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FUNDAÇÃO VICTOR CIVITA

A guerreira da Educação

À frente da Fundação Victor Civita, Angela Dannemann aponta deficiências e soluções para atingir o objetivo mais importante na visão do fundador do grupo Abril: contribuir para um ensino de qualidade no Brasil


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11/06/2010 18:31

Texto
Marion Frank

Foto: Divulgação
Angela Dannemann

"É preciso um ímpeto mais forte e mais rápido para que seja possível, daqui a dez anos, ter uma população realmente qualificada do ponto de vista da Educação"

Ela tem uma trajetória, no mínimo, curiosa. Formada em engenharia química, em Salvador, Angela Dannemann acabou se especializando em gestão e administração graças às inúmeras empresas que ajudou a montar ao longo da trajetória profissional. Porém, a "mordida da mosca tsé-tsé da Educação", como ela gosta de nomear, aconteceu só em 1985. Foi quando, no interior baiano, Angela contratou 16 jovens formados pela Fundação José Carvalho para a empresa de informática que havia montado ao lado de dois sócios. "A fundação trabalhava com crianças que se destacavam em escolas públicas do interior nordestino, apostando na formação de profissões técnicas, como a de programação de computadores", lembra. "Ação inovadora para a época, de resultados excelentes na capacitação de jovens de famílias carentes."

Desde então, o envolvimento dessa baiana com Educação só faz aumentar. Diretora executiva da Fundação Victor Civita, aponta sem titubear o tamanho dos problemas do ensino no país - universo de trabalho que dá razão de ser à FVC desde a sua criação. Apesar da urgência em encontrar soluções, Angela sabe transmitir esperança: "A 'guerra santa' da Educação, de que Victor Civita falava décadas atrás, continua na ordem do dia - a diferença é que hoje muito mais gente está envolvida", garante. E com uma vontade "arretada" de dar conta dela.

Para ler, clique nos itens abaixo:
Como vai a Educação no país?
Angela Dannemann: O Brasil tem hoje uma carência de mão de obra muito clara, carência que vem sendo anunciada há muito. Eu diria que há uns 15 anos se diz que o Brasil não é o país nem do futuro nem do presente, se não tiver mão de obra qualificada... É verdade que o governo vem tomando iniciativas para mudar essa situação, mas a mudança continua lenta, e é preciso um ímpeto mais forte e mais rápido para que seja possível, daqui a dez anos, ter uma população realmente qualificada do ponto de vista da Educação.
Diagnóstico que já havia sido feito por Victor Civita décadas atrás, certo?
Angela Dannemann: Victor Civita era um homem de visão excepcional, com certeza. Porque ele percebeu desde muito cedo que o país precisava de Educação. Ele queria transformar a escola do Brasil de modo que ela promovesse a Educação de qualidade - escola que, naqueles anos 1980, não era capaz de promover qualquer tipo de Educação! Em 1985, quando a Fundação Victor Civita foi criada, apenas 60% da população tinha acesso a escolas públicas e privadas. Ou seja, 40% dos brasileiros de todas as idades não recebiam Educação de espécie alguma. É preciso ter isso muito claro, pois não estamos a falar de uma situação que era moeda corrente em nosso país séculos atrás.
Quando o brasileiro começou a frequentar a escola?
Angela Dannemann: No final dos anos 1990, com a Lei de Diretrizes e Bases. Ela determina a obrigatoriedade do ensino dos 7 aos 14 anos - hoje já é obrigatório por lei o ensino dos 4 aos 17 anos, mas há um prazo para que as escolas se adaptem a essa obrigatoriedade, prazo que expira em 2016. Sabemos que, no Brasil atual, 98% da população entre 7 e 14 anos segue ao pé da letra essa lei da universalização do ensino. Em razão dela, as escolas passaram a receber, nos últimos 20 anos, um contingente enorme de crianças e jovens. E qual foi a visão de Victor Civita? Apesar de não existir interesse comercial apoiando esse tipo de iniciativa, ele queria trabalhar com essa realidade; por isso, criou uma fundação sem fins lucrativos, separada da empresa de comunicação da qual era proprietário. Ele também trabalhou alinhado com o que havia de inovador no chamado Terceiro Setor - ou seja, desenvolver ações de responsabilidade social alinhadas com a estratégia da empresa. Em 1985, o fundador do grupo Abril já fazia algo que muitos empresários tentam hoje - e ainda não conseguem.
Vem daí a criação da revista NOVA ESCOLA?
Angela Dannemann: Exatamente. A Fundação precisava ter uma fonte de recursos, até para promover as suas iniciativas. Em 1986, ela gerou uma revista voltada para a Educação, oferecendo conteúdos de qualidade para que os professores pudessem ter em mãos um instrumento a ser usado em sala de aula. Esse é o alinhamento estratégico a que me referia - ele fez uma revista de Educação, e revista sempre foi o que a empresa de Victor Civita soube fazer, a ponto de ser líder de mercado. Desde o início foi mantido intacto o princípio de vendê-la a preço de custo - ou seja, o custo da sua impressão e da sua distribuição, o que hoje resulta em R$ 3,40. E assim a revista NOVA ESCOLA foi criada, identificando e suprindo as lacunas em sala de aula. Ou seja: ela cumpre o objetivo da Fundação, o de contribuir para a melhoria da Educação no país por meio de materiais didáticos, revistas e estudos que permitam a melhor formação dos professores. E, agora, também dos gestores, com a revista NOVA ESCOLA GESTÃO ESCOLAR, a partir de abril/maio de 2009.
Por que criar a revista GESTÃO ESCOLAR, de público tão específico?
Angela Dannemann: Antes, pensava-se que a Educação estava restrita ao trabalho do professor. Era ele que promoveria a mudança. Acontece que é cada vez mais claro que a escola diz respeito a um ambiente composto de várias personagens: além do professor, é preciso considerar os que trabalham na chamada gestão da escola - o diretor, o coordenador pedagógico (que também pode ser chamado de orientador de ensino de acordo com a região do país), enfim, são várias personagens-chave que precisam funcionar como uma orquestra afinada para chegar à escola de qualidade. Manter um ambiente propício à aprendizagem e ao trabalho dos profissionais que lá estão é papel do gestor da escola, e também da Secretaria Municipal de Educação. Aí está outro desafio: fazer com que a escola se aproxime cada vez mais da Educação de qualidade, tratar dos conteúdos que sejam hoje relevantes para o mundo e saber tratá-los com eficiência, fazendo uso das tecnologias que já estão bem disseminadas. Que fique bem claro: a tecnologia não é um fim, mas um meio, como o lápis, o livro e assim por diante.
Só que essa escola ideal ainda não existe no país, concorda?
Angela Dannemann: Infelizmente. É verdade que aconteceu a universalização do ensino, mas também aconteceu a queda da qualidade. Porque a escola que estava habituada a dar aula para 60 alunos passou a receber 100. São 40 alunos novos que chegam à escola muitas vezes com fome e sem saber até lavar a mão. Em um mundo que está voando alto com a tecnologia, temos a escola ainda vivenciando um modo de trabalho e um modo de atuar típicos do início do século 20... Sim, a escola é um ambiente de trabalho e gestão muito complexo, estamos falando de 2,2 milhões de professores e 53 milhões de alunos matriculados no Ensino Básico de um país de dimensões continentais! E, para complicar ainda mais, a formação dos professores não é voltada para o trabalho prático em sala de aula. Hoje, o conhecimento tem de ser rápido e focado naquilo em que o aluno pretende trabalhar, atuar. Sim, são muitas as dificuldades que precisam ser resolvidas dentro de um ambiente sacrificado pela violência nas periferias, com salas de aula abarrotadas de alunos e um professor que precisa se qualificar e contar com um mínimo de condições de trabalho para render o seu melhor.
Quais são as atividades mais visíveis da Fundação Victor Civita?
Angela Dannemann: Eu diria que, além das revistas NOVA ESCOLA e GESTÃO ESCOLAR, do site que serve de apoio a essas publicações e do portal Ponto de Encontro - rede virtual de professores que espero que esteja a todo vapor em breve -, o Prêmio Victor Civita Educador Nota 10 é outro carro-chefe da fundação. Ele vai para a sua 13ª edição e é outorgado na Semana do Professor, em meados de outubro. Quais são os seus objetivos? Reconhecer, em primeiro lugar, o valor do trabalho desse profissional que trabalha aqui e ali em condições precárias, mas exerce uma função importantíssima - e muitas vezes com excelência. O prêmio (que será de R$ 15 mil em 2010) é, portanto, uma aposta na valorização do profissional de Educação. São premiados, de um universo médio de 4 mil inscritos, dez trabalhos de professores e um trabalho de gestor, além de ser eleito, dentre esses 11 finalistas, o educador do ano - que receberá outro prêmio, uma pós-graduação de sua escolha, financiada pela Fundação Victor Civita. É uma aposta na valorização desse profissional, além de servir de termômetro para as iniciativas que estamos promovendo país afora.
Qual a principal deficiência quanto à formação do professor?
Angela Dannemann: Ele tem de ser cada vez mais preparado, de modo a atuar pensando no que deve fazer para o aluno aprender mais. O professor também precisa ter conhecimento das ferramentas tecnológicas mais avançadas para facilitar essa aprendizagem. Estou falando da formação inicial e da formação continuada do professor. Afinal, ele não é um semideus, mas um profissional que precisa de uma boa (e contínua) formação para exercer sua profissão, assim como um salário atrativo e uma carreira - o que hoje não existe, pois ele começa a trabalhar com salário baixo e termina com salário igual. A área de Estudos e Pesquisas Educacionais da Fundação Victor Civita já detectou esse problema: apenas 2% dos alunos do Ensino Médio estão interessados em seguir a carreira. Repare: nossos professores do Ensino Básico têm hoje a idade média de 36 anos, o que significa uma carência de 760 mil professores na rede pública de ensino já identificada pelo MEC, em especial na área de Ciências Exatas.
De que modo a Secretaria Municipal de Educação poderia contribuir para melhorar o ensino país afora?
Angela Dannemann: Ela é uma peça fundamental no universo da Educação e a palavra-chave do seu sucesso se chama continuidade. É preciso que exista uma política educacional de estado, e não de governo. O grande problema do Brasil nos níveis municipal, estadual e federal é que tudo muda com frequência, basta entrar um novo secretário para alterar tudo, e não apenas o nome... Mas - pareço até pregadora, a Educação tem esse poder de me entusiasmar demais! - a Educação não acontece em menos de quatro anos! Quando se olha uma criança, é preciso ter em mente que se está olhando para ciclos de evolução! Por isso a necessidade de lutar pela continuidade de uma política educacional, ou não será possível resolver um dos problemas mais graves do nosso país. Era o que Victor Civita falava décadas atrás, uma cruzada, uma 'guerra santa' que continua na ordem do dia, com a diferença de que hoje ela atrai muito mais gente do que no tempo do fundador deste grupo.
O crescimento da economia brasileira não se reflete na Educação?
Angela Dannemann: Quando falo que a Educação precisa ser promovida com qualidade e com urgência, é reflexo das notícias que vem sendo divulgadas com regularidade. Por exemplo, a de que será contratada mão de obra do Japão para trabalhar nas obras do porto de Suape, porque o nosso país tem falta de profissionais para a indústria naval. Essa é a consequência concreta da não Educação de qualidade, simplesmente isso. Ou ainda: estamos falando do desenvolvimento do país - e não só da Educação. É uma bomba-relógio que, a meu ver, já explodiu... Pois, se o país crescer a uma taxa de 9% ao ano, semelhante à chinesa, não vai ter como esconder o sol com a peneira!
E, ao mesmo tempo, o analfabetismo continua da dimensão do nosso país...
Angela Dannemann: Hoje existem 44 milhões de jovens e adultos analfabetos ou analfabetos funcionais no Brasil. Isso é muito grave, eu fico chocada com esse número divulgado pelo MEC. Houve o Mobral, antes o Projeto Minerva, depois a Alfabetização Solidária, e o que acontece com essas levas de alfabetização? Bem, o analfabetismo não vai acabar se parar o ensino do jovem e do adulto, daí o termo "analfabeto funcional". O mesmo se aplica à criança que sai da escola e não concluiu o processo de alfabetização, ou daquela que passa de série na escola sem compreender direito o que lê. Uma pessoa alfabetizada é aquela que não apenas escreve e lê, mas também compreende o que acaba de ler. Temos, portanto, um universo enorme de brasileiros que sabem ler apenas o conteúdo da cartilha. Não adianta alfabetizar e parar, alfabetizar e parar. Foi isso o que aconteceu com o Projeto Minerva, com o Mobral etc. É preciso ter um ensino continuado para acabar com o analfabetismo no Brasil.
Poderia apontar um problema de ensino típico do nosso país?
Angela Dannemann: Problema? Mata-se a pergunta. E, sem pergunta, não se promove o conhecimento. Esse é o reflexo de uma cultura autoritária, paternalista. Não se pode questionar, é aquela história: "Cala a boca, menino! Por que você pergunta tanto, menino, você é um chato!", sabe como é? Aí, ele é posto para fora da classe, é um indisciplinado, pode ser até expulso e, pior, vai procurar um tipo de resposta fora da escola, o que é um perigo imenso.
Qual seria a estratégia da FVC nesta cruzada por uma Educação de qualidade?
Angela Dannemann: A Fundação está a cada dia mais interessada em trabalhar com conteúdos divulgados nos dois veículos impressos e no digital, esse último de capital importância na atualidade. O alinhamento de conteúdos é uma tarefa vital da Fundação. Eles precisam se tornar cada vez mais úteis e de fácil utilização - ou seja: quando um professor quer procurar uma informação, vai encontrar um conteúdo todo agrupado de modo que lhe permita acesso fácil ao máximo de dados, fazendo uso do link. Como estamos trabalhando com a atenção centrada nesse professor e também no gestor, os conteúdos digitais vêm sendo cada vez mais reforçados por pesquisas que comprovem a necessidade de seguir um determinado caminho. Além disso, é preciso gerar cursos de formação online, testando os professores de modo que eles possam depois utilizar esses conteúdos em salas de aula. No ano passado, tivemos o "Nome Próprio", curso de alfabetização, e o "Cálculo Mental", de Matemática. Neste ano haverá um de pesquisa em História, entre outros.
E a leitura, o que a Fundação tem feito para promovê-la?
Angela Dannemann: Em março passado, o Projeto Entorno passou a ser adotado pelos Centros de Educação Infantil (CEIs) e Escolas Municipais de Educação Infantil (EMEIs) de São Paulo. Ou seja: está à disposição da rede pública de ensino da capital paulista. A expectativa é que cerca de 900 escolas sejam beneficiadas pelo projeto em dois anos. O Entorno estimula a leitura - e a alfabetização só se dá se o aluno aprender a ler, ler e ler. Não importa o que se lê, se é conteúdo digital, livro ou o que for. A criança tem de ler, por que vai ser assim que a Educação será preservada.


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