A figura pode sugerir fragilidade. Pode, em razão da idade: 83 anos, completos em 22 de abril. "Um dia depois de descobrirem o Brasil descobriram o Juvenal - e o mundo desde então é outro!", garante o autor (e personagem) do chiste, Juvenal Ramos. O espírito, como se vê, continua ágil, assim como o humor. E, se não fosse a catarata atazanando o cotidiano, bem que ele passaria o dia exercitando o que sabe fazer melhor: desenhar.
Atenção: Juvenal Ramos é o pai da árvore da Abril. É dele o símbolo que representa a editora desde o final dos anos 1960. Na época, ganhou um concurso interno, superando centenas de candidatos, de diretores de arte a artistas gráficos. "Eu sabia que tinha de fazer algo diferente", lembra. O resultado ainda hoje atrai pelo traço simples e poderoso. "A árvore simboliza o conhecimento vivo, do que não é capaz de estagnar", diz o criador. Como o seu desenho, aliás.
Juvenal Rodrigues da Silva Ramos, esse é o nome completo do português de Viana do Castelo que vive no Brasil há mais de 50 anos. Ele tem muito o que contar sobre um tempo em que tudo era feito à mão, do layout à arte final, usando pincel, tinta, lápis. Juvenal acumula 40 anos a serviço das melhores agências de publicidade do país, anos dourados que ele soube aproveitar para esmerar o estilo, o modo de expressar suas ideias, sua visão do mundo. Até o dia em que tudo mudou, com a chegada do computador. Mas... essa é uma das histórias que merecem ser narradas pelo criador. Atenção: Juvenal é bom de papo - e de dica. Em especial, a quem souber se inspirar em sua história para vencer na vida.
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- Por que você deixou Portugal e veio para o Brasil?
- Juvenal Ramos: A vida não estava fácil pra ninguém na terrinha - era o pós-guerra e o emprego, pouco... Alguns amigos já haviam se instalado no Rio de Janeiro, por isso, resolvi tentar a mesma sorte. Tinha 27 anos.
- Você chegou a trabalhar na sua cidade natal, Viana do Castelo?
- Juvenal Ramos: Sim, eu ganhava a vida desenhando navios, trabalhava para um estaleiro, fazia desenhos técnicos. Meu pai gostava de pintar nas horas livres, e eu ficava observando o jeito como ele trabalhava com as tintas, o crayon... Fiz escola industrial, em Portugal. Foi lá que aprendi os rudimentos de desenho.
- Como foram os primeiros tempos de Brasil?
- Juvenal Ramos: Cheguei em 1954, lá pelo meio de agosto - lembro que Getúlio Vargas morreu uma semana depois, era uma época bastante atribulada por aqui... Mesmo assim, tive sorte, porque logo consegui ocupação na Klabin, indústria conhecida no ramo de papéis e embalagens de papelão. Comecei fazendo ilustrações para a caixa de fósforos Fiat Lux - sim, foi no Brasil que comecei a entender o ofício de ilustrador, era bastante influenciado pelo estilo do Borjalo (Mauro Borja Lopes), que ficou conhecido pelo trabalho na TV Globo... Por fim, acabei transferido como diretor de arte para São Paulo.
- Foi nesse momento que você entrou no mundo da publicidade?
- Juvenal Ramos: Sim, eram os anos 1960, 1970, e o meu trabalho começou a ser reconhecido por grandes nomes da propaganda da época. Gente como o diretor de arte Manuel Bandarra, por exemplo, que me recomendou apostar na criatividade e deixar de ser tão técnico. Trabalhei com ele e com outros profissionais famosos - caso do Sergio Graciotti, da MPM. Foi na equipe dele que participei da campanha publicitária do Fiat 147, quando do lançamento do carro no Brasil. Ao todo, foram 40 anos trabalhando para as maiores agências do País: Norton, DPZ, Lintas, ALMAP BBDO...
- E a Abril, como a editora entrou na sua vida?
- Juvenal Ramos: Naqueles anos 1960, eu também colaborava como ilustrador para revistas técnicas da editora, a Transporte Moderno e a Química e Derivados, entre outras. A Abril ainda funcionava na Praça das Bandeiras, no centro de São Paulo. Foi quando a família Civita resolveu criar um novo símbolo para a empresa, algo bem pensado, porque aquela árvore original era mesmo espalhafatosa... Houve um concurso e eu tirei o primeiro lugar. Sabe, eu tinha um estilo de desenho escultórico, limpo, sempre procurei agrupar formas. Daí a minha árvore ter chamado a atenção, ela era realmente diferente.
- Como era trabalhar com ilustração nesse mundo que funcionava sem computador?
- Juvenal Ramos: Era bom, sabia? Tudo feito a mão, as ferramentas de trabalho eram o papel vegetal, o nanquim, o lápis de cor, os lápis nº 4 ou nº 5 - eu tinha de usar o dedo para fazer sombra! Além das ilustrações, também fiz muita charge política, caricatura. Sempre fui crítico, o que tornava o meu desenho altamente contundente. Mas aí chegou o computador e mudou tudo... Acabei me aposentando nos anos 1990.
- Para quem deseja ser alguém na profissão, que conselhos você daria?
- Juvenal Ramos: Primeiro, é importante saber rir. Segundo, é necessário trabalhar, trabalhar, trabalhar. Depois, é preciso reconhecer que não se sabe nada, daí a necessidade de estudar sempre. A quarta regra vai mais longe com essa ideia: é importante ter informação. Sem ela, não se chega a parte alguma. No meu caso, por exemplo, aprendi muito pouco de desenho na escola, tive de ir atrás desse conhecimento... Eu vivi para desenhar, essa foi a grande paixão da minha vida. Por isso, recomendo ler muito - e ler também o que vem de fora.
- E da sua experiência no convívio profissional, o que teria a recomendar?
- Juvenal Ramos: Há gente de todo tipo, os bons e os ruins, os maldosos e os generosos, seja qual for a atividade. Isso vai existir sempre... É preciso perseverar, engolir sapos para depois cuspir, se for o caso. Porque é preciso sobreviver - e lutar muito para vencer. E, quem tiver uma ideia e se sentir inseguro a respeito dela, eu digo para insistir, insistir, insistir. Porque um dia ela vai ganhar forma e sair, vir à tona.