcia D’Ávila
980 alunos

Ideb 2007 da escola nos anos iniciais: 4,2
Ideb 2007 do município nos anos iniciais: 4,5
Ideb 2007 do estado nos anos iniciais: 4,8
Ideb 2007 da escola nos anos finais: 4,8
Ideb 2007 do município nos anos finais: 3,8
Ideb 2007 do Estado nos anos finais: 4,1
Bom exemplo n° 2: mediadores da paz
O recreio na EE Hilda Teodoro Vieira, em Florianópolis, costumava ter mais do que brincadeiras de corda e amarelinha: não faltavam brigas e agressões verbais. Localizada entre um bairro de classe média e outro pobre, a escola sofria com a discriminação entre os alunos. Uma parceria com a ONG Universidade da Paz (Unipaz) ajudou a equipe gestora a transformar estudantes briguentos em agentes da paz - e a envolver professores e funcionários nessa batalha antiviolência. Todos são preparados para mediar conflitos usando o diálogo e jogos cooperativos. No dia-a-dia, a gestão participativa é a tônica. "Os conselhos administrativo, de classe e de segurança têm representantes de pais, alunos e funcionários. Assim, desde as questões pedagógicas até o modelo da ronda escolar são decididos coletivamente", afirma a diretora, Viviane Poeta. Fora da escola, a equipe fechou uma parceria com a associação comercial do bairro para oferecer aulas de robótica e outra com a Universidade Federal de Santa Catarina para a formação continuada dos professores. Completam a lista de ações colaborativas as atividades esportivas e um dia para os pais, em que eles acompanham a aprendizagem dos filhos. Graças à capacitação em serviço, o corpo docente começou a incluir o debate sobre a realidade social dos estudantes e a criar projetos didáticos que valorizem tanto os conteúdos como a convivência pacífica. O resultado veio na melhora no Índice de Desenvolvimento Básico (Ideb). De 2005 para 2007, ele saltou de 3,3 para 5,8 nos anos iniciais do Ensino Fundamental - o que tornou a Hilda Teodoro Vieira a melhor do estado e a sexta em todo o país. "O trabalho da gestão se concretiza quando chega à sala de aula, fazendo com que o professor aperfeiçoe suas formas de ensinar", diz Solange Foresti, professora de História e voluntária de oficinas de Arte.

Raio X da EE Hilda Teodoro Vieira
600 alunos

Ideb 2007 da escola nos anos iniciais: 5,8
Ideb 2007 do município nos anos iniciais: 4,6
Ideb 2007 do estado nos anos iniciais: 4,7
Ideb 2007 da escola nos anos finais: 2,7
Ideb 2007 do município nos anos finais: 3,9
Ideb 2007 do Estado nos anos finais: 4,1

 

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