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Entrevista

Para o livro vender (sempre) mais

Vera Balhestero, diretora geral da Abril Educação Editoras, tem o horizonte apinhado de desafios. Um deles: tornar a obra didática indispensável em tempos de internet


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16/12/2010 16:27

Texto
Marion Frank

Foto: Marina Piedade.
Foto: Vera Balhestero

Vera: "o desafio é saber como capacitar o professor de modo a que ele tenha mais repertório tecnológico"

O livro didático, versão papel, não satisfaz a mais ninguém - ele precisa ter link à internet. Sinal destes tempos digitais, a que está atenta Vera Balhestero, diretora geral da Abril Educação Editoras desde setembro passado. Formada em administração de empresas na FAAP e com curso de especialização em Tecnologia de Computação em Berkeley (EUA), ela lidera uma equipe de 670 funcionários, somando as editoras Atica e Scipione, Vera, que já foi gerente de sistemas na Mercedez-Bens e consultora na área de seguros, vive um cotidiano marcado de desafios. Exemplo: Atica e Scipione se uniram em 1999 e, com a fusão, surgiu a sobreposição de títulos entre os catálogos. Selecionar coleções, preencher lacunas.

Há livros insubstituíveis, lembra Vera, caso dos clássicos de literatura da Bom Livro ou dos livros de matemática de Luiz Roberto Dante, mas... Tanto Atica e Scipione precisam de fato acertar o passo com a revolução tecnológica em curso, oferecendo algo a mais para a clientela antenada. "No prazo de dois anos, vamos mudar totalmente a maneira de se dar aula, com o professor cada vez mais informado e usando a tecnologia de modo adequado", vaticina ela.

Para ler, clique nos itens abaixo:
A sua trajetória profissional indica uma especialização em administração, atuando nos bastidores de grandes empresas, caso da Abril. Como se sente agora à frente de uma área dedicada à educação?
Vera Balhestero: Em 2004, quando a Abril comprou a parte das editoras Atica e Scipione que estava sob controle da francesa Vivendi, fui contratada para ser diretora administrativa com o objetivo claro de integrar os serviços compartilhados entre as editoras e o grupo Abril. Fiquei um ano unindo áreas, demitindo pessoal, enfim, um "saneamento" bem árido. A seguir, de 2005 a 2010, passei a comandar o setor de operações, que se encarrega de todas as etapas necessárias para materializar o livro, da compra do papel à definição de como será o livro em si, que capa, miolo e acabamento ele terá, além de cuidar da impressão, do armazenamento, da distribuição, enfim, a logística inteira estava sob minha direção. Neste momento, como diretora geral da Abril Educação Editoras, sou obrigada a ter uma visão de cabo a rabo do processo, do comercial e marketing à área de operações (que era a minha antiga ocupação) e à linha editorial, definindo quais lançamentos irão acontecer, quais obras deverão se manter, tanto no que diz respeito aos livros didáticos quanto aos paradidáticos. É um cargo desafiador.
Qual é o maior cliente dos livros produzidos pelas editoras do grupo Abril?
Vera Balhestero: O nosso livro dificilmente é encontrado em livrarias, ou seja, o canal de vendas prioritário está na escola: 70% dos livros são didáticos; 30%, paradidáticos. Este ano estamos entregando 45 milhões de livros da Atica e da Scipione para o governo brasileiro, e outros nove, para a rede privada. Eles vão atender a cerca de 15 milhões de alunos dos níveis Fundamental I e II, onde somos realmente fortes. Então, o nosso relacionamento tem foco nos professores e diretores de escola – a área de comercial e marketing está preocupada em divulgar os lançamentos junto a essa clientela diferenciada, além de dar assessoria pedagógica, explicando ao professor, por exemplo, como ele pode usar o material de modo a enriquecer ainda mais a sua aula.
Sob sua direção também se encontra uma área recém-criada, a Tecnologia de Educação... No que ela consiste?
Vera Balhestero: É um dos desafios desta nova função - estou falando do ensino à distância e da teleconferência, do uso da lousa digital na aula, de fazer versões de planos de aula para o "tablet" e para o Ipad ou ainda de como usar a tecnologia para ajudar o professor não só a melhorar a aula como também a fazer com que ele se aproxime do nível dos alunos. Porque hoje eles estão realmente antenados, já nascem sabendo e fazendo, é a geração digital - e muitas vezes o professor não é capaz de acompanhar o ritmo deles... Então, o desafio é saber como capacitar o professor de modo a que ele tenha mais repertório tecnológico para usar em sala de aula. Nessa nova área, há profissionais que pensam digitalmente em educação e dão suporte às editoras.
Nesse universo dominado pela tecnologia, o livro didático está fadado a morrer?
Vera Balhestero: Não, a morrer, nunca! Está fadado a mudar, isso sim, mas dizer que o livro em papel vai mudar para o "tablet", acho muito difícil, e não apenas no Brasil, mas sim no mundo inteiro. Para a obra paradidática, caso do livro de literatura, o “tablet” é uma solução prática, uma versão que dá flexibilidade. Já o livro didático... Eu não vejo a tecnologia chegando às escolas para substituir o livro físico por um “tablet”; ao contrário, eu vejo a tecnologia apoiando o professor ao oferecer mais recursos para a aula. Biologia e Ciências, por exemplo. O professor pode em um dado momento usar o recurso de um infográfico tridimensional sobre o corpo humano, algo que vai facilitar a explicação do funcionamento do nosso organismo - ou então, sobre a rotação da Terra e do Sol etc. Tudo vai ficar bem mais interessante do que seria com o uso de um desenho estático, sem vida.
Atica e Scipione já estão acertando o passo com o avanço tecnológico atual?
Vera Balhestero: Claro, até porque o livro didático por si só já não satisfaz a mais ninguém, ele precisa ter link à internet. E o que de fato nós - e os nossos concorrentes - hoje vendemos? Livro didático e portal pedagógico, onde o professor tem acesso a conteúdos que podem expandir o que pretende dar em sala de aula. Tanto Atica quanto Scipione estão neste momento renovando seus portais pedagógicos, adicionando conteúdos digitais - caso da recente parceria com a Discovery Education, cujos vídeos já estarão disponíveis no início do próximo ano. Todos os vídeos contam com indicações de como podem ser aplicados nos planos de aula, os chamados planos de aula digital. O professor terá uma lista de planos de aula por disciplina, ele faz a sua escolha, enfim, é de uma riqueza pedagógica impressionante! Trata-se de um material produzido nos Estados Unidos e adaptado para os nossos planos de aula. A riqueza está nessa complementaridade montada por nós. Porque o vídeo por si só não iria ajudar o professor, ele não saberia como usá-lo em sala de aula, ao passo que nós detalhamos o conteúdo, chamando a atenção para os exercícios a serem feitos, os assuntos "linkados", de como o professor poderá estimular os alunos para aproveitar ao máximo o conteúdo de cada vídeo e assim por diante.
O livro didático da era digital é endereçado aos alunos da rede privada?
Vera Balhestero: Esse livro didático, com todos os recursos digitais disponíveis, já é uma realidade no mercado da rede privada de ensino. Aliás, quem não tiver a oferta de um serviço tecnológico de ensino, está fora, ultrapassado. Quanto à rede pública, essa mudança vai demorar um pouco mais para acontecer, ainda mais no Brasil com todas as suas diferenças sociais e econômicas... Porém, de acordo com o investimento que o governo venha a fazer em banda larga nas escolas, por exemplo, a renovação do livro didático pode acontecer antes também na rede pública. Pensando no futuro, não será mais necessário levar esse livro para casa, como hoje é feito por quem freqüenta a rede pública. Porque o aluno vai ter um laptop ou "tablet" ou Ipad e acessar diretamente o conteúdo da aula. Eu acredito que, nos próximos dois anos, vamos conseguir mudar totalmente a maneira de dar aula na escola, com a presença de um professor a cada dia mais bem informado e usando a tecnologia de forma adequada. Ainda hoje se encontram escolas com laboratórios de informática fechados, e isso porque não há quem saiba usar os recursos disponíveis... Ou seja: a transformação do livro didático e a utilização dos recursos tecnológicos implicam em melhorar a capacidade de ensinar do professor. A questão não é só aprimorar o ensino público deste País - há muita escola privada que trabalha com professores que também dão aula na rede pública, apresentando as mesmas deficiências, a mesma falta de informação.
O livro didático, no modelo tradicional, continua a ser bom de venda?
Vera Balhestero: O mercado de livros didáticos vem caindo ao longo dos anos. Há três anos, esse mercado dizia respeito a cerca de 14,8 milhões de livros; hoje, é de 14,3 milhões. É uma queda pequena, mas contínua, e que vem ocorrendo em razão da migração dos livros didáticos para os sistemas de ensino. Algumas escolas entendem os sistemas de ensino como a forma mais moderna de dar aula, com serviços agregados - serviços que os livros só agora começam a apresentar porque estamos correndo atrás para sanar a deficiência, caso dos portais pedagógicos e das assessorias especializadas. Entenda: o sistema de ensino estrutura as aulas, enquanto o livro didático não tem essa função. Aí está o maior desafio, descobrir o que precisa ser feito para tornar os livros didáticos mais atrativos, mais competitivos, perdendo menos mercado para os sistemas de ensino. Agregar o que tem de bom no sistema de ensino de modo a fazer o livro didático vender bem - e sempre.
Consegue desde já antever os investimentos prioritários na sua área?
Vera Balhestero: A tecnologia é outro desafio enorme do cargo que acabo de assumir, ela coloca inúmeras questões sobre o que fazer para não perder o pé do "bonde tecnológico"... No que devemos investir, afinal? Em conteúdos para "tablet" ou lousa digital, em ambos ou em nenhum deles? Como é que devemos nos comportar, olhando para esse mercado que vive um momento de explosão no Brasil, ante tantas mudanças que acontecem quase todas as semanas? Somos líderes de vendas em livros didáticos, mas temos de descobrir o que fazer para continuar na liderança - o mercado, como disse, vem dando sinais claros de que está mudando, priorizando os sistemas de ensino. As editoras precisam se adaptar, agregando mais serviços, por que o tempo de apenas entregar livros na escola e deixá-los nas mãos do professor, bem, esse modelo de negócio da editora de livro didático está mudando completamente.
De que forma a sua área pode contribuir para tornar a educação tão grande ou mesmo maior que o próprio grupo Abril?
Vera Balhestero: Os grandes nomes do mercado são Objetivo e Positivo (esse, o maior sistema de ensino do País), mas a Abril, após a aquisição do Anglo, poderá se tornar a maior fornecedora de sistemas de ensino no Brasil. Hoje o grande volume de vendas em educação ainda vem da área das editoras, é o negócio que ainda sustenta toda a estrutura que vem sendo criada ultimamente... A área sob minha direção também contribui com a oferta de um conteúdo sólido, com nomes consagrados em livros didáticos - e que pode ser adaptado aos sistemas de ensino. E, por fim, a nossa colaboração também acontece por meio da Tecnologia de Educação, de fundamental importância para o conteúdo hoje em produção.


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