Milton da Rocha Camargo é profissional de múltiplas utilidades. Desde setembro de 2010, ocupa o cargo de diretor geral dos sistemas de ensino da Abril Educação (Ser e Anglo). Veio de Madri, onde trabalhou por mais de quatro anos como vice-presidente, cuidando do marketing da América Latina na divisão de banda larga. Antes, havia sido presidente da AOL e diretor de marketing da Philips Lighting. Porém, nos anos 80, quando ainda estudava engenharia no Instituto Militar do Rio de Janeiro, dividiu com Manoel Amorim, atual presidente da Abril Educação, a sociedade em duas iniciativas de ensino: o curso que preparou 180 alunos para prestar concurso da Petrobrás e o curso pré-vestibular dos candidatos do CPOR (Centro de Preparação dos Oficiais de Reserva). "Ambos foram um sucesso e mostraram que a preparação para os alunos entrarem na universidade era inadequada", lembra.
Lidar com educação, portanto, está longe de ser um bicho-de-sete-cabeças. Fã ardoroso do trabalho que faz, tem opiniões contundentes sobre o produto que vende: "Mesmo as escolas com corpo docente excelente, ao entrarem em contato com o sistema de ensino, acabam por concluir que é a melhor ferramenta pedagógica à disposição". Seu objetivo: tornar o grupo Abril o maior grupo de sistemas de ensino do país.
Para ler, clique nos itens abaixo:
- Você já foi aluno do Anglo. Que tipo de memória guarda do ensino ali praticado?
- Milton da Rocha Camargo : Entrei em 1975 e me lembro de uma sala enorme - que existe até hoje, aliás! - com o quadro ocupando a parede inteira, ambiente fechado, clima rigoroso, tudo para você se concentrar no que era dado pelo professor... Os melhores professores da minha vida de estudante eu os tive aqui, neste prédio da Tamandaré, bairro da Liberdade, onde o Anglo funciona há mais de 60 anos. É o melhor cursinho de São Paulo, disparado aquele que aprova mais alunos no vestibular das melhores universidades do país.
- E o sistema de ensino Anglo, como ele foi criado?
- Milton da Rocha Camargo : Quando o cursinho começou a atrair um número grande de alunos, a direção resolveu fazer um simulado para avaliar o conhecimento, reunindo os melhores em uma mesma turma. Era um processo de seleção que acontecia a cada mês. Mas, como é que você consegue fazer o aluno mudar de turma sem perder o fio da meada? Foi então tomada a decisão de sistematizar o ensino de modo a que todos os professores estivessem aptos a dar a mesma aula dentro de um calendário estipulado - se fosse feito uma nova prova, os alunos que mudariam de classe não correriam o risco de serem prejudicados. Uma sistematização interna de ensino que possibilitava a todos ter a mesma aula simultaneamente e também permitia que o professor ficasse sabendo que tipo de aula deveria dar naquele momento, sempre levando em consideração o que era exigido no vestibular. Algo que aconteceu por volta de 1970 e foi utilizado, sob a forma de apostilas, no colégio.
- Era uma espécie de pré-vestibular?
- Milton da Rocha Camargo : Exatamente. E o que é o pré-vestibular se não um resumo de tudo o que o aluno deveria ter aprendido no colégio e não conseguiu? Nada mais natural, portanto, do que estender a ideia da sistematização do ensino também para o nível médio (1980) e o nível fundamental (1990). Hoje o sistema Anglo atinge o chamado ensino básico, que apenas não inclui a universidade. Uma história interessante, porque ela tem a ver com a experiência do professor em sala de aula. Um material valioso, resultado da prática - e, especialmente em relação ao ensino médio, está conectado com esse passo fundamental que o aluno dá na vida que é entrar na universidade, melhor, nas melhores universidades, pois é para isso que ele se prepara no Anglo.
- Meses atrás, você cuidava do marketing da América Latina para a Telefonica, em Madri. Agora é diretor na área de educação da Abril, em São Paulo. Uma guinada em sua vida profissional...
- Milton da Rocha Camargo : Uma grande guinada, com certeza. E que tem a ver com a necessidade de deixar um legado. Veja, quando fiz a primeira entrevista para o cargo da AOL, em 2000, aquela história de internet me deixou pouco animado, voltei para casa e disse para a minha mulher que aquilo não era para mim. Quem me entrevistou deve ter percebido por que fui recebido, em seguida, por outro especialista que me contou o que poderia ser feito com a internet, ou seja, a intenção de "democratizar o conhecimento". Aí sim, não tive dúvida: além de ganhar dinheiro, iria fazer um trabalho de valor para a sociedade. A AOL acabou fechando no Brasil e eu fui parar na Telefonica. Uma excelente empresa, mas onde estava de fato comercializando produtos como Pin, banda larga... Eles também tinham sua utilidade, claro, mas não realizavam o meu objetivo. Por isso, quando chegou o convite de trabalhar com educação na Abril, não vacilei: estou trabalhando numa área que, sem dúvida, ajuda a vida dos outros.
- No que consiste a sua principal tarefa?
- Milton da Rocha Camargo : Hoje, o mercado do ensino básico mudou bastante em relação àquele que se dirigia ao professor que só usava livros, ou então, usava livros e apostilas feitas de modo artesanal. Porque a partir do momento que ficou claro o quanto o sistema de ensino é capaz de ajudar a sistematizar as aulas e todo o processo didático, facilitando a vida do aluno e do professor, o mercado foi crescendo e, com ele, a demanda por um produto que também é interdisciplinar, outra de suas qualidades. A conseqüência? É cada vez maior o número de escolas que usam sistemas de ensino em detrimento daquelas que se apóiam em livros didáticos... A minha tarefa primeira, portanto, é fazer com que essa oferta de sistemas de ensino da Abril cresça ainda mais a ponto de se tornar o maior grupo de sistemas de ensino do Brasil. A partir da próxima compra, já estaremos nessa posição, por sinal.
- O livro didático está, portanto, com os dias contados?
- Milton da Rocha Camargo : Não sei se ele está fadado a morrer, porque as escolas diferenciadas que tem autonomia intelectual (como se costuma dizer neste meio, ou seja, um corpo docente excelente e com uma orientação pedagógica melhor ainda), talvez elas sejam capazes de conduzir o processo de ensino usando, sobretudo, os livros didáticos... O que desejo frisar é que mesmo as escolas com professores excelentes, ao entrarem em contato com o sistema de ensino, acabam por concluir que é a melhor ferramenta pedagógica à disposição. Realmente, o livro anda perdendo espaço, mas, se ele vai ou não morrer, acaba por ser irrelevante. O próprio sistema de ensino pode incluir livros didáticos, o que serve para realçar ainda mais a diversidade de linhas pedagógicas entre um sistema de ensino e outro. E o que torna o grupo Abril realmente especial é que ele oferece não apenas sistemas de ensino, mas também livros das editoras Ática e Scipione - a oferta de ensino mais diversificada do País.
- Em relação à linha pedagógica, quais são as diferenças entre os sistemas de ensino da Abril?
- Milton da Rocha Camargo : As linhas pedagógicas indicam que elas atendem a interesses diferentes - não é o caso de dizer que uma é melhor do que outra, ao contrário, a do Anglo se complementa à do Ser. No meu entender, o Anglo é bastante sistematizado, com a aula muito bem definida, quantos minutos o professor tem para expor o conteúdo e quantos minutos por disciplina o aluno tem em casa para estudar para se ter uma ideia do nível de detalhe a que chega o sistema de ensino do Anglo. Porque se o professor der uma lista grande de exercícios para o aluno fazer em casa, ele não vai ter tempo para estudar: mais ou menos 20 minutos diários por matéria. Então, a proposta do Anglo pode ser assim resumida, "aula dada, aula ensinada", além de ajudar o aluno a criar o hábito diário de estudar 20 minutos cada disciplina, uma espécie de reforço, em casa, do que ele aprendeu em sala de aula - o que é necessário para que ele possa acompanhar o conteúdo da próxima aula.
- E o Ser, em que a sua linha pedagógica difere?
- Milton da Rocha Camargo : Ele se baseia na linha construtivista que caminha junto do aluno, ou seja, o professor transmite informação à medida do aprendizado da classe. O Ser traz muito conteúdo digital da Abril e permite um nível de flexibilidade maior na transmissão do ensino quem determina o que vai ser feito de tarefa, por exemplo, é o professor. Esse sistema de ensino coloca à disposição uma cartela maior de exercícios; cabe ao professor escolher aqueles que pretende dar em classe. O professor também tem mais flexibilidade ao poder optar qual tema gostaria de aprofundar, sem abandonar o fato de ser interdisciplinar. É um sistema de ensino chamado de construtivista porque vai construindo o conhecimento à medida que o aluno vai progredindo.
- O que rebate a crítica de o sistema de ensino coibir a iniciativa do professor...
- Milton da Rocha Camargo : Tanto o Ser quanto o Anglo não preenchem a carga horária, ou seja, 30 a 35% das aulas é espaço a ser preenchido por orientação da escola. Ela gostaria de dar mais aulas de inglês ou espanhol? Quer dar aula de xadrez? Nós também oferecemos cursos complementares que servem para preencher esses vazios pedagógicos, damos sugestões de como fazê-lo. Ou seja: a crítica de que o sistema de ensino reprime a criatividade do professor não tem razão de ser. Ao contrário: o jogo é aberto aos professores no momento que se dá a orientação pedagógica, enfatizando o tempo livre, sem conteúdo definido pelo sistema de ensino, tempo esse que deverá ser preenchido por iniciativa dele.
- Levando em consideração as características socioeconômicas do Brasil, o sistema de ensino é ferramenta didática à disposição exclusiva da rede privada de ensino?
- Milton da Rocha Camargo : Não. A rede pública já vem sendo atingida pelo sistema de ensino do Anglo, com mais de 35 mil alunos, quase todos no estado de São Paulo. O Ser está engatinhando, tem apenas três anos de vida, daí não ter ainda atingido esse tipo de clientela. Temos de fato maior penetração junto às prefeituras, atendendo o nível infantil e o Fundamental I. O nível médio, em geral, está sob controle do governo estadual - e, infelizmente, não conseguimos entrar ainda em nenhuma escola.
- Qual seria o grande desafio a ser enfrentado pela sua direção?
- Milton da Rocha Camargo : Administrar e estimular equipes diferentes no contexto brasileiro, onde o produto comercializado tem uma componente pós-venda fortíssima, falo da assessoria pedagógica: sem ela, o sistema de ensino simplesmente não funciona. É ela que visita cada escola, dá palestra aos professores e pais, verifica se o sistema está sendo bem utilizado, quais são as dúvidas - e isso, na escala enorme do nosso País, fazer com que essa assessoria seja realmente eficiente, é um grande desafio. Ela é a ferramenta mais importante de fidelização das escolas conveniadas. Quem oferece um sistema de ensino sem esse tipo de assessoria, está pedindo para ser trocado pelo concorrente em curto prazo. O objetivo, portanto, é crescer e continuar a dar esse apoio a nível nacional. Estamos falando de uma equipe de 150 a 200 pessoas no Anglo, e de outra, de 70 funcionários no Ser, afora os que viajam constantemente por esse País afora, conhecendo in loco cada escola, um total de mais ou menos 30 especialistas.
- Como é feita a avaliação pedagógica junto à clientela dos sistemas de ensino?
- Milton da Rocha Camargo : A avaliação também acabou sendo sistematizada no Anglo e no Ser, ou seja, cada assessoria manda provas que são aplicadas pela escola em sala de aula, uma espécie de ENEM interno que é corrigido por nós. Depois, a escola recebe relatórios com as deficiências etc., um controle normalmente feito duas vezes por ano (ensino fundamental) e bimestral (ensino médio) que demonstra claramente se o sistema está funcionando ou não. É claro que as notas ruins causam situações embaraçosas, afinal, o diretor pedagógico quer fazer sobressair o seu trabalho na comunidade, mas a verdade é que o relatório demonstra também o que precisa ser feito com este ou aquele professor, se ele precisa de reforço para dar melhor a aula, o que vai resultar num trabalho de capacitação desse professor etc. No início, aconteciam casos de professores que não conseguiam aplicar os conteúdos, era um tempo que não existia nenhuma forma de controle, havia resistência do professor e também do diretor... Mas, depois de perceber que o sistema de ensino ajudava a melhorar a aula e o rendimento dele próprio, o professor mudou de comportamento afinal, ele também quer mostrar resultados.
- O conteúdo digital também impõe desafios em curto prazo?
- Milton da Rocha Camargo : Sim. Primeiro o objetivo é padronizar a oferta entre os dois sistemas de ensino do grupo Abril. No Ser, o foco estava em preparar material para o aluno, no portal, há inclusive uma vasta oferta de conteúdo, o acervo digital da Abril, todo ele à disposição do aluno que é estimulado a navegar nesse universo pelas apostilas do Ser. Já o Anglo também tinha esse tipo de conteúdo, mas era direcionado para o professor e a escola - o Anglo preparava o site das escolas, por exemplo, alimentado com um tipo de material que o professor poderia usar na sala de aula. Em um segundo momento, a meta está em integrar o conteúdo digital ao material do sistema de ensino usado no dia a dia, saber dosar, conseguir a interação do tipo agora é hora de entrar no site, e assim por diante. Interação que precisa estar totalmente vinculada com a linha pedagógica em questão, com o material que está sendo utilizado na sala de aula naquele instante... um desafio e tanto, sem dúvida.