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ENSINO FUNDAMENTAL

7 ideias simples para melhorar a escola

Escola da periferia de Teresina garante o direito de aprender


19/06/2009 18:31
Texto Elisa Meirelles, de Teresina (PI)
Educar
Foto: Edi Vasconcelos
Foto: escola
"Nosso padrão é bem alto e o professor, para trabalhar aqui, tem que mostrar que é bom", diz Osana Santos Moraes, diretora da Casa Meio Norte
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Uma escola simples, escondida entre ruas empoeiradas e casas de taipa na periferia de Teresina, tem mostrado ao Brasil que é possível garantir o direito de aprender a todas as crianças e adolescentes, mesmo em condições de extrema pobreza. Localizada na Cidade Leste, um dos bairros mais violentos da capital piauiense, a Escola Municipal Casa Meio Norte atende 600 alunos de 1º a 9º ano do Ensino Fundamental e está hoje entre as melhores escolas do país. A receita para o sucesso é simples: acreditar que todos os alunos podem aprender e trabalhar incansavelmente para que isso aconteça.

As mudanças na escola começaram dez anos atrás, com a chegada da diretora Osana Santos Moraes, uma moça simples, de poucas palavras e muita determinação. Ao entrar na Casa Meio Norte, a diretora se deparou com uma comunidade desacreditada, alunos desmotivados, violência, classes mal cuidadas e professores despreparados. Em poucos meses, Osana foi ganhando a confiança dos alunos e da comunidade, trouxe os pais para perto da escola, organizou o quadro de professores e colocou o aprendizado como foco de todos os envolvidos na escola. Logo depois, chegou à Casa Meio Norte a diretora pedagógica Ruthnéia Vieira, uma mulher forte, falante e com muita garra, que trazia o complemento necessário à política didático-pedagógica da escola e a energia para resgatar a autoestima da comunidade. Trabalhando juntas até hoje, as duas transformaram a Casa Meio Norte em exemplo para todo o Brasil.

Hoje, a única rua asfaltada do bairro é a da escola, motivo de orgulho entre os moradores do bairro. Aos poucos, pais e mães analfabetos, acostumados a uma vida difícil e sem grandes perspectivas, passaram a ver na Educação o caminho para que seus filhos escrevam uma história diferente, que começa em meio à poeira da periferia de Teresina e pode terminar onde a imaginação de cada um chegar.

A receita para o sucesso contém 7 ideias simples, que esquadrinhamos nesta reportagem.

Leia crônica de Ignácio de Loyola Brandão sobre a escola

Para ler, clique nos itens abaixo:
1. Reforçar a autoestima dos alunos
Os alunos da Casa Meio Norte vêm de famílias extremamente simples. Os pais, na maioria, são analfabetos, alguns são catadores de lixo, outros trabalham em subempregos. Também há bandidos, traficantes. Vivendo à margem, a maioria das crianças cresce cercada por discriminação e preconceito. Cenas de humilhação são comuns para boa parte dos alunos e os problemas de autoestima fazem parte de realidade cotidiana.

Esse cenário, no entanto, fica bem longe do dia a dia da escola. Quando um visitante chega para conhecer a Casa Meio Norte, a diretora-pedagógica vai logo contando que ali estão os melhores alunos do País, crianças brilhantes, capazes de mudar o mundo.

Em seguida, leva o visitante para conhecer cada uma das salas de aula e o apresenta aos alunos. "Essa é a Elisa, ela é jornalista e veio lá de São Paulo para só para conhecer vocês". Os alunos da 2ª série se entreolham curiosos. "Você veio de São Paulo só para ver a gente?", pergunta um deles à repórter. "Para ver a gente mesmo, de verdade?", indaga outro com os olhos brilhando e logo começa um burburinho na sala de aula. "Sim, ela veio de muito longe para conhecer os alunos mais lindos e mais inteligentes do Brasil", responde, orgulhosa, a diretora pedagógica Ruthnéia.

Reforçar a autoestima dos alunos é uma das chaves do sucesso da Casa Meio Norte. Todos os professores, as diretoras e cada um dos funcionários fazem questão de mostrar às crianças e aos adolescentes que ali estudam que eles podem - e vão - ter um futuro melhor. Em cada sala, é comum ouvir alunos e professores falando sobre todas as portas que uma educação de qualidade abre. "Nossos alunos têm o mundo todo dizendo que eles não podem, que não vão conseguir. A gente faz o contrário, a gente mostra que eles podem tudo", explica Ruthnéia. Dar esperança aos alunos é o primeiro passo para que eles alcancem seus sonhos.
2. Engajar os professores no aprendizado dos alunos
Aprender é a palavra que rege a Casa Meio Norte. Ano a ano, a escola se supera e alcança resultados cada vez melhores em avaliações nacionais e regionais. Em 2005, quando foi lançado o Ideb, a Casa Meio Norte alcançou a marca de 5,6 para as séries iniciais do Ensino Fundamental. Dois anos depois, chegou a 5,9, muito próxima da meta 6,0, estipulada pelo Ministério da Educação para 2022.

Os ótimos resultados são fruto de um trabalho intenso dos professores para não deixar nenhum aluno para trás. "Para trabalhar aqui tem que ter sangue nos olhos, tem que se empenhar mesmo, entrar de cabeça", conta a diretora-pedagógica Ruthnéia. Diferente de muitos colégios espalhadas pelo Brasil, a Casa Meio Norte conta com professores bastante jovens. Metade deles é estudante que faz estágio na escola. Ruthnéia acredita que professores mais novos, em geral, têm mais energia, falam a língua dos alunos e se empenham em aprender. "Os professores mais antigos da rede não se adaptam aqui", comenta ela.

Para ingressar no quadro de docentes da Casa Meio Norte e permanecer lá, os jovens professores precisam ganhar a confiança de Osana e Ruthnéia. As diretoras contam que, nos primeiros meses, acompanham de perto as aulas do novo professor, fazem testes, conversam, buscam perceber se ele está realmente disposto a se dedicar de corpo e alma aos alunos e cobram resultados. "Nosso padrão é bem alto e o professor, para trabalhar aqui, tem que mostrar que é bom", defende Osana. As duas diretoras estão sempre próximas dos professores e participam ativamente do planejamento das aulas e do acompanhamento dos alunos.
3. Incentivar a leitura, o que garante que cada aluno leia 40 livros no ano
Um fato que chama a atenção de todos que chegam à Casa Meio Norte é a importância dada à leitura. A maioria dos alunos já leu mais livros que muitos adultos. Mesmo sem uma biblioteca estruturada, a escola conseguiu organizar, em cada sala de aula, o "cantinho da leitura" e despertou nas crianças e adolescentes o amor pelos livros. De Carlos Drummond de Andrade a Guimarães Rosas, ao longo do ano, cada aluno deve ler, ao menos, 40 livros, trocando com os colegas e conversando sobre as histórias.

"A gente sempre trabalha muito texto, não adianta apenas saber o estilo do texto, tem que saber explicar, tem que entender. Aqui os alunos sabem dar sentido a um conto, sabem apreciar uma boa poesia. Escrevem em prosa, em verso", conta a professora de língua portuguesa Alane Luz. "Temos muitos poetas aqui dentro", completa.

O incentivo à leitura faz parte não apenas da vida escolar dos alunos, mas de suas famílias também. Mesmo os pais analfabetos, ao verem seus filhos sempre com um livro nas mãos, começam a entender a importância da leitura e acabam se tornando os grandes incentivadores de seus filhos. É comum que os alunos leiam para os pais, tentem ensinar as letras, o que ajuda a aproximar a família da escola e mostrar o valor do estudo. "Algumas mães que trabalham como catadoras de lixo, toda vez que encontram um livro levam para casa, limpam, passam álcool, colocam para secar e trazem aqui para a escola", conta Ruthnéia. Em uma comunidade praticamente analfabeta, a leitura está, aos poucos, ganhando sentido.
4. Controlar a freqüência para combater a evasão
Faltar às aulas na Casa Meio Norte, só em último caso. A escola trabalha com um controle rigoroso de freqüência e acompanha cada aluno individualmente. Nas salas de aula, exposta na parede, está uma lista de chamada, mostrando quem veio e quem faltou. Ao passar pelas classes e olhar essas listas, fica claro que faltas são raras, a grande maioria está presente em todas as aulas.

O trabalho de incentivo para que os alunos freqüentem as aulas é realizado não apenas dentro dos portões da escola, mas também fora deles. O diálogo com a família tem um papel importante para garantir que ninguém falte e, atualmente, os índices de abandono e evasão na Casa Meio Norte estão bem próximos de zero.
5. Estimular a participação da comunidade complementa o trabalho da escola
A participação da comunidade é fundamental para o sucesso dos alunos da Casa Meio Norte. O envolvimento dos pais começa logo no dia da matrícula. As duas diretoras conversam com cada família antes de efetuar a matrícula dos filhos, explicam que a escola faz uma parte, mas que os pais também têm que contribuir, falam sobre a importância de não deixar o filho faltar, mostram que é preciso incentivar as crianças a estudar, valorizar o esforço delas, elogiar, conversar.

"Os pais acham a conversa um pouco estranha, mas, aos poucos, começam a ver os resultados, encontram outros pais, conversam e passam a participar mais da vida escolar dos filhos", conta Ruthnéia. Ao longo do ano, o diálogo entre pais e escola vai se tornando hábito, vai entrando para a rotina, o que contribui bastante para o bom desempenho dos alunos.
6. Viabilizar melhorias na escola por meio de parceria público-privado
Além da participação da comunidade, a Escola Municipal Casa Meio Norte conta com o apoio do Grupo Meio Norte, um grupo de comunicação local que patrocina a escola e ajuda a garantir o investimento necessário para manter a qualidade do ensino e a infra-estrutura.

"O Grupo ajuda a gente no que precisamos. Com a ajuda deles, pudemos fazer uma festa de final de ano linda para os alunos e as famílias. Uma festa digna, com tudo do bom e do melhor, como as nossas crianças merecem", conta Ruthnéia. Na opinião dela, o apoio à escola é um bom exemplo de como a iniciativa privada pode participar da educação, trabalhando de forma articulada com diretores e professores.
7. Zelar pelas instalações: pátio pintado, salas bem cuidadas, banheiros limpos e nenhuma pichação
Nenhum papel no chão, nenhuma marca na parede, portas pintadas, janelas abertas e banheiros impecáveis. Quem entra na Escola Municipal Casa Meio Norte logo percebe o cuidado que todos têm com o ambiente escolar. No calor de Teresina, a escola térrea é bastante ventilada. São 12 salas de aula, seis de cada lado, voltadas para um pátio interno. Os muros são altos, mas não passam a impressão de isolamento.

A escola é simples, não conta com biblioteca ou laboratório. A internet não chegou ao bairro, mas cada espaço é pensado para estimular os alunos e fazer com que se sintam bem. As salas de aula são decoradas com letras, números e desenhos, as paredes exteriores são coloridas e estão sempre muito limpas.

Os banheiros impressionam. A diretora mostra, orgulhosa, o resultado do trabalho das faxineiras e do bom comportamento dos alunos: uma limpeza de causar inveja a muita escola particular. Nenhuma porta pichada, nenhum vaso sanitário sujo ou quebrado, tudo impecável. "Nossos alunos merecem o melhor", explica a diretora Osana.


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