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Por que investir em Educação pública?

Votorantim, Itaú, Bradesco, Intel: siga a experiência de algumas empresas que se empenham na melhoria da Educação brasileira


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22/07/2009 18:42

Texto
Patrícia Cerqueira

Foto: Cintia Sanchez
Foto: abre

Para investir na educação é preciso conhecer os números no Brasil e informar-se sobre suas carências e deficiências

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Em 2001, quando o Pisa foi divulgado, o banqueiro Roberto Setúbal, do Itaú, assustou-se com o desempenho ruim dos estudantes brasileiros, que ficaram na lanterna entre os 41 países participantes. Setúbal questionou a direção da Fundação Itaú Social, da qual é presidente, de que forma a instituição poderia contribuir para melhorar a classificação brasileira. De uma série de conversas, surgiu, em 2002, um programa para formar professores a incentivar a leitura e desenvolver a escrita, dos alunos, em alguns gêneros literários, como a poesia: o Escrevendo o Futuro. O projeto incluía um concurso de redação para alunos a partir da 4ª série, premiando os melhores. Cinco anos depois, em 2007, o concurso de redação integrou-se ao PDE (Programa de Desenvolvimento da Educação), por iniciativa do Ministério da Educação, que viu nele um programa eficiente para se tornar política pública de Educação. Mudou o nome para Olimpíada de Língua Portuguesa - Escrevendo o Futuro. No ano passado, atingiu 98% das cidades brasileiras, atingindo 55 mil escolas, 200 mil professores e 6 milhões de alunos. Chegou até a escola Professor Nelson Gomes Caetano, conhecida como Jova Três, onde boa parte dos alunos da 4ª série não sabem ler nem escrever. No ano passado, para surpresa de todo, uma das crianças da escola chegou à final do concurso e todos os colegas de sala terminaram o ano lendo e escrevendo com segurança. "Investir na educação foi uma escolha estratégica do banco, que tem um compromisso com o desenvolvimento do país, mas que também acaba se beneficiando com o avanço educacional de sua população", afirma Ana Beatriz Patrício, diretora da Fundação Itaú Social.

A participação do setor privado na Educação já faz parte da realidade de muitas escolas brasileiras. Um dos principais indicadores é o estudo do Ipea de 2006. Ele mostra que, em 2004, 600 mil empresas aplicaram juntas 4,7 bilhões de reais em ações sociais (25% desse valor foi para a educação). O estudo similar de 2000 apontava 462 mil empresas investindo no terceiro setor - dessas, 19% tinham foco na educação. Atualmente, há mais de 19 mil instituições, entre ONGs e fundações privadas, atuando pela melhoria da qualidade da educação no país, segundo o IBGE.

O empresariado pode ser um parceiro importante na melhoria do sistema educacional do país. Empresas de diversos ramos de atuação têm implementado programas educacionais como parte de suas ações de responsabilidade social e, com isso, pretendem beneficiar tanto a comunidade atingida, quanto a própria organização, que tem como retorno garantido o reconhecimento de seus funcionários e, em longo prazo, a possibilidade de uma mão-de-obra mais qualificada. "Essas ações levam décadas para tomar corpo e, afora um terremoto institucional, não desaparecem tampouco, já que respondem a um problema específico que o Estado sozinho não está conseguindo resolver", diz o economista Claudio de Moura de Castro, conselheiro do movimento Educar para Crescer.

Outro indicador importante da participação é o resultado Aprova Brasil, cruzamento de dados do resultado dos alunos no exame Prova Brasil do Ministério da Educação e que buscou saber onde estão as melhores escolas públicas do país. Segundo Moura e Castro, algumas das 33 escolas melhores colocadas no Aprova Brasil, recebem ações do empresariado brasileiro. Outros sinais positivos vêm dos Censos elaboradores pelo Grupo de Institutos, Fundações e Empresa (Gife), de São Paulo, fundado para orientar, aperfeiçoar e difundir as ações privadas e gerar impacto social positivo. Pelo Censo Gife de 2005, 34 instituições associadas ao Grupo declararam ter investido 124 milhões de reais em projetos focados na Educação. Quando o Gife repetiu o Censo em 2007/2008, 55 empresas declararam ter colocado cerca de 400 milhões de reais em projetos educacionais, atingindo mais de 52 mil entidades e cerca de 4 milhões de pessoas. "Na década de 90, os departamentos sociais das empresas eram meras perfumarias das companhias", diz Fernando Rossetti, secretário geral do Gife. Com o tempo, o setor privado despertou para a necessidade de planejar ações sociais de forma profissionalizada, com benchmark, diagnóstico, plano de metas e objetivos e avaliações de impacto. O Governo Federal tem feito a sua parte, segundo Rossetti, melhorando a base de dados sobre o panorama geral da educação brasileira. "Ao introduzir os exames de avaliação e produzir resultados, as empresas têm em mãos dados para saber como, onde e por quanto tempo vão contribuir", diz Rossetti. Quando há diagnóstico prévio, evita-se a sobreposição de trabalhos, algo que ainda ocorre muito atualmente.

Para saber quais as principais iniciativas privadas voltadas para a melhoria da Educação brasileira e orientar empresários interessados em começar a investir na área, consultamos fundações e institutos de empresas privadas, além do Gife, do Idis e do Parceiros da Educação. O resultado é a série de reportagens que você lê a seguir:

Para ler, clique nos itens abaixo:
1. Por que investir na Educação?
Pesquisas em todo mundo mostram que a melhoria da Educação de um país está relacionada ao incremento da produtividade e competitividade das empresas. Um estudo do Banco Mundial, por exemplo, aponta que uma educação adequada na infância e adolescência pode produzir um impacto de até 70% mais na produtividade geral de uma empresa, se comparada à concorrentes sem funcionários qualificados. A mesma pesquisa aponta que as deficiências do sistema educacional brasileiro formam um trabalhador que quase não desenvolve habilidades importantes para o trabalho, como concentração, capacidade de abstração e agilidade mental. Essa formação deficiente se reflete, diretamente, na qualidade da produção.

A experiência coreana também mostra, na prática, o impacto de uma Educação de qualidade. No início dos anos 50, a produtividade da Coreia do Sul era igual à brasileira, levando em conta a renda per capita da população. A população dos dois países também tinha nível de escolaridade semelhante - era, em média, de apenas três anos de estudo. Nessas quase seis décadas, a Coreia do Sul elevou a escolaridade da população para 12 anos de estudo por habitante, enquanto a do Brasil é de 7,4 anos de estudo por habitante. Hoje uma linha de produção coreana monta 15 celulares por hora; em uma fábrica brasileira, são nove por hora. Resultado: a renda per capita coreana atual é o triplo da brasileira. "É impossível crescer e ser competitiva, se não houver um incremento na educação do se quadro funcional", diz Fernando Rossetti, do Gife.
2. Cinco razões para uma empresa investir em Educação
Para Fernando Rossetti, do Gife:

1 - A sociedade fica melhor e mais justa;
2 - Melhora a empresa;
3 - Melhora a mão-de-obra que a própria empresa consumirá no futuro;
4 - Melhora a democracia de um país;
5 - Potencializa o desenvolvimento econômico do país.
3. Quem é o investidor social brasileiro?
Segundo o Censo do Gife, o investidor do século 21 está se distanciando do assistencialista do século 20, cuja prática de tradição era a filantropia empresarial. O investidor de hoje está preocupado com os resultados obtidos pelos projetos, com o impacto gerado por sua ação social e com o envolvimento da comunidade no desenvolvimento da ação. Além disso, ele preza ações estruturadas, planejadas, de longo prazo e busca resultados mensuráveis, como melhora nos índices de avaliação como Ideb ou Enem. Além disso, ele não deseja substituir o Estado, mas preza trabalhar em parceria com gestores públicos para replicar o seu projeto em outras localidades.
4. Que atividades as empresas desenvolvem em Educação?
O Censo do Gife mostra que as ações prioritárias são atividades de formação e capacitação de professores (com 74,54% das ações), de diretores e pessoal administrativo (40%), à complementação da educação regular com oficinas de arte e esporte (54,54%), passando por doações de equipamentos e material escolar (41,8%). Um dos grupos que menos recebe investimento é o do ensino técnico e o da aceleração de aprendizagem. Dos 55 associados ao Gife que responderam a pesquisa, a maioria (94,5%) investe na melhoria da qualidade do ensino fundamental (7-14 anos). São 12 (21,8%) as empresas que investem no ensino técnico e sete (12,7%) que trabalham na aceleração de aprendizagem.
5. Como investir em Educação?
Primeiro, é preciso conhecer os números da educação no Brasil e informar-se sobre suas carências e deficiências. Para o economista Claudio de Moura e Castro, colunista de Veja e conselheiro do Educar para Crescer, o impacto maior do investimento privado na educação brasileira parece estar nos programas que ajudam as escolas públicas a fazer seu trabalho mais central. Ou seja, em projetos direcionados para a leitura, a escrita, a gestão de projetos. "Os programas privados que substituem a escola pública não têm porte para fazer diferença", diz o economista. E acrescenta: "Há muitos institutos, fundações privadas que criam programação adicional em colégios." Em escolas totalmente áridas de atividades interessantes, essas iniciativas extracurriculares podem ajudar, mas atrapalham se trazem ações que competem com os objetivos mais centrais da escola, que é a aprendizagem de conteúdos. "Afinal, para o aluno, é sempre mais divertido cantar, tocar, fazer capoeira do que aprender a ler e a escrever", diz o economista.
6. Onde investir?
Há inúmeras possibilidades de investimento, que se adaptam ao negócio do empresário do interior ao do presidente do grande conglomerado. Para chegar às escolas, procure secretarias de educação (do Estado ou do Município) ou entidades como a ONG Parceiros da Educação, que intermedeia contato entre empresários dispostas a investir e escolas que precisam de ajuda por meio do projeto Adote uma escola.

Entre as ações mais desenvolvidas, estão:

1) incentivo à Educação dos funcionários e dos filhos deles por meio de concessão de bolsas;
2) apoio às escolas – investigando com os beneficiários demandas específicas (doação de material, reforma na infraestrutura, formação de professor, curso de gestão);
3) promoção de concursos de redação ou de matemática com premiação dos melhores, ações que colaboram na promoção da leitura e da escrita;
4) construção de bibliotecas (com apoio do gestor público para que ele continue gerenciando o projeto após a saída da empresa);
5) apoio a projetos de ONGs de combate a evasão escolar e à escola integral;
6) programas de aceleração da aprendizagem.
7. Vale investir mesmo sob o impacto da crise?
Sim. Com planejamento, é possível iniciar ou continuar as atividades. A Embraer passou por duas crises: em 2001, pós 11 de setembro, quando as companhias aéreas sofreram com a queda no movimento de passageiros e decidiram suspender as compras de aviões, e em 2008, devido à escassez do crédito. O investimento no "colégio da Embraer", porém, não sofreu cortes nesse período. Hoje, o departamento social das empresas tornou-se muito mais importante - ao contrário da década de 90, quando eles eram vulneráveis às crises financeiras. "É também a parte que mostra como a empresa se relaciona com a sociedade, como ela se posiciona em relação ao mundo, como ela se preocupa com a vida que está ao redor dela. É uma ação que vai para além do marketing. O departamento social de uma empresa é a identidade da marca", diz Fernando Rossetti, do Gife.
8. Como medir o impacto do investimento?
Acompanhar sistematicamente os projetos desenvolvidos é a melhor forma de saber se o investimento está dando resultado e corrigir eventuais distorções. Afinal, aplicar recursos em ações que não fazem diferença é desperdício de tempo e dinheiro. Alguns investidores sociais privados optam por acompanhar o impacto de suas ações por meio de avaliações governamentais, como Ideb, caso da Fundação Bradesco. Outros desenvolvem sua própria metodologia. O Instituto Unibanco, a Intel, o Instituto Ecofuturo, por exemplo, contratam avaliadores externos para mensurar o impacto de seus projetos. Nesse caso, profissionais do Ipea, Fundação Carlos Chagas, Vunesp, Instituto Vox Populi e o Banco Mundial podem atuar como consultores. A Fundação Lemann criou ferramentas próprias de acompanhamento de projetos, com o apoio do INDG (Instituto Nacional de Desenvolvimento Gerencial). Já a Fundação Itaú Social, aproveitou a expertise do Itaú para desenvolver uma metodologia de avaliação de impacto social dos projetos. Há ainda quem combine os dois tipos de trabalho. A partir da avaliação, é possível compreender o valor da intervenção e determinar sua relevância, levando os resultados à maior escala. Experiências bem-sucedidas, avaliadas e sistematizadas podem ser replicadas e até transformadas em políticas públicas.
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