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Professor nota 10

Para avançar na Educação, é preciso selecionar os melhores professores. Um bom exemplo é o da Coréia do Sul, onde 100% dos docentes têm mestrado


Nova-Escola

15/10/2009 09:01

Texto
Beatriz Santomauro

Foto: Divulgação
Foto: Seul: símbolo da riqueza sustentável da Coréia do Sul

Seul: símbolo da riqueza sustentável da Coréia do Sul

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Selecionar os melhores professores. Este é o quarto mandamento do estudo da consultoria McKinsey para uma nação chegar ao topo da Educação. O estudo, chamado de Os Sistemas Escolares de Melhor Desempenho do Mundo Chegaram ao Topo, diz que: "A qualidade de um sistema educacional não será maior que a qualidade de seus professores."

Outros estudos comprovam que o professor é o principal responsável pelo sucesso da aprendizagem. Seu conhecimento e sua atuação em sala de aula são o fator mais decisivo para o desempenho da turma, ultrapassando em importância o material didático e as metodologias de ensino. Não por acaso, escolher bons profissionais é uma das políticas mais disseminadas entre os países de alto desempenho. Na Coréia do Sul, considerado o modelo a seguir, os futuros professores do Ensino Fundamental são recrutados entre os 5% dos alunos com melhor desempenho no Ensino Médio - as notas de corte da carreira são altíssimas. Situação bem diferente da brasileira: por aqui, boa parte do professorado vem dos 20% piores alunos. Nesse grupo, um em cada três estudantes sonha com a docência. Entre os 20% melhores alunos, a carreira atrai um contingente bem menor: só 11% das turmas.

A receita sul-coreana para seduzir os melhores é uma combinação de salário inicial atraente, possibilidade de aprimoramento profissional e chance de trabalhar numa carreira valorizada socialmente - coisas distantes da nossa realidade.

Graças a uma formação de ótima qualidade, a salários iniciais atraentes - o equivalente a 4 mil reais mensais - e à valorização da função de professor, a Coréia do Sul consegue direcionar para o Magistério seus melhores alunos. Os futuros educadores só garantem vaga na faculdade após terem sua performance no equivalente ao Ensino Médio avaliada e tirarem pontos altíssimos em uma prova. Contam também para a seleção o conhecimento em línguas e Matemática e as habilidades de comunicação, básicas para quem ensina. Dessa peneira, saem só os 5% de melhor desempenho.

Concluir o curso também não é fácil. São quatro anos em período integral, com estágios em escolas que funcionam dentro da universidade, onde os estudantes são acompanhados por tutores. Terminada a graduação, é hora de fazer o mestrado, obrigatório para lecionar (leia o quadro à direita). São estímulos a infra-estrutura oferecida pela rede pública e a garantia de trabalho - o número de graduandos atende apenas à demanda.

Situação bem diferente é encontrada no Brasil, onde 30% dos estudantes de Pedagogia saem do grupo com as piores notas no Ensino Médio. Os resultados do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) de 2005 mostram que apenas 2% desses cursos tiveram nota máxima. A má formação dos jovens é reflexo também de sua condição socioeconômica. Pesquisa realizada com base nesse exame pela consultora em Educação pública Paula Louzano mostra que 50% das mães dos futuros professores concluíram apenas o 1º ciclo do Ensino Fundamental - contra apenas 19% dos estudantes de Engenharia, por exemplo (leia mais no quadro da página ao lado). Outro dado emblemático é que cerca de 48% das famílias dos professores têm renda mensal de no máximo três salários mínimos. Configura-se, assim, um círculo vicioso: jovens mal formados ingressam numa carreira desprestigiada - apesar de estratégica - e vão lecionar para crianças e adolescentes que sairão da Educação Básica igualmente mal formados.

Leia também:

-O caminho para a Educação de qualidade
-Cuidar da formação docente
-Capacitar equipes de gestores
-Ensinar todos os alunos


 
 
Para ler, clique nos itens abaixo:
Por onde começar
Diversos fatores tornam atraente uma carreira, entre eles estabilidade, benefícios, aposentadoria, mercado e, evidentemente, salário. Para que uma rede possa oferecer uma remuneração atrativa, Gabriela Moriconi, da Fundação Getúlio Vargas, sugere pesquisar o quanto se paga a profissionais de nível superior dos setores privado e público, comparar com o salário docente e propor um valor equivalente ou maior. O dinheiro viria da diminuição gradativa da diferença entre o que é pago aos professores e aos outros servidores públicos. A medida, apesar de difícil execução, faz sentido quando um governo decide que a Educação é prioritária.

No que se refere à qualidade do ensino superior, Juca Gil, da USP, orienta as prefeituras a se articular para criar cursos de formação ou negociar com as faculdades o desenvolvimento - nos cursos já existentes - de habilidades essenciais a seus professores. O poder de selecionar quem ingressa na faculdade não está nas mãos da Secretaria de Educação, mas ela promove os concursos e deve fazer uma seleção rigorosa dos docentes que contrata. Só uma prova escrita não basta para a escolha correta, na opinião de Maria de Salete Silva, do Unicef.
Grau de dificuldade
Alto. Atrair bons professores inclui mudar o sistema de seleção para o ingresso na universidade. Formar os melhores profissionais significa aprimorar os cursos superiores. Ambos os movimentos não dependem de ação direta da Secretaria de Educação, mas podem ser influenciados por seu poder de articulação. Ao alcance dos secretários está tornar mais rígidos os concursos para a seleção de docentes e o planejamento do aumento dos salários a longo prazo.
Custos
Altos. Cerca de 70% da verba destinada à Educação vai para a folha de pagamento, o que inclui os funcionários na ativa e os aposentados. Uma mudança de política deveria iniciar com o redirecionamento do pagamento dos inativos para institutos de previdência, o que permitiria que os recursos destinados à área fossem efetivamente investidos nos profissionais que estão na sala de aula, incluindo o aumento do salário inicial e dos benefícios ao longo dos anos.
Tempo estimado
Variável, conforme as demandas de cada município ou estado. Para determiná-lo, é necessário um diagnóstico para conhecer as prioridades. Aplicar em material ou contratação de docentes? Em cada localidade, há um enfoque mais urgente. "A compra de equipamentos tem resultado imediato", diz Juca Gil, da USP. "A formação dos professores, por outro lado, é demorada e muito mais trabalhosa, mas essencial para a melhoria da qualidade da Educação."
O EXEMPLO DE SUCESSO: Coréia do Sul
Para os jovens sul-coreanos, a Pedagogia é um campo promissor. O prestígio da carreira de professor na Coréia do Sul faz com que os jovens sonhem em seguir a profissão. Até mesmo quem não é sul-coreano compartilha o desejo. Soleiman Dias, brasileiro de Fortaleza, foi para Seul lecionar, em 2001, depois de concluir mestrado em Educação Internacional nos Estados Unidos. Deu aulas de Imersão Cultural, disciplina que trata de valores tradicionais coreanos sob um olhar estrangeiro para turmas de 1º e 2º anos do Ensino Fundamental na Kyonggi Elementary School. "Essa atuação me valeu o título de cidadão honorário da Coréia do Sul, que recebi das mãos do prefeito de Seul, no ano passado." Sempre muito ligado ao ensino - é filho de uma funcionária pública que trabalhava no Ministério da Educação e de um professor universitário de Língua Portuguesa -, Soleiman conta que escolheu ser professor na Coréia do Sul por saber que lá teria boas condições de trabalho. Além de benefícios e bônus conforme os anos de experiência, um recém-formado que trabalha 40 horas semanais ganha o equivalente a 4 mil reais por mês. Com 20 anos de carreira, esse valor dobra. "Além de receber um salário digno e de ter três meses de férias - muito mais do que os 12 dias dos outros profissionais -, sou tido como essencial para o país."
A SITUAÇÃO NO BRASIL
Um raio X dos estudantes de Pedagogia mostra a dificuldade em selecionar professores bem preparados para a Educação Básica no Brasil. Pesquisa da consultora Paula Louzano mostra que muitos são filhos de pais com pouca escolaridade e que 80% deles cursaram o Ensino Médio na rede pública. E 72,8% dos docentes têm Ensino Superior.

Com formação precária, esses jovens não conseguem ingressar nas melhores universidades. Esse foi o caso de Marli Teresinha Alves Godoi, que leciona na EM Professora Leonor Rosa, em Caxias do Sul, a 137 quilômetros de Porto Alegre. "Meus pais cursaram somente até a 3ª série do Ensino Fundamental", lembra. Como eles, Marli sempre estudou em escolas públicas. Aos 16 anos, ela começou a trabalhar para completar a renda familiar. Estudava à noite numa faculdade particular. "Só aprendi a lecionar lecionando." Três anos depois, prestou concurso para a rede estadual e hoje trabalha 56 horas por semana, dando aulas de manhã e à noite e atuando como vice-diretora à tarde. "Depois de 17 anos de Magistério, estou feliz e vivo com 4 mil reais mensais. Mas queria ter mais tempo para descansar e, principalmente, estudar para ter um desempenho melhor."
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