O novo presidente da Abril Educação, Manoel Amorim, detalha o que planeja fazer para tornar a Abril referência mundial de ensino
Foto: Ricardo Benechio
Manoel Amorim: "O Brasil tem inúmeros campeões em esporte, música, mas não de ensino, intelecto."
Um engenheiro químico que se tornou presidente de uma empresa de telecomunicações. E depois aprendeu a ser especialista de varejo, e agora, de Educação. Manoel Amorim. Ele já passou pela presidência da Telefônica, da Vivo e do Ponto Frio, entre outras. Desde junho, está à frente da Abril Educação. Mas, para quem dava aulas de química em cursinho aos 18 anos, educação está longe de ser um "bicho estranho", ele faz questão de enfatizar.
Manoel tem um sonho: tornar a Abril referência de qualidade de ensino dentro e fora do País. Para ele, a sua contratação, a aquisição do Anglo e a presença de um novo sócio, o fundo BR Investimentos, são sinais inequívocos de que a prioridade, dentro do grupo, é tornar a educação um grande negócio - empresa tão grande quanto a própria Abril, uma conquista a ser alcançada em cinco anos, ele profetiza. Sem comprometer a qualidade do projeto em curso, claro. Porque outras aquisições e outros sócios e fundos - ufa! - estão a caminho. Palavra (à boca pequena) de Manoel Amorim.
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- Você vem da presidência do Ponto Frio praticamente sem escalas para a da Abril Educação. Uma guinada profissional razoável, concorda?
- Manoel Amorim: Já tive experiência com educação. Fui dono de um cursinho no Rio de Janeiro, quando me formei em engenharia química, éramos quatro sócios... Chamava-se Paralelo e dava aulas de química, física e matemática, funcionando como reforço para a última série do ensino médio atual. Tinha cerca de dois mil alunos e altos índices de aprovação, era uma proposta de excelência de ensino. Depois, vendi a minha parte do negócio para fazer o MBA em Harvard, nos EUA. Mas o meu primeiro emprego, aos 18 anos, foi como professor de química - cheguei a trabalhar três anos naquele que então era o melhor cursinho do Rio de Janeiro, o Impacto. Mais recentemente, me tornei membro do conselho de administração de uma das melhores escolas de negócios dos Estados Unidos, a Marriott School of Management, em Utah. Ou seja: educação não é um bicho estranho para mim.
- Trabalhar outra vez com educação serve de desafio?
- Manoel Amorim: Sim, pois é estimulante em três dimensões: primeiro, a natureza do negócio e a possibilidade de fazer nela a diferença. Eu tenho um sonho, o de a Abril ser referência de qualidade de ensino no País - e no mundo. O Brasil tem inúmeros campeões em esporte, música, mas não de ensino, intelecto. Quando estudei no Impacto, por dez anos consecutivos o medalhista de ouro da Olimpíada Mundial de Matemática era um brasileiro, aluno daquela escola... aí está um grande desafio para nós. Outro estímulo importante é o negócio em si, a educação pode ser um grande negócio, um negócio do tamanho que a Abril é hoje em cinco anos já será possível ver uma empresa tão grande quanto a Abril. E o terceiro ponto é tornar essa empresa focada na educação uma empresa de capital aberto, o que deve acontecer bem mais rápido, em menos de dois anos, acredito. Isso, de capital aberto, não é fim, mas sim meio, investindo aqui dentro o que for obtido de modo a fazer a empresa crescer.
- Um plano ambicioso, sem dúvida, e que joga luz sobre as mudanças na área de educação ocorridas recentemente...
- Manoel Amorim: Eu vim para a Abril em nome de um projeto grande, e não pequeninho. Essa deve ter sido também a intenção dos acionistas do grupo, quando me contrataram e também quando atraíram um fundo como o BR Investimentos para cá... Nos últimos seis meses, os acionistas, a família Civita, eles deram três passos importantes em direção a tornar a educação um grande negócio deste grupo: a minha contratação, a compra do Anglo e a admissão de um sócio para investir o seu capital aqui dentro, o BR Investimentos. E ainda vamos atrair outro fundo para fazer o mesmo, não posso revelar nomes, mas isso deve acontecer nos próximos três meses.
- Qual a principal característica do BR Investimentos?
- Manoel Amorim: É um fundo que abriu carteiras especializadas, uma delas em educação, e que tem à frente o empresário Paulo Guedes - foi ele que criou o Banco Pactual e também o Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec), no Rio de Janeiro. O Ibmec é uma das iniciativas mais bem sucedidas em educação no Brasil, foi ele que lançou o primeiro MBA brasileiro preparado para o mercado financeiro (1985). Hoje o Ibmec já se estendeu para várias cidades do País, oferecendo outros cursos além do financeiro. Paulo Guedes é um mineiro que vive há anos no Rio, um empreendedor de sucesso. E que agora fez da Abril Educação o seu principal investimento.
- Com a compra do Anglo, marca forte entre os sistemas de ensino, o que muda com o SER, do grupo Abril?
- Manoel Amorim: É preciso primeiro deixar claro que, em um País como o Brasil, onde existe uma carência de professores, professores esses que precisam de treinamento e formação, o negócio do sistema de ensino floresceu porque ele vem ajudando os professores a terem as aulas preparadas. Ocorreu um crescimento acelerado na área do sistema de ensino da rede privada, começando agora a acontecer o mesmo com as escolas públicas. Lançamos então o SER, que já serve inclusive às duas redes de ensino. Acontece que lançar um sistema de ensino que não esteja ancorado em um nome forte de escola - Anglo, Pitágoras, Objetivo e Positivo, por exemplo -, acaba por se tornar uma batalha difícil. Assim, a aquisição do Anglo significa a entrada do grupo Abril por cima no negócio dos sistemas de ensino - o Anglo é referência nacional. As duas marcas, Anglo e Ser, vão conviver, há espaço para isso. Estamos agora discutindo a estratégia de conteúdo, qual dos sistemas de ensino vai focar a rede pública, a rede privada, e mapeando as diferenças para chegar a uma definição.
- Você teria números para indicar o universo a ser explorado por esses sistemas de ensino?
- Manoel Amorim: Juntos, os dois sistemas vão atender a 850 escolas (500 escolas são associadas ao Anglo e 350, ao SER), o que deverá significar um faturamento de R$ 650 milhões no ano que vem, elevando a Abril Educação ao posto de maior empresa privada de ensino do país. A meta vai mais longe, porém: queremos ser o primeiro em sistemas de ensino já em 2011.
- Tudo parece pronto e definido... mas, e a má formação do professor brasileiro, como é que fica?
- Manoel Amorim: A deficiência da formação do professor brasileiro é uma oportunidade que a Abril Educação tem de contribuir para sanar o problema - claro, não será algo que vai acontecer da noite para o dia. Porque aqui estamos falando de duas situações bem diferentes. Existe uma dimensão do negócio que exige um crescimento rápido, tanto o que chamamos de orgânico - que é fazer crescer o que o grupo já tem -, quanto o inorgânico, que vem a reboque das aquisições. E nós não vamos parar no Anglo, pretendemos fazer outras aquisições e estamos analisando três a quatros candidatos. É para isso também que estão entrando os fundos, porque eles trazem o dinheiro para investir nessas aquisições. Agora existe outra dimensão do problema, outro desafio, que é fazer com que essas empresas contribuam para dar qualidade ao projeto de educação aqui em curso, um processo que levará anos. Mas a qualidade de ensino jamais será comprometida nesse processo, porque estamos adquirindo ativos e empresas de educação de ótima reputação.
- O livro didático, em relação a esse novo contexto, está fadado a morrer?
- Manoel Amorim: Ele ainda tem vida longa, mas precisa se adaptar, estar 'linkado' à tecnologia. As próprias editoras Ática e Scipione, do grupo Abril, já estão desenvolvendo os conteúdos dos livros didáticos com referências aos seus portais, com atividades que enriquem a leitura. O livro, como nós o conhecemos desde Gutenberg, esse já não existe mais. Ele será substituído por outro, com link tecnológico, livro que tem de estar relacionado com a internet. Nesse universo, outra palavra-chave é a interatividade, da qual faz parte o livro com link tecnológico, e que vai incluir em breve o celular, assim como os 'tabletes' de acesso à internet, caso do iPad. Claro, são requintes tecnológicos destinados a um determinado público, mas a Abril Educação atende a todo espectro social, desde o aluno que freqüenta a escola com o sistema de ensino Anglo ao da rede pública, servida com os livros produzidos pela Atica e Scipione.
- A internet, se bem utilizada, pode intensificar esse aprendizado?
- Manoel Amorim: Com certeza. O Anglo tem o hábito de fazer todos os anos um exercício muito interessante... ele promove um concurso em que os alunos têm de pesquisar na internet um tema que não é óbvio, tema que não consegue ser desvendado com uma simples pesquisa no Google. O aluno tem de se enfronhar na internet para obter as respostas e ganhar o concurso. Tudo isso para estimular o aluno a ser autodidata, usando a tecnologia. Eu tenho três filhos, hoje todos formados e morando nos EUA. Mas eu me lembro de quando o mais velho tinha 13 anos e a mais nova, nove, minha mulher e eu resolvemos sair do padrão das férias na Disney e promover a primeira viagem cultural deles à Europa. E demos uma missão: durante três meses, a cada segunda-feira, eles tinham de apresentar lugares que mereciam ser conhecidas nos países que iríamos visitar - Itália, França e Inglaterra. A mais nova foi responsável pelo tour na Itália. E a pesquisa na internet despertou tamanha curiosidade intelectual na minha filha que ela hoje fala italiano fluentemente! O que demonstra que nós podemos, enquanto instituição de ensino, estimular o aluno a descobrir o mundo na tela de um computador. E com efeito perene.