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Boneca é coisa de menino, sim: por uma educação menos sexista

Rosa para meninas, azul para meninos? Não mais! Rever velhos estereótipos e preconceitos desde a infância é a saída para um mundo mais igualitário


01/09/2015 13:22
Texto Bruna Nicolielo
Claudia
Foto: Josh Davis/Flickr

Na casa de Pedro, 3 anos, os carrinhos dividem espaço com as bonecas. O menino gosta de brincar de casinha e fazer comidinha. Oferecer esse tipo de brinquedo foi ideia de sua mãe, Carolina Faria Alvarenga, que pesquisa a relação entre gênero e educação. "Ele sempre ganhava carrinhos dos parentes; então, quis estimular outras brincadeiras." O mesmo vale para a irmã, Ana, 1 ano e 11 meses, que pode escolher uma diversidade de atividades, mas prefere as mais agitadas, como andar de velotrol e bicicleta com rodinhas. As duas crianças também brincam juntas, em atividades de "menino" e "menina". A princípio, a família estranhou essa postura, mas se acostumou e hoje já presenteia os dois seguindo os mesmos princípios de Carolina, que prefere brinquedos de madeira aos de plástico e bonecas de pano, com menos detalhes, por acreditar que eles estimulam a imaginação dos pequenos. Essa postura mais livre ainda causa questionamentos. Em um passeio com os pais pelo centro de Lavras (MG), onde moram, Pedro quis levar uma boneca. Duas outras crianças manifestaram espanto ao vê-lo na rua com o brinquedo. A avó de um deles tentou por panos quentes dizendo: "Ele está segurando a boneca da irmãzinha". Carolina interviu explicando que o dono era mesmo o garoto.

Muitas situações como essa, aparentemente comuns reproduzem concepções de gênero preestabelecidas e quase sempre equivocadas. "Esses padrões, de uma época em que a principal função da mulher era ter filhos, foram sendo internalizados através dos tempos e ainda hoje persistem, apesar das conquistas femininas", aponta Teresa Creusa Negreiros, professora da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro. Ao longo do século 20, ganhamos o direito ao voto, ingressamos no mercado de trabalho, fomos à universidade, adiamos a maternidade e compartilhamos os gastos com a manutenção da casa. Tudo isso embaralhou os papéis tradicionais. "Atualmente, há uma linha muito tênue sobre o que é ser homem e o que é ser mulher, além de uma série de atitudes e necessidades que desmontam as características de cada gênero", diz a psicóloga Maria Helena Vilela, diretora executiva do Instituto Kaplan, em São Paulo.

Com tantas mudanças, por que ainda existem comportamentos considerados femininos ou masculinos? Por que até mesmo a forma de brincar reproduz velhos estereótipos? "Perpetuar essas diferenças limita o processo de aprendizado, tolhe oportunidades para ambos os sexos e incentiva futuros preconceitos", explica Constantina Xavier, professora da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) e coordenadora do grupo de trabalho sobre gênero da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação. Para alguém que passou a infância aprendendo que só menina brinca de casinha, fica mais fácil se tornar um adulto que acredita que as tarefas domésticas são estritamente femininas, por exemplo. "Vemos implicações disso na vida de muitas mulheres que não contam com a ajuda do parceiro para cuidar dos filhos e da casa", aponta Carolina Faria Alvarenga, professora da Universidade Federal de Lavras, ela própria mãe de um menino que gosta de bonecas (veja a história dele e de outras crianças nos quadros). "Ao fazer isso, os garotos aprendem a cultivar relações de cuidado, afeto e respeito", defende a antropóloga Michele Escoura, que pesquisou como as noções de gênero são construídas em crianças de 5 anos de escolas públicas e particulares do interior de São Paulo. Ela observou que os pequenos reproduzem a fala do adulto e modelos de comportamento que reforçam a dicotomia homem-mulher.

A escola, muitas vezes, também colabora para a perpetuação dessas crenças ao manter divisões entre os sexos nas brincadeiras e reforçar estereótipos, quando, por exemplo, uma professora elogia a doçura deuma aluna e a objetividade de um aluno ou justifica a agressividade como algo próprio dos garotos. Felizmente, as coisas estão começando a mudar. Em 1997, orientações para trabalhar com a questão da sexualidade foram incorporadas aos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). Em 2009, foi a vez das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil incluírem o tema. Hoje, quase todos os cursos de graduação em pedagogia têm disciplinas relacionadas a gênero. Como resultado, muitas instituições elaboram ações para reduzir a desigualdade e os preconceitos. É o caso da Escola Municipal Ernani Silva Bruno, em São Paulo, e da Escola Henfil, em Belo Horizonte, em que meninos e meninas são estimulados a brincar do que quiserem e os professores recebem formação constante para poder intervir adequadamente. Já no Colégio Ofélia da Fonseca, também em São Paulo, todos participam juntos deaulas de dança, taek-won-do, capoeira e natação. "O ambiente escolar é um espaço importante de reflexão sobre a superação de desigualdades", diz Constantina. O papel dos professores, assim como dos pais, é respeitar as escolhas das crianças e supervisioná-las sem censurar. Segundo a especialista, discussões sobre cores e brincadeiras sem distinção de gênero podem ser propostas a partir da educação infantil.

Confira abaixo 3 passos para uma educação menos sexista

1. Gostos e comportamentos são aprendidos e vivenciados com base naquilo que é oferecido aos pequenos. Proponha brincadeiras diversas e brinquedos que fujam dos estereótipos.

2. Dê o exemplo: a criança reproduz o discurso do adulto; portanto, cuidado com piadas e preconceitos. Evite proferir frases como: "Isso é coisa de menina" e "Garotos não choram".

3. Peça ajuda tanto das filhas quanto dos filhos para realizar as tarefas domésticas. Cobre o cumprimento delas com a mesma ênfase para os dois. E envolva seu parceiro nessas atividades também.


 

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