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Entrevista Gustavo Ioschpe

O economista, membro do conselho do Educar para Crescer, aponta os principais problemas da Educação brasileira


Educar

18/12/2008 20:46

Texto
Bruna Nicolielo

Foto: Cida Santos
Gustavo Ioschpe:

"Salário de professores não é problema"

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No fim da década de 90, Gustavo Ioschpe, então recém-saído da adolescência, estreou como colunista do caderno Folhateen, suplemento para adolescentes do jornal Folha de S. Paulo. Em um dos seus artigos, sugeriu a cobrança de mensalidades nas universidades públicas do país. A proposta incitou reação furiosa dos leitores e ele percebeu que esse era um nervo exposto, que merecia ser investigado, afinal a Educação universitária é apenas um nó do intrincado sistema educacional brasileiro. "Foi onde tudo começou", diz, sobre o episódio, que o motivou a aprofundar seus estudos na área.

De enfant terrible, Gustavo Ioschpe passou a economista requisitado em seminários e palestras por todo Brasil, apesar de continuar defendendo os mesmos temas polêmicos. Durante a entrevista à repórter Bruna Nicolielo, do projeto EDUCAR PARA CRESCER, ele fala sobre a inexistência de relação entre aumento de recursos e qualidade do ensino, entre outros mitos da Educação que ajudou a desconstruir.


Para ler, clique nos itens abaixo:
1. Como você vê o aumento de recursos temporária e emergencialmente, a exemplo do que fez a Coréia?
Gustavo Ioschpe: Dizem que o Brasil deveria investir 8% em Educação, mas de onde tiraram isso? Não há pesquisa empírica que respalde essa idéia. A maioria dos estudos não aponta uma relação direta entre a melhoria da qualidade da Educação e o aumento de recursos. O Brasil vem gastando, nos últimos dez anos, praticamente o mesmo que países desenvolvidos [destinamos 3,4% do PIB às escolas básicas, enquanto os países da OCDE, formada por países da Europa e pelos Estados Unidos aplicam 3,5% do PIB]. Eu adoraria que houvesse essa relação entre dinheiro e qualidade: bastaria só assinar um cheque ao fim de cada ano e a situação brasileira ia melhorar. Mas isso não é verdade.
2. Por que não avançamos, apesar do valor investido?
Gustavo Ioschpe: O problema do gasto brasileiro é que ele é muitíssimo mal distribuído. Há uma ineficiência brutal durante a distribuição os recursos, principalmente devido aos altos custos do ensino universitário. Na média, os países em desenvolvimento gastam com quatro vezes mais com um universitário do que com um aluno do ensino médio. Nas nações desenvolvidas, essa proporção cai para 1,7 aluno. No Brasil, um universitário custa o mesmo que 15 alunos do ensino médio! É desproporcional. O gasto com um universitário público brasileiro é proporcionalmente quatro vezes mais alto do que com um universitário das melhores escolas do mundo. Ou seja: não falta dinheiro, ele é muito mal gasto. E há o desperdício, para não falar em corrupção. Dinheiro também não é determinante para transformar o professor num bom educador. É preciso, portanto, redimensionar a questão dos salários. O aumento dos professores pode trazer benefício a eles -- mas não aos alunos. O mais urgente é fazer com que o professor chegue à sala de aula sabendo ensinar.
3. A formação deficiente dos professores é o principal mal da Educação brasileira hoje?
Gustavo Ioschpe: O que mais prejudica a performance dos docentes no Brasil é um sistema que despreza talentos individuais e resultados acadêmicos e forma professores com uma mentalidade equivocada. De acordo com uma pesquisa da Unesco, enquanto apenas 9% consideram ser prioritário "proporcionar conhecimentos básicos" aos alunos, a maioria prefere "formar cidadãos conscientes". É preciso investir em treinamento e qualificação de professores. Todos os censos educacionais e testes de professores mostram que a qualidade e o domínio da matéria é baixíssimo. Em muitos casos, não estatisticamente diferente do conhecimento dos próprios alunos, especialmente nas regiões mais pobres do país. Obviamente, essa é uma pessoa que não vai conseguir educar. Há também um falta de prioridade em relação à alfabetização. A impressão que passa é que a primeira série é aquilo que ninguém quer, o refugo. O professor mais novo, inexperiente, que não pode escolher onde e em que série trabalhar é colocado na primeira série. Já os professores melhores, com mais experiência acabam sendo "promovidos" para séries mais à frente. A conclusão é que os menos preparados são alocados para a área mais crítica que é justamente o começo do processo de alfabetização.
4. O que pensa da política de premiar os melhores professores por meio de bonificação?
Gustavo Ioschpe: Sou favorável. São Paulo implantou o bônus por desempenho, que premia toda a escola, com participação dos pais, para dar transparência ao processo. Assim, o diretor tem autonomia para decidir o que faz com o dinheiro. Pode investir em infra-estrutura ou premiar os professores, se possível. Mas não há estudos que comprovem a validade de bônus individuais, concedidos a apenas um professor.
6. Como ver as avaliações?
Gustavo Ioschpe: As avaliações representam um grande avanço. O primeiro passo para melhorar a Educação brasileira é dimensionar nossos problemas.
7. Que soluções de curto prazo podem ser adotadas?
Gustavo Ioschpe: As primeiras são aqueles processos auxiliares ao próprio ensino, mas que são muito importantes e que todas as pesquisas demonstram ter muito resultado. Garantir infra-estrutura mínima, ter banheiro, ter luz, ter água encanada, ter quadro-negro. É difícil conceber isso, mas muitas escolas brasileiras não têm quadro ou carteiras. Isso se resolve injetando recursos no lugar certo. Há também medidas emergenciais do próprio sistema educacional, como cursos de aceleração de aprendizagem, de alfabetização rápida, que duram de três a seis meses, que podem ser implantados com rapidez e vão ter um impacto grande. Dito isso, é importante dizer que não há soluções mágicas para a Educação. Educação é um processo intergeracional, quer dizer, de todos os fatores, a variável mais relevante e que com mais exatidão prevê o desempenho educacional da criança é a educação dos pais. E esse é um processo que demora gerações. É preciso um esforço continuado de dez, vinte anos; mexer em questões como qualidade do ensino e dos cursos de preparação de professores. Enfim, dá para melhorar agora, mas um salto só vai ocorrer com trabalho continuado e muito focado em questões que não dá para resolver via decreto.
8. Porque a cobrança de mensalidades em instituições públicas de ensino superior enfrenta resistência no Brasil?
Gustavo Ioschpe: No perfil de renda dos alunos das universidades públicas, uma grande parte poderia pagar. Como essa elite vai para cursos com boa aceitação no mercado, ela terá um grande aumento de renda privada como fruto dessa Educação subsidiada. As pessoas que recebem este benefício pertencem à elite brasileira, têm poder político e econômico. Ao invés de diminuir o fosso, a Educação no Brasil aumenta a desigualdade, respondendo sozinha por 50% da diferença de renda no País. É chocante. Nos outros países, à medida que o sistema educacional é ampliado, como na Coréia do Sul, a desigualdade diminui. Aqui foi o contrário. Nisso, a questão universitária é um nó muito importante. Hoje, não há demanda da sociedade por Educação de qualidade.
9. A solução da questão educacional depende de iniciativa da sociedade?
Gustavo Ioschpe: Sim. Hoje, temos uma elite satisfeita em gerar lucros, colocar os filhos na escola privada, mas que não vê que o mundo está evoluindo. A China passou a taxa de matrícula universitária de 6% para 15% em quatro anos. E eles têm um bilhão de habitantes. Nós estamos com menos de 20% há 20 anos. Como vamos competir com esses países? Se antes não dava para competir com os países ricos, agora nem com a China nem com a Índia.
10. Você desmontou mitos como a falta de relação entre aumento de salário do professor e qualidade da Educação. Como chegou a essa conclusão?
Gustavo Ioschpe: Ao dizer que um professor ganha muito ou pouco, é preciso balizar essa questão. Para isso, basta comparar o salário dos professores com o salário de outras categorias profissionais, considerando o maior número de características em comum. Quando isso é feito, levando em conta nível educacional, idade, sexo, enfim, todas características mensuráveis, o que transparece é que não há diferença de salário dos professores para os não-professores, eles ganham basicamente a mesma coisa. Ao englobar outros fatores além do salário (pensão, aposentadoria, estabilidade no emprego, férias), o que se nota é que os professores ganham proporcionalmente mais do que as outras categorias. Mas os professores devem conduzir o processo educacional brasileiro, é preciso reforçar a importância que têm para a educação e para o Brasil. Não é questão de dizer se ganha de mais ou de menos, mas que salário não é o problema. Ao avaliarem o efeito que o aumento no salário dos professores havia causado no desempenho dos estudantes, centenas de pesquisas chegaram a um consenso: elevar a remuneração não fez melhorar os resultados na sala de aula. Da própria experiência brasileira, é possível extrair conclusão semelhante. Basta analisar o que ocorreu depois da melhora no salário dos professores, proporcionada pelo antigo Fundef (o fundo para a Educação que foi substituído pelo atual Fundeb), desde 1997. Nesse caso, enquanto a remuneração dos docentes melhorou, as notas dos alunos despencaram nos exames nacionais conduzidos pelo Ministério da Educação.
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