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TECNOLOGIA

Plataforma pioneira

Diretora de Tecnologia da Educação, Ana Teresa Ralston já tem traçado o caminho de como aprimorar conteúdos e aproximar o professor do universo digital


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31/01/2011 12:05

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Marion Frank

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Foto: Ana Teresa Ralston está no grupo desde abril de 2010

Ana Teresa Ralston está no grupo desde abril de 2010

Para expor o que pensa, ela rabisca. Ou procura, no computador, o arquivo de ideias de design moderno, bem de acordo com o que hoje se espera dessa ferramenta. 

Ana Teresa Ralston está no grupo desde abril de 2010, diretora de uma área que é sinônimo de atualidade: tecnologia de educação. Quando expõe as ideias, além de rabiscos, usa o vocabulário singular – fala, por exemplo, dos “nativos digitais” hoje com 30 anos, a primeira geração nascida com a tecnologia; e das “habilidades do século 21”, um dos desafios da sua área na relação com o professor, ou seja, torná-lo razão de investimento para que possa adquirir as necessárias competências de modo a usar a tecnologia no que tem de melhor. 

Pedagoga formada no Mackenzie, em São Paulo, Ana Teresa faz parte de um grupo pioneiro de especialistas em tecnologia da educação no País. Já trabalhou na Microsoft, na TV Cultura. E já viajou o mundo para conhecer de que modo os recursos tecnológicos podem ser aplicados à arte de ensinar. “Não vendemos livros, mas sim conteúdo. Por isso, o livro vai continuar a existir não em papel, mas sim em outras plataformas”, diz, sem pestanejar. Trabalhar na Abril é um retorno prazeroso ao início de carreira, quando foi professora do nível fundamental. “Neste grupo, a educação é o objetivo principal – a tecnologia serve apenas de meio. Daí a grande paixão.”

Para ler, clique nos itens abaixo:
A sua especialização é um requinte dos tempos atuais... Como ela está sendo integrada ao grupo Abril?
Ana Teresa Ralston : Faço parte, como diretora, de uma área chamada de Tecnologia de Educação e Formação de Professores. É a grande aposta da Abril Educação, aquela que envolve a família Civita e o fundo BR de investimentos. Mas tudo é muito novo, inclusive para o próprio grupo – vamos dizer que as grandes transformações da área de educação começam a acontecer de 2004 para cá, e a Abril Educação como tal, ela se posiciona só a partir de 2009. Estamos, portanto, falando de um movimento que se consolida para o mercado dessa data em diante – e que tem seu boom em 2010, com a atração de investidores, a aquisição de empresas etc. Fazer da Abril Educação uma empresa tão grande ou maior do que o grupo Abril é algo que se ouve dizer nesta casa apenas de umas semanas para cá.”
Como a tecnologia de educação interfere na produção do livro didático, por exemplo?
Ana Teresa Ralston : O conteúdo digital dá voz ao livro, ou seja, o conteúdo desse livro é estendido por outras plataformas – site, vídeo etc. Há o livro da Serafina, por exemplo, da Cristina Porto, que o conteúdo digital cria outra relação ao vestir a personagem, lhe dar voz e assim por diante. É dirigido a um público infantil, certo, mas também atinge a professora que passa a dispor de recursos que estimulam a ‘leitura’ de outra maneira. Um modo lúdico, prazeroso, que precisa ser aprendido – em sua maioria, os professores não sabem ainda lidar com essas plataformas.
Com o conteúdo enriquecido pela tecnologia, o livro didático, tal como existe hoje, ganha uma sobrevida?
Ana Teresa Ralston : Veja bem, hoje temos um mercado de 45 milhões de livros didáticos vendidos por ano pela Abril Educação, ou seja, pelas editoras Atica e Scipione. É um negócio que está vivendo o seu ápice – momento adequado, portanto, de a empresa se repensar para os próximos 20 anos. Porque se está no ápice, atingiu o máximo e daí em frente será a queda, certo? O melhor momento de se fazer mudanças é quando elas ainda não precisam ser feitas, é o que se ouve dizer neste meio... O que está certo é que o livro didático como existe hoje não viverá muito mais. Acontece que nós pensamos no formato – e não no que vai dentro dele. Temos o hábito de dizer que vendemos livros, mas o que estamos vendendo é conteúdo. A plataforma onde esse conteúdo está incluído é definida por estratégias de entrega. Ou seja: o livro vai continuar a existir, mas não em papel – ele vai ter vídeo, por exemplo.
Será um livro de múltiplas plataformas...
Ana Teresa Ralston : Exatamente. Agora, como esse ‘livro’ será entregue, bem, essa é uma estratégia ainda a ser definida, processo bem longo de ser concluído... E tem gente por aí dizendo que o mercado tradicional está acabando! Eu me lembro de quando comecei a trabalhar com tecnologia e havia quem dizia que no dia seguinte todo mundo estaria conectado... Pois, eu ainda dou hoje palestras para quem trabalha com tecnologia de educação no governo falando exatamente sobre isso, já se passaram 15 anos que falamos sobre o tema e o amadurecimento das estruturas para levar a essa mudança continua a se mostrar mais lento que o discurso – e não poderia ser de outra maneira!
Se cada aluno tiver um computador, o livro perderá a razão de existir porque o conteúdo estará disponível nesse computador, certo?
Ana Teresa Ralston : Pode ser até isso aconteça, mas quando? É necessário um tempo de amadurecimento até porque estamos tratando de um universo de 50 milhões de alunos da educação básica. Quando se fala que o governo compra um livro tradicional a R$ 6 ou R$ 8, imagine o que terá de acontecer para a tecnologia chegar a esse custo! E o governo está comprando conteúdo mais plataforma – o desafio será, portanto, chegar a esse valor oferecendo conteúdo em outras plataformas. Hoje os computadores mais baratos estão na faixa de R$ 500, o que dá, fazendo um cálculo elementar, R$ 508 no mínimo... É por isso que eu digo que a mudança tem de ser justificada numa sentença matemática. Aliás, em minha opinião, a questão tecnológica já está resolvida – temos versões digitais do livro, animações etc. que podem melhorar ainda mais. Porém, o que ainda não se sabe é como baratear a tecnologia, muito menos como resolver a relação afetiva que se tem com o modelo tradicional de livro.
O professor brasileiro, em geral, já sabe lidar com os recursos tecnológicos à disposição?
Ana Teresa Ralston : Há um pressuposto básico, a de que o professor que trabalha por aí não é um nativo digital. Na verdade, a primeira geração de professores nativos está surgindo agora, eles têm cerca de 30 anos e nasceram com a tecnologia, ela faz parte da vida deles. Daí a conclusão de os professores, em sua maioria, serem imigrantes digitais, eles têm sotaque e trabalham com cacoetes de quem recebeu a tecnologia no meio do processo de aprendizado. Costumo dizer que a tecnologia tem um perigo, ela é uma lente de aumento – se o professor der uma aula ruim sem tecnologia é uma coisa, mas se ele der uma aula ruim com tecnologia, aí ela vira um monstro!
Como a Abril Educação pretende ajudar o professor mal preparado do ponto de vista tecnológico?
Ana Teresa Ralston : Trabalhar de modo a que ele se sinta confortável com o universo da tecnologia, tanto na oferta do apoio pedagógico quanto no desenvolvimento dos conteúdos digitais, esses são os objetivos da Abril Educação. É preciso investir em conteúdos, no seu acervo, acervo que precisa ser distribuído em várias plataformas e sirva de material de apoio com valor agregado ao livro, ao sistema de ensino etc. Ou seja: nós trabalhamos com as equipes da Atica e da Scipione que, ao pensarem em conteúdo para os livros, também fornecem informação para ser elaborada em conteúdos digitais. E também é preciso dar apoio ao professor de modo remoto ou não, por telefone, curso, livro, enfim, de como ele vai usar o conteúdo digital, de quais instrumentos ele pode usar na educação, de como ele pode inovar com a tecnologia em sala de aula. A maioria dos professores ainda não consegue articular todas as plataformas, como é que uma vai interagir com a outra... Se bem aplicada, a tecnologia pode expandir o conteúdo, ampliar e promover a análise crítica. Fico com a impressão de que nós andamos tanto, foi preciso passar anos e anos para voltar à educação do modelo ‘socratiano’, onde havia sempre alguém que questionava, fazia refletir, transformando cada aluno em um ser crítico.
Quais são as ferramentas tecnológicas que mais se empregam em educação?
Ana Teresa Ralston : As ferramentas tecnológicas de relacionamento mais utilizadas para o desenvolvimento de conteúdos utilizados em educação hoje são os portais, as redes sociais (Face Book, Twitter), o modo como esses ambientes de relacionamento aproximam professores e alunos, e essa possibilidade de falar com alguém normalmente inacessível (Skype). O grande ganho que a Abril traz para esse universo é reunir especialistas na tarefa de pensar conteúdo para educação, gente de destaque que antes tinha o foco na plataforma tradicional, impressa, e agora terá de pensar em entregar esse conteúdo em outra plataforma – gente que terá de evoluir, o que é perfeitamente normal de acontecer no mercado.
E quais seriam os principais desafios que a tecnologia de educação tem pela frente?
Ana Teresa Ralston : Eles estão exatamente na área em que a Abril está mais alinhada: o acompanhamento do professor, o investimento na sua educação continuada e no seu desenvolvimento profissional (tendência mundial, aliás, países de ponta estão investindo nisso...), habilidades e competências para que esse professor seja capaz de mudar, fazer esse professor entender que ele não é mais o centralizador de conteúdo, mas sim o seu facilitador, ou seja, o desenvolvimento das “habilidades do século 21”. E, ainda na área do professor, outra meta a ser conquistada está na formação inicial, parar de produzir pessoas com deficiência na formação – na Finlândia, por exemplo, para se tornar professor é preciso estar entre os 10% melhores da população. Claro, não dá para comparar a Finlândia com o Brasil, mas dá para pensar no parâmetro utilizado por esse país. Porque se dá o inverso entre nós, são os 10% que não gostam de estudar que acabam por se tornar professores. Esse pilar da docência precisa ser trabalhado desde o início, além da educação continuada e do plano de carreira.
O que muda quando a tecnologia é utilizada em sistemas de ensino?
Ana Teresa Ralston : Quando se pensa em produzir conteúdo digital para um livro, o processo é simples, basta identificar no livro já pronto os pontos que podem ser aproveitados para agregar conteúdo digital. Em relação ao sistema de ensino, porém, o conteúdo digital nasce junto – por ser trabalhado aula a aula, o sistema de ensino indica onde deveria ser acessado o banco de conteúdos para obter mais informações sobre aquele ponto da matéria. Eu penso que cada vez mais o processo de criação dos livros vai se aproximar do sistema de ensino – outra tendência que se vê nos Estados Unidos com coleções que atuam como se fossem mini-sistemas de ensino. A propósito, sistema de ensino é um fenômeno brasileiro, nem na América Latina há algo semelhante... Para mim, é a resposta da sociedade civil a uma falha da educação praticada no País: quando um sistema não vai bem, criam-se estratégias para sanar o problema – no caso, uma bússola para ajudar o professor a dar a sua aula.
A tecnologia pode servir de ferramenta para tornar o aluno autodidata?
Ana Teresa Ralston : Quando comecei a trabalhar com tecnologia, lembro-me de gente dizendo que a figura do professor iria desaparecer, o que criou pânico geral. Hoje acredito que existem áreas de ensino em que é possível dar um curso sem a presença do professor, o que já foi provado com os cursos à distância, por exemplo. Agora, quando se fala em educação básica, acho que vai ter cada vez mais gente pensando e mudando o papel do professor – a dependência do professor enquanto instrutor vai diminuir ou até sumir, mas ele deverá ganhar outro papel, uma espécie de Sócrates, alguém que vai instigar a discussão até porque os alunos farão perguntas diferentes, elas vão gerar pesquisas etc. O professor descerá do tablado para dar aula entre os alunos.
A tecnologia de educação é um recurso só disponível às classes mais favorecidas?
Ana Teresa Ralston : O acesso à internet está sendo democratizado em nosso País. Hoje 72% dos alunos da rede pública de ensino já estão conectados à internet, o que significa aproximadamente 49 mil escolas públicas. É claro que a qualidade do acesso pode ser bem diferente quando relacionada às classes endinheiradas – há escolas da rede particular cujos alunos já trabalham com I-pad! Mas o fato é que a internet deixou de ser requinte exclusivo dos brasileiros economicamente mais favorecidos.
As diferenças de ensino no País continuam a ser bem marcantes...
Ana Teresa Ralston : Já demos um passo importante que foi o início da avaliação escolar, algo que ninguém se atrevia a fazer. O PiSA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) e o IDEB (Índice de Desenvolvimento de Educação Básica) são grandes conquistas, eles mudaram o parâmetro, criaram uma fotografia e estabeleceram uma expectativa. Se essa é a ideal, é outra questão, mas ao menos agora é possível traçar um plano. E, ainda que as melhoras sejam pequenas, elas são marcantes. Os secretários de educação municipal e estadual começam, por exemplo, a dar resposta aos resultados das provas, às deficiências apontadas, procurando material adequado para atender a essas falhas. É a personalização do apoio. A avaliação é um marco que aponta estratégias para alcançar a evolução do ensino.
Para 2011, qual é a prioridade de investimentos na área sob sua direção?
Ana Teresa Ralston : Ela está na criação e no aprimoramento do acervo digital (hoje com 14 mil objetos, entre parecerias e produção interna), ele tem de ser cada vez melhor integrado ao livro, idem para os portais – em fevereiro próximo, aliás, vamos lançar todos os portais remodelados, seja o do SER, o da Atica, o da Scipione, o da Abril Educação etc., para que se tornem ferramentas de relacionamento capazes de aproximar o professor desse mundo digital. Portal, rede social e ensino à distância, aí estão três estratégias tecnológicas de educação prioritárias e que vão concentrar os grandes investimentos. Lançamentos? Portais com acervos de conteúdo de educação ainda mais qualificados, caso da Discovery e da versão digital do Almanaque Abril.


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