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ENTREVISTA

De como ser útil ao professor

Mentora de um jornalismo especializado em Educação, Regina Scarpa, coordenadora pedagógica da FVC, sabe o que precisa ser feito para ajudar na formação de quem trabalha em sala de aula


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14/06/2010 12:05

Texto
Marion Frank

Foto: Paulo Vitale
Foto: Regina Scarpa

"É preciso melhorar a atratividade da carreira do professor, é preciso melhorar o currículo da formação inicial desses professores"

Ela discute pauta, põe o dedo na produção e se envolve com a matéria até o ponto final. Nada acontece nas revistas NOVA ESCOLA e GESTÃO ESCOLAR sem o aval de Regina Scarpa, coordenadora pedagógica da Fundação Victor Civita. No cargo desde 2006, essa psicóloga formada pela PUC-SP, com mestrado em Educação na USP e experiências profissionais de destaque, como a coordenação pedagógica do programa Vila Sésamo, da TV Cultura, já fez poucas e boas. Que o digam os jornalistas daquelas revistas, por ela induzidos a se tornarem, sem direito a pestanejar, especialistas no vasto (e complicado) universo da Educação brasileira.

Regina também assina a criação de dois projetos que são orgulho da FVC: Entorno e Letras de Luz. Neste preciso momento, quando acirra a seleção dos candidatos ao Prêmio Victor Civita de Educação, ela dorme mal, tamanha a responsabilidade em eleger os dez Educadores Nota 10. Porém, ao falar sobre o ensino brasileiro, recobra de imediato a energia: "Temos hoje professores que são na maioria oriundos da classe C e não tiveram acesso a uma sólida formação acadêmica... E ficam todos debatendo por aí sobre métodos, quando o problema é outro. Ou seja, é preciso melhorar a formação inicial desse professor – se não sei ortografia, não serei capaz de ensinar a escrever certo".

Para ler, clique nos itens abaixo:
Você se tornou coordenadora pedagógica da Fundação Victor Civita (FVC) em 2006. O que mudou desde então?
Regina Scarpa: Naquela época, a FVC era dirigida por David Saad, a vice-presidente era Claudia Costin, e os dois estavam animados em alcançar a sustentabilidade da NOVA ESCOLA. Eles queriam que a revista conseguisse, ela própria, se pagar, objetivo que foi atingido no ano passado. Na verdade, de 2006 para cá, a revista praticamente dobrou a vendagem: hoje ela é de quase 1 milhão de exemplares por mês, a segunda maior circulação do país. Nesse período em que estou à frente da coordenação pedagógica da FVC, algo muito bacana se deu: os jornalistas perceberam o quanto é necessário ter conhecimento sobre o ensino para poder fazer matérias de qualidade. Tenho o maior orgulho da equipe da NOVA ESCOLA, são profissionais que estão sempre interessados em melhorar a reportagem. Eles leem, pesquisam, discutem, enfim, são jornalistas especializados em Educação. Eu ajudei a criar essa mentalidade - e quem está na redação há mais tempo diz que, antes, esse jeito de trabalhar nunca existiu. Havia uma coordenação pedagógica, mas ela era exercida de outra forma, não participava da produção das matérias, das reuniões de pauta. Eu me envolvo em todas as etapas do trabalho da revista... Um 'casamento' que surgiu da necessidade de trazer maior qualidade pedagógica à revista com o interesse de contribuir para a Educação.
De que modo o jornalismo especializado é capaz de ajudar o professor?
Regina Scarpa: Nunca se tinha falado tanto em Educação no país como entre 2005 e 2007, época em que começaram as avaliações do MEC. A imprensa especializada se conscientizou de que era preciso fazer matérias mais consistentes e produzir conteúdos capazes de ajudar o professor em sala de aula. E foi assim que a NOVA ESCOLA começou a fazer muito conteúdo de Matemática, de Leitura... Entre 2008 e 2009 também aconteceu uma reestruturação do site da revista, de modo a torná-lo realmente útil aos professores. Porque o grande desafio de um site é a atualização do seu conteúdo. Em Educação, diferentemente do que acontece com o site de notícias, onde elas envelhecem e desaparecem, o conteúdo não fica logo 'capenga'... Era preciso criar um banco de dados, teorias, vídeos etc., com outro tratamento. Tivemos de pensar em um "currículo" interessante para o professor e capaz de ser disponibilizado pelo site. Deu certo, ele já quase dobrou de tamanho... Para montar esse currículo, o que ajudou foi o fato de eu ter acumulado experiência sobre as carências dos professores. Já trabalhei no Pará, na Bahia, no Maranhão, enfim, tenho informação sobre o professor de todo o Brasil. Só para dar um exemplo: na Chapada Diamantina, para se ter acesso a uma livraria, é preciso viajar sete horas. O acesso à informação, aos livros, é muito complicado - detalhe que faz a diferença quando se fala de Educação no Brasil.
E como vai o nível de ensino do professor? Ou é o caso de falar... professora?
Regina Scarpa: É verdade, 80% do quadro é composto por mulheres, e isso tem a ver com remuneração, prestígio. Nos últimos anos, aconteceu uma democratização do acesso à Educação, ou seja, 97,8% das crianças brasileiras hoje frequentam o Ensino Fundamental. Porém, esse crescimento ocorreu à custa de uma pauperização da função docente. Era preciso um número grande de professores, e, quando isso ocorre, os níveis de exigência diminuem imediatamente. Junto da Fundação Carlos Chagas, fizemos uma pesquisa com jovens do Ensino Médio, "Atratividade da Carreira Docente". Foi constatado que apenas 2% deles querem ser professores. Os jovens dizem exatamente por que não querem seguir a carreira. Então, hoje temos professores que são em sua maioria oriundos da classe C, profissionais que não tiveram acesso à leitura, muito menos informação acadêmica e/ou cultural. São filhos da escola pública, e ninguém dá o que não tem, certo? É séria essa questão, ficam todos debatendo por aí a respeito de métodos, quando o problema é outro. É preciso melhorar a atratividade da carreira do professor, é preciso melhorar o currículo da formação inicial desses professores - se não sei ortografia, não serei capaz de ensinar a escrever corretamente... A discussão é sobre a formação e o perfil dos professores que hoje ocupam as salas de aula do Brasil. E nós temos a obrigação de não perder mais uma geração e contribuir para dar formação continuada a esse profissional.
O Prêmio Victor Civita de Educação espelha de certa forma essa deficiência de formação do professor?
Regina Scarpa: Eu não poderia supor que seria difícil encontrar dez trabalhos que mereçam ser chamados de Educador Nota 10, não acreditava que seria difícil encontrar dez entre 4 mil, que é a média de trabalhos inscritos... Mas essa é a realidade, e se repete todo ano. Quais são os objetivos do prêmio? Valorizar o professor e traçar um panorama da Educação brasileira, uma amostra da realidade do nosso ensino, das dificuldades para exercer a profissão. Isso é muito importante para nós - sobretudo para os jornalistas da NOVA ESCOLA, porque rende muitas matérias... Também permite socializar os trabalhos premiados por meio do site da revista e da própria publicação, além da revista GESTÃO ESCOLAR (agora também existe o prêmio Gestor Escolar Nota 10). E por que é difícil encontrar os dez melhores? O professor tem de demonstrar domínio do seu ofício, saber ensinar e provar que foi capaz de ensinar, o que é feito com registros, portifólios etc. Temos de ter acesso a esse material para comprovar como os alunos estavam no início do curso e o que aprenderam no fim dele. Nós damos a chancela de Educador Nota 10 sem conhecer o professor pessoalmente, isso só acontece quando ele chega aqui já vencedor... Por isso, é feito um trabalho de "garimpo", de ir atrás dos trabalhos, pesquisar, conversar por telefone, checar se ele de fato tem domínio na disciplina que ensina, e assim muitos são eliminados... Alguns trabalhos chegam incompletos, os professores não descrevem o processo de ensino e aprendizagem, o que demonstra enorme dificuldade de serem especialistas naquilo que fazem.
Apesar das dificuldades, há casos exemplares revelados pelo prêmio?
Regina Scarpa: O Prêmio Victor Civita é a maior premiação do ensino brasileiro, algo muito valorizado e reconhecido na área da Educação. Isso é comprovado de diversas formas; por exemplo, se houver necessidade de serem feitos cursos a distância, quem será chamado é o professor que recebeu o prêmio Nota 10. É importante destacar que o prêmio não trata o professor como herói, mas como um profissional que tem a responsabilidade social de saber ensinar. Nós ficamos atentos a que o prêmio tenha representatividade de todo o país. São Paulo acaba por ter mais inscrições até em razão de sua densidade demográfica, mas recebemos trabalhos de Rondônia, Roraima, Acre... Em 2008, um índio paiter-suruí foi premiado por ter ajudado a criar a língua escrita de sua tribo. Ele se chama Joaton e vive na zona rural de Cacoal, distante 500 km de Porto Velho. Joaton já foi convocado pelo MEC para dar continuidade ao trabalho da língua escrita paiter-suruí: pela primeira vez ela é ensinada na escola, um trabalho maravilhoso, outras tribos paiter-suruí estão aparecendo para aprender a escrita na escola dele, é emocionante! Joaton soube do prêmio Victor Civita pela NOVA ESCOLA, prova de como a revista se faz presente no Brasil. Aliás, ela é mais lida exatamente no Norte e no Nordeste.
Em relação à GESTÃO ESCOLAR, também sob sua coordenação, de que modo a revista se faz útil ao público-alvo?
Regina Scarpa: A GESTÃO ESCOLAR circula desde o início de 2009, é uma revista bimensal que começa agora a ter assinantes... Ela fala com os diretores e os coordenadores pedagógicos das escola também na linha de ajudá-los a profissionalizar o trabalho, até porque existe falta de informação de como fazer a gestão a favor da aprendizagem dos alunos - afinal, ela não se esgota na gestão administrativa. Se os alunos não estão aprendendo em uma determinada escola, não adianta a merenda ser ótima, a burocracia funcionar a contento, a escola ser limpa... Diretores e coordenadores pedagógicos também precisam se responsabilizar pela aprendizagem dos alunos. E a verdade é que eles, às vezes, se "escondem" atrás das atividades burocráticas, alegando que não há tempo para fazer a formação dos professores: "Ah, tenho de atender os pais e não vai dar para olhar a avaliação dos alunos", e por aí vai.
Você teve participação decisiva na criação de projetos afamados da FVC, o Entorno e o Letras de Luz. Como eles vão de vida?
Regina Scarpa: Quando cheguei para trabalhar no grupo Abril, a Claudia Costin, que sempre teve forte ligação com a leitura, pediu que fosse desenhado um projeto para fomentar a leitura nas escolas próximas da editora, usando funcionários como voluntários nessa ação. O projeto Entorno foi desenvolvido de 2006 a 2009 e envolveu, além dos funcionários, a formação de diretores e professores, assim como doação de acervo. Acontece que tivemos a grata surpresa de ele se tornar política pública da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo: hoje fazemos a formação de todos os diretores das Secretarias Regionais de Ensino. Quanto ao Letras de Luz, ele começou em 2007 e foi outro pedido da diretoria: uma concessionária portuguesa de eletricidade, a Energias do Brasil, queria patrocinar um projeto cultural nos estados onde se fizesse presente - Espírito Santo, Tocantins, São Paulo e Maranhão. Escolheram o nosso projeto, entre vários candidatos. Letras de Luz envolve o fomento ao teatro e à formação de atores: são oficinas que encenam clássicos de literatura e estão abertas a todos os agentes de leitura do município. Já o trabalho de teatro é dirigido aos atores amadores que desejam se profissionalizar. Hoje são cerca de 30 municípios beneficiados pelo projeto.
E qual seria a principal aposta da Fundação, este ano, para auxiliar o professor?
Regina Scarpa: Para 2010, a FVC quer que seja produzido material para ensino de Ciências, que deve ser veiculado tanto no site quanto na revista NOVA ESCOLA. A aposta é estimular os cursos online - fizemos apenas um, no ano passado, sobre Cálculo Mental, em parceria com o Instituto Ayrton Senna, e ele foi muito bem. Agora estamos estudando como criar uma área voltada para a produção desse tipo de curso. Porque essa nova tecnologia de comunicação é muito bacana para a Educação. Dá para aprofundar um único conteúdo, como o que aconteceu com o Cálculo Mental durante dois meses. Se fosse uma aula normal, apenas 60 minutos de ensino estariam disponíveis. Então, os cursos online têm uma característica importante, a possibilidade de fazer recortes dentro da disciplina e aprofundá-los. Dá para subsidiar os professores com textos, atividades, a gama de opções é interessante. O curso online não vai substituir o professor, mas vai se tornar ótima ferramenta para ser utilizada em sala de aula.


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