Unificar o vestibular das 55 universidades federais, influenciar os processos seletivos das particulares e reorganizar o currículo do Ensino Médio. Esse era o principal objetivo do plano de reformulação do Enem, apresentado pelo MEC no início de 2009. Poucos dias após a aplicação do exame, que aconteceu nos dias 5 e 6 de dezembro de 2009, a sensação foi de que o resultado do novo Exame Nacional do Ensino Médio ficou aquém do esperado. O indicador mais preocupante foi o número de estudantes que desistiram de fazer a prova: dos cerca de 4,1 milhões de inscritos, apenas 2,6 milhões compareceram.
Embora não tenha tido 100 % de adesão das universidades federais, na época de sua implantação, a aceitação do novo exame entre as instituições públicas, inicialmente, não foi ruim. Em 2009, das 55 universidades federais, 26 adotaram o Enem como fase única de seus processos seletivos e apenas duas não aderiram de forma alguma. A princípio o MEC considerava implementar as mudanças apenas em 2010, mas se disse pronto para executar o novo formato já em 2009, e assim o fez.
Às vésperas da prova, que se daria nos dias 3 e 4 de outubro, surgiram sinais de que talvez o MEC não estivesse tão preparado assim para mudanças profundas em tão pouco tempo. Muitos dos candidatos reclamavam da falta de critério na seleção dos locais de prova: alguns teriam de se deslocar por mais de 30, 50, 80 e até 300 quilômetros de casa para fazer o exame. Mas, o maior golpe viria no dia 1º de outubro, quando o jornal O Estado de S. Paulo denunciou a tentativa de venda de um caderno de provas do Enem. A investigação do caso revelou uma série de fragilidades na logística do consórcio contratado pelo ministério, o Connasel.
Descontente com o serviço das empresas do conglomerado, o MEC rompeu com o consórcio e, amparado pelo exército e os Correios, se encarregou da logística. As provas foram adiadas para os dias 5 e 6 de dezembro e os problemas com as distâncias dos locais de prova pareciam ter sido resolvidos. Acontece que a nova data conflitava com o cronograma de alguns dos vestibulares mais tradicionais do Brasil, como USP, Unicamp, FGV e PUC, que deixaram de considerar a nota do Enem. Para o Inep, essa é a explicação mais plausível para o alto índice de desistências. Mesmo assim, comemoraram o fato do número de alunos que realizaram a prova ter sido maior que o de concluintes do Ensino Médio. O coordenador geral do sistema Anglo de ensino, Nicolau Marmo, tem uma opinião diversa. Embora concorde que a exclusão do Enem de vestibulares concorridos tenha afetado a abstenção, para ele, o que mais pesou foi a perda de credibilidade do Enem. "Com toda essa confusão de quebra de sigilo da prova, pessoas que não conseguiram chegar ao local de prova pela distância e divulgação de gabaritos errados o Enem ficou desmoralizado".
Atualmente, o Sistema de Seleção Unifica (Sisu) que, desde 2010, tem seu rankiamento baseado nos resultados do Enem, é aderido por cinco universidades estaduais, 39 federias e 38 Institutos Federias de Educação, Ciência e Tecnologia. Subvertendo a evasão histórica devido à problemas durante a aplicação das provas nos últimos anos, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) prevê 6 milhões de inscrições para o Enem 2011. Este ano, o Exame será supervisionado pelo Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro) e por uma empresa de governança e gestão de risco para evitar que os erros de aplicação da prova ocorridos em anos anteriores se repitam.
Substituto do vestibular
Nicolau Marmo é um dos defensores de que o Enem não deve substituir o Vestibular tradicional. "Não é possível com uma única prova avaliar o Ensino Médio e selecionar para as universidades. O Enem avaliou muito pouco o conteúdo do ensino médio. Da maneira como o exame foi feito, corremos o risco de aceitar um aluno no curso de engenharia que não tem conhecimentos básicos de matemática, física e química", disse.
Para a professora Vera Lucia Antunes, coordenadora geral do curso e colégio do Objetivo, o conteúdo curricular não foi negligenciado, mas muitas foram as falhas. "A prova foi de qualidade, embora não tenha tratado de todos os itens de cada disciplina de maneira homogênea. Além disso, o tempo dado para resolvê-la não foi adequado - 3 minutos por questão era muito pouco", queixou-se.
O único consenso é que a falta de organização da prova tirou a credibilidade do Enem. "Se o Enem for bem feito daqui pra adiante, voltar a ser confiável, o Inep vai conseguir fazer uma prova capaz de substituir o vestibular. Mas pra isso é preciso contratar gente competente", disse Vera Lucia. Até mesmo os alunos, que sempre viram o Enem com bons olhos, frustraram-se com o exame. "Quando nossos alunos souberam que o Enem não ia entrar na FUVEST acharam bom. O exame perdeu a credibilidade que havia conquistado em 11 anos", afirmou o coordenador do Anglo.
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