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EDUCAÇÃO DE ADULTOS

6 ideias para manter jovens e adultos na classe

Mesmo quem demorou a chegar à escola pode desistir facilmente dela. Mas existem maneiras de manter adolescentes e alunos interessados no aprendizado


01/08/2005 18:06
Texto Meire Cavalcante
Nova-Escola
Foto: GILVAN BARRETO
Aluno do curso de alfabetização do Sesi
Aluno do curso de alfabetização do Sesi

Pais analfabetos ou machistas, necessidade de trabalhar, inexistência de escolas, paternidade e maternidade precoces e falta de dinheiro, transporte, comida e oportunidade. Devido a todos esses infortúnios, muitos brasileiros só têm a oportunidade de começar a frequentar a escola depois dos 15 anos de idade ou na fase adulta. É por isso que o Ministério da Educação, em parceria com governos locais, lança programas de incentivo à alfabetização e educação de jovens e adultos, como o Fazendo Escola e a EJA (Educação de Jovens e Adultos), iniciativas da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad). Criado em julho de 2004, o órgão coordena ações de alfabetização e oferece apoio financeiro e pedagógico para que estados e municípios garantam a continuidade dos estudos de quem já aprendeu a ler e escrever.

O problema, porém, é que não basta atrair alunos para a sala de aula. Quem tem uma turma de EJA sabe das dificuldades de manter o interesse dos alunos - que chegam cansados do trabalho -, de planejar aulas que tenham relação com a vida deles e que não sejam uma versão empobrecida do que é dado a crianças e adolescentes. Mas já há inúmeras escolas trabalhando com sucesso. Selecionamos experiências que trazem os fundamentos para que você possa dar aos estudantes oportunidade de se tornarem cidadãos autônomos e transformar a escola na porta de entrada de um mundo a ser descoberto.

Para ler, clique nos itens abaixo:
1. Alfabetizar para manter os alunos estudando
Um dos grandes parceiros do governo na luta contra o analfabetismo é o Serviço Social da Indústria (Sesi). O Projeto Sesi por um Brasil Alfabetizado começou em 2003 e já alfabetizou 1 milhão de pessoas de 15 a 60 anos. Enquanto o governo federal capacita e paga os alfabetizadores, o Sesi fornece material didático e capacita e paga os supervisores, que orientam o trabalho em sala de aula, tiram dúvidas e proporcionam a troca de experiências entre os alfabetizadores.

Seguindo a linha do educador Paulo Freire (1921-1997), o projeto alfabetiza com base em temas geradores, fazendo a ligação dos conteúdos escolares com a vida dos estudantes. Em sua turma de alfabetização na Escola Municipal José Clementino Coelho, na zona rural de Limoeiro, o professor Aluízio Barbosa da Silva, por exemplo, começou uma das aulas com uma canção sobre o meio ambiente. Enquanto cantavam, os alunos treinavam a leitura e aprendiam que as queimadas empobrecem o solo, tirando o sustento deles e das próximas gerações. "Eu vi por que é importante reciclar o lixo e que muitas famílias vivem de vender os materiais recicláveis", conta a agricultora Marlene Rosa de Lima Silva, 46 anos.

Estados e municípios já se movimentam para proporcionar a continuidade da escolarização aos formandos das turmas de alfabetização. A orientação da Secad é de que os alunos sejam estimulados pelos professores a prosseguir os estudos. "Em Limoeiro, estamos mobilizando as secretarias estadual e municipal de educação para ampliar a oferta de EJA. Muitos desistem porque a escola fica distante demais", afirma Luíza Antônia Ferreira, supervisora do projeto do Sesi no município.
2. Mostrar que a escola se modernizou
Um grande desafio para professores de jovens e adultos é acabar com a estranheza que a escola causa a muitos logo nos primeiros dias de aula. O modelo que a maioria guarda na memória é de salas com carteiras enfileiradas, quadro-negro, giz, livro, caderno e um professor - que fala o tempo todo e passa tarefas.

Para Vera Masagão Ribeiro, coordenadora de programas da Ação Educativa, organização não-governamental em São Paulo, é importante mostrar que recursos variados também fazem parte da aprendizagem. Relacionar esses recursos com o conteúdo da aula é um bom começo. "Se a idéia é passar um vídeo para a turma, o professor pode antes dar um texto sobre o tema e provocar uma breve discussão. Terminado o filme, ele pergunta aos alunos qual foi o trecho mais emocionante ou marcante", sugere Vera. Ela alerta, no entanto, que é preciso combinar essas atividades com o momento do registro escrito que, para a turma, é uma característica específica da escola. "Ao escrever, eles têm o sentimento de aprendizagem, de apropriação do conhecimento", ressalta.

Na Escola Estadual Jorge Fernandes, em Natal, os professores de EJA são orientados a preparar o terreno antes de cada atividade diferenciada. "Se o aluno for pego de surpresa, acaba achando que aquilo não faz parte da aula", afirma a vice-diretora da escola, Maria Gorete de França Gomes. "Por isso, os professores mostram, aos poucos, que existe um mundo além do quadro e do giz: há filmes, músicas, entrevistas, documentários, livros e tantas outras coisas interessantes às quais a maioria não tem acesso", explica.

"No meu tempo, o professor parecia que ficava um degrauzinho acima da gente e ninguém abria a boca. Dava para ouvir a respiração dos colegas", conta a auxiliar de enfermagem Maria de Lima Pimenta Silva, 60 anos, que acabou de completar o Ensino Médio. Os anos de rigidez escolar fizeram com que Maria tivesse medo e vergonha de fazer perguntas e de errar. "Quando voltei à escola, achava que tinha só que escutar. Perguntar e discutir era perda de tempo. Agora aprendi que, se não pergunto, não aprendo", conclui Maria.
3. Ensinar as disciplinas como elas aparecem na vida
A interdisciplinaridade é uma das palavras de lei da educação brasileira atual. Como no mundo nada é separado por assunto, a idéia é de que o conhecimento também seja transmitido de maneira contextualizada e inter-relacionada. Por exemplo, em uma viagem a Porto Feliz realizada pelo Gepeja com as turmas do EJA de Campinas, os alunos estudaram conceitos de física, como velocidade, relacionando o tempo da viagem e os quilômetros percorridos, calcularam quantos litros de água uma cidade como Campinas consome a cada mês e aprenderam sobre a história das monções - expedições de navegação em rios ocorridas nos séculos 18 e 19 - que partiam de Porto Feliz.

Ao verem peças de tortura da época da escravidão expostas em um museu, debateram sobre as condições de vida dos negros no Brasil. Eles discutiram também o grau de poluição do rio Tietê e que impactos isso traz para a vida deles e das futuras gerações. "Nossa preocupação é despertar o senso crítico para que os alunos possam, por exemplo, perceber o que é possível fazer na comunidade para melhorar a qualidade de vida", afirma Angélica Sacconi Leme, professora da sala de alfabetização do Gepeja.
4. Usar a experiência da turma como base das aulas
Projetos que fazem sentido para os alunos mostram que o mundo não pode ser dividido por disciplinas, como acontece na escola. Dessa forma, eles começam a relacionar os conteúdos estudados com fatos do cotidiano e do trabalho. Ao aprenderem o que eram bactérias, as empregadas domésticas que cursam as aulas do nível 2 de EJA (3ª e 4ª séries) da Escola Estadual Jorge Fernandes, em Natal, descobriram por que para cozinhar é tão importante manter as unhas cortadas e as mãos sempre limpas.

A professora Maria das Graças Cardoso Amorim percebeu que a profissão de grande parte da turma daria um bom mote para as aulas. Todas as segundas-feiras um grupo de estudantes vai para a cozinha preparar uma iguaria. Enquanto isso, o restante da turma copia a receita do quadro-negro e faz os exercícios de gramática e ortografia. Ao fim da aula, todos se reúnem para provar o prato e conversar. É um momento de socialização, que fortalece os vínculos do grupo.

No decorrer da semana, a professora trabalha leitura, conteúdos de Matemática e Ciências, noções de higiene e também fala da cultura e da história das receitas regionais. Maria das Graças leva em conta a assiduidade, a participação e o envolvimento com as aulas. Esse acompanhamento contínuo permite que ela lance mão de estratégias variadas para ajudar cada um a superar suas dificuldades. "Algumas patroas ligaram para a escola elogiando o trabalho desenvolvido e a evolução no vocabulário das funcionárias", diz. Ela se preocupa em mostrar à turma que o trabalho de cada um é de extrema importância para a sociedade.

"Minha patroa é professora aposentada. O saber dela é um, o meu é outro. E nós duas somos importantes", constata Maria Analete da Silva Aguiar, 45 anos, que pretende continuar os estudos e, no futuro, trabalhar com alimentos congelados e doces e salgados para festas.
5. Ampliar os horizontes culturais dos estudantes
A escola pode apresentar o mundo cultural aos alunos. Para explorar uma metrópole como São Paulo, que oferece tantas opções, Ricardo Barros, professor-coordenador de EJA da Escola Estadual Rodrigues Alves, criou o projeto Você Tem Fome de Quê?, em que os conteúdos aprendidos em sala se relacionam com as manifestações culturais da cidade. Os professores organizam visitas a exposições de arte, teatros, cinemas e museus e recebem artistas na escola, que expõem seus trabalhos e suas idéias.

"A primeira vez que fui a uma exposição, achei tudo elegante demais. Fiquei tímido. Hoje já me sinto mais à vontade", conta o manobrista Marcos Antônio dos Santos Soares, 26 anos. "Quando vi que a gente ia sair por aí visitando exposições, pensei que era bobagem. Achava que eu tinha que aprender a ler e escrever e só. Agora fico ansiosa esperando o próximo passeio", diz a acompanhante Arlete Alves Feitosa, 22 anos.

São comuns casos de estudantes que nunca foram ao cinema ou ao teatro. "O projeto torna esses adultos mais sensíveis à ação transformadora da arte", afirma Ricardo. "A nossa mente se abre, a gente começa a ficar mais crítico. Eu nunca pensei em fazer uma faculdade. Agora meu objetivo é ser psicóloga e trabalhar com Educação Especial", revela a empregada doméstica Maria de Lourdes Alves Nascimento, 35 anos.
6. Integrar os jovens e adultos aos demais alunos
Tornar as turmas de EJA parte da comunidade escolar é fundamental para o sucesso da aprendizagem e para evitar a evasão. O aluno não pode sentir que aquele espaço é apenas emprestado. "Não são raros os casos de escolas que trancam a biblioteca, a sala de informática e até alguns banheiros à noite, no período em que os adultos estão lá", afirma Vera Masagão. Além disso, muitas vezes eles são excluídos das festas e feiras culturais, do jornal interno e dos eventos da escola. Para promover a integração de todas as modalidades de ensino, a secretaria de educação de Pombal, na Paraíba, organiza anualmente um desfile de carroças na época de São João. Todos, desde a creche até a Educação de Jovens e Adultos, enfeitam suas carroças - e os burros que as puxam - para mostrar ao público o quanto conhecem e valorizam a própria cultura. Antes do grande dia, os alunos estudam os símbolos de são João, como a fogueira e as bandeirinhas, e aprendem sobre a origem da festa e a culinária local. O tema escolhido pelas turmas de EJA para enfeitar a carroça foi a mulher rendeira. O capricho na confecção dos adereços, laços e babados e da boneca rendeira mostra o carinho e o interesse dos alunos pela escola. "Participo de tudo que os mais jovens fazem. É uma alegria", afirma Raimundo dos Santos Lima, 52 anos, o orgulhoso dono do burro que puxou a carroça da EJA no desfile.

A EJA foi implantada na cidade de Pombal em 2001, incentivada pela atuação do Alfabetização Solidária, organização não-governamental que desde de 1998 já atuava ali. "Muitos ficavam frustrados por não ter escola para seguir os estudos. Entrei em contato com a secretaria para atender a essa demanda", lembra Vera Lúcia Vieira Medeiros, coordenadora do Alfabetização Solidária e de EJA de 1ª a 4ª série do município.
A metodologia voltada à formação de cidadãos mostra aos alunos que o estudo faz diferença no seu cotidiano. "Morria de vergonha de não saber assinar meu nome. Estar em uma escola tão boa, que ensina a ler, escrever e saber dos meus direitos, é como ganhar na loteria", conta o agricultor Raimundo Laurentino de Matos Filho, 38 anos.

 

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