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TECNOLOGIA

Como a tecnologia pode renovar a educação

"No atual modelo de ensino, o professor dá o método de estudar e os alunos o fazem. No modelo que proponho é o contrário, eles é que criam o método", diz Sugata Mitra, educador


09/03/2014 11:08
Texto Patricia Bernal
Bons-Fluidos
Foto: As novas gerações são conectadas 24h por dia. Como usar isso em proveito da educação?
As novas gerações são conectadas 24h por dia. Como usar isso em proveito da educação?

Para Sugata Mitra, um dos maiores especialistas em tecnologia educacional do mundo, o uso da web nas salas de aula só será eficiente quando o conteúdo pedagógico for apresentado de forma atraente. No modelo que ele propõe, os alunos trazem boa parte do conteúdo e os professores fazem o papel de mediadores do conhecimento.

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Tudo o que é novo desperta a curiosidade? Depende. Se a novidade for um conteúdo obrigatório, como é o caso das disciplinas escolares, será preciso ativar o interesse dos estudantes, provocar o desconhecido, e permitir, definitivamente, a utilização da ferramenta de que eles mais entendem (e veneram): a tecnologia. Quem sugere isso é o indiano Sugata Mitra, professor na Universidade de Newcastle e docente visitante do Massachusetts Institute of Technology (MIT), dos Estados Unidos. Em visita ao Brasil, em 2012, o especialista reforçou o sucesso de suas pesquisas e experiências no projeto Hole in the Wall, fomentou novas ideias sobre a aplicação da tecnologia no ensino escolar - tema que tem gerado discussões no mundo todo quanto a sua eficiência - e delineou o novo papel do aluno e do professor na educação no século XXI.

Para ler, clique nos itens abaixo:
1. Para a geração conectada
Um dos assuntos abordados pelo educador foi como tornar os conteúdos tradicionais mais apetitosos e significativos para crianças e adolescentes desta geração conectada 24 horas por dia. "Se você não tem grandes questões, os alunos não se engajam no tema. Elabore uma pergunta interessante, conte uma boa história, convença-os de que aquilo que está sendo discutido tem alguma razão de existir", ensina Mitra. Ele garante que, depois de alguns minutos utilizando essa dinâmica, o gelo entre professor e aluno estará quebrado e a semente da interação entre ambos frutificará. Hora perfeita para guiar os alunos em direção à resposta correta?

Nada disso. "No atual modelo de ensino, o professor sugere o método de estudo e os alunos simplesmente cumprem o proposto. O que eu sugiro é justamente o contrário", explica. "Primeiro, o professor apresenta o tema e, depois, deixa os alunos criarem livremente seus métodos de pesquisa em busca de uma solução." Ou seja, depois de a missão dada, os alunos fazem as próprias descobertas sem a intervenção do educador. "Por exemplo, em vez de dar um microscópio para que o aluno entenda uma lição, antes, dê a ele uma flor e peça para lhe explicar o que é uma flor", provoca o especialista. Essa simples inversão de papéis feita antes de iniciar um novo tema já imprimirá outro estímulo ao processo de aquisição do conhecimento.
2. Facilitador virtual
Investigar os assuntos pautados e discutidos em aula em livros, revistas, jornais impressos é válido, mas, para que se dar a esse trabalho se tudo isso e muito mais estão disponíveis na internet? Para Sugata Mitra, hoje, a web engloba milhares de informações de forma prática e rápida. Por isso, ela é vista como uma excelente fonte de pesquisa. "A diferença no uso da tecnologia é que, além da interatividade, ela acelera o processo de ensino-aprendizagem, já que carrega uma nuvem de dados infinitos", fala Ana Beatriz Fernandes Nogueira, psicóloga e psicopedagoga da ONG Casa do Zezinho, em São Paulo, que recebeu a visita do educador em sua passagem pelo Brasil.

Porém, nesse mundo virtual, há dois grandes empecilhos a um aprendizado eficaz: o primeiro é que nem todas as escolas põem à disposição dos alunos máquinas suficientes ou eficientes, e o segundo é a avalanche de informações duvidosas disponíveis. Para ambas as questões, Sugata Mitra propõe soluções. "Não é preciso um computador por aluno, como pregam muitas escolas e governos. Pelo contrário, as crianças aprendem mais em grupo, trocando ideias e ensinando umas as outras. Na Índia, apenas uma máquina foi capaz de atender 300 crianças", defende Sugata Mitra. E se elas encontrarem algo errado ou ruim na internet?

"A rede se auto-organiza e se autocorrige. Eu sempre digo que os únicos tópicos em que não há cobertura correta são política e religião, do resto basta trazer os contrapontos à tona que, em poucos minutos, você descobrirá o que é totalmente falso ou ela por si só apontará isso", afirma o especialista. Mas, há também a possibilidade de os alunos não saberem do que tratam as informações coletadas na web ou de não descobrirem o que está errado.
3. Destilar informações
É aí que o professor-mediador entra em ação como um confiável filtro que tem, além da missão de instigar os alunos, de ajudá-los a avaliar os "achados on-line", fazer um resumo e, daí, explicar o conteúdo. "Até dá para eles aprenderem muita coisa sozinhos, mas é preciso que haja esse diálogo com o professor para que a troca de conhecimento os ajude na verdadeira compreensão", diz Lara Lopes Machado, professora da turma que recebeu Sugata Mitra, na ONG Casa do Zezinho. "Com toda a certeza, o que os estudantes reportaram como conteúdo e a abrangência dos campos que tocaram já ajudaram a executar 60% da aula que seria dada", diz Mitra, que vê isso como mais um atrativo.

Do início ao fim, nota-se que o professor é a peça-chave dessa trajetória do saber. Seja na pergunta inicial, na organização das informações coletadas ou ao mostrar aos alunos os vários horizontes que existem sobre as coisas. "Hoje, ele não é o mestre único e detentor do saber, já que a internet possui tanto (ou mais) conhecimento, mas ele ganha grande importância como principal mediador desse aglomerado de informações. Isso não quer dizer que ele ditará o que é certo ou errado, mas que conduzirá à reflexão", explica o especialista.

E, quando ele não souber de algum aspecto do conteúdo trazido ou de como usar determinada tecnologia, por exemplo, basta revelar sua questão à turma. "Nessas situações os professores devem ser capazes de dizer algo que, no século passado, não sabiam (ou não queriam) falar a seus alunos: eu não sei, vamos descobrir? Só assim é que se manterá atualizado", aconselha o educador.
4. Pedras no caminho
Segundo Mitra, um dos impasses para a aplicação dessas ideias é o atual modelo pedagógico. "A educação de hoje foi desenhada há 300 anos, mas as exigências e pré-requisitos mudaram. Não sugiro o fim de tudo que já foi construído, mas o currículo precisa ser mais interessante e alterar o modo como avaliamos o conhecimento", explica. Isso porque hoje em dia boa parte do sistema escolar mede o aprendizado por meio de exames e testes. De acordo com o professor, esse modelo não leva em conta a compreensão e, sim, a memorização. Basta ver a rotina de muitos alunos que estudam em cima da hora e pouco se lembram do conteúdo após a prova.

"No passado era importante ter a capacidade de memória, pois o cérebro era o único dispositivo que tínhamos para armazenar os dados e as informações, mas hoje temos outras coisas capazes de fazer isso, como um pen drive. O problema é que a compreensão do conteúdo que está gravado não é medida pelo sistema de avaliação e, sim, pela informação em si", constata o educador.

Logo, se conclui que dados por si sós não garantem a compreensão de um assunto. É a relação entre eles, junto às referências pessoais que ditarão um entendimento e uma visão crítica sobre determinado tema. "Uma das coisas mais importantes do aprendizado é desenvolver a possibilidade de compreender o que lemos e o que ouvimos, a capacidade de distinguir a imensidão de informações disponíveis, de saber ver a que mais se aproxima da verdade", conclui o professor.
5. No Brasil
Em visita à ONG Casa do Zezinho, no Parque Sto. Antônio, em São Paulo, Sugata Mitra colocou em prática todas as suas teorias. Para isso, reuniu cerca de 20 alunos (de 11 a 12 anos) em uma biblioteca e os dividiu em grupos de cinco a sete para cada computador. Antes de dar início à aula, criou um novo cenário: os professores presentes não iriam intervir (nem ajudar) na pesquisa e, quem estaria responsável por colocar ordem e tirar dúvidas dos alunos seria um colega de classe, escolhido pela própria turma. Feito isso, o estudioso puxou conversa e logo soltou a pergunta: "Por que sonhamos?".

Em seguida, desafiou os grupos a descobrir o motivo. "Num primeiro momento, a questão faz a criança silenciar, mas logo em seguida ela descobre que lhe deram a vez para pensar e mostrar o que tem em mãos, ganhando mais autonomia de pensamento e de ação", conclui a psicopedagoga Ana Beatriz Fernandes Nogueira, depois de acompanhar o experimento. Após 30 minutos, os 20 alunos trouxeram uma diversidade de informações. "Os professores nunca deixam espaço para a gente correr atrás da resposta, é sem graça. Dá um minutinho, eles já dão a questão pronta e a gente continua não entendendo nada", fala Ariane Aparecida, de 12 anos, aluna do 7o ano, da Escola Estadual Professor Humberto Alfredo Pucca, em São Paulo, e da ONG Casa do Zezinho. "Ao trabalhar juntos, alunos e professores tornam-se aprendizes em potencial, e provedores na construção de uma nova forma de conhecimento", resume Mitra.
6. Buraco na parede
O projeto que percorreu o mundo nas mãos do educador Sugata Mitra, intitulado The Hole in the Wall (O Buraco na Parede), consistia em colocar um computador em um muro, com mouse e teclado, em regiões de extrema pobreza e registrar (por meio de câmeras embutidas) o que iria ocorrer. Para garantir que apenas crianças navegassem, o teclado e o mouse ficavam em uma caixa de madeira com um buraco que dava acesso apenas a mãos bem pequeninas. "De início, acreditavam que as crianças iriam quebrar ou roubar o computador, mas o resultado foram jovens unidos surfando na web em um idioma que não conheciam: o inglês", diz Sugata Mitra, depois de iniciar sua experiência em 1999, numa região carente em Nova Délhi, na Índia. "Nessa época, naquele país, havia muitas crianças sem acesso a computadores, e quase nenhum professor para ensinar informática", explicou Mitra. A ideia era testar o que as crianças conseguiriam fazer usando um computador e respondendo a uma pergunta - feita geralmente por ele. "Constatamos que grupos de crianças são capazes de aprender sozinhos e ensinar uns aos outros, independentemente de onde estejam e quem sejam", disse. Os resultados surpreenderam Mitra e sua equipe, que passaram a percorrer todos os cantos da Índia e, posteriormente, outras regiões, como Estados Unidos, Chile, Argentina, Canadá, Brasil, e continentes como África e Ásia, a fim de constatar que qualquer criança, mesmo, pode aprender nessas condições.

 

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