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AVALIAÇÃO

As lições da Blanca

Trabalho em equipe é a receita do sucesso da melhor escola estadual de 1ª a 4ª série da cidade de São Paulo, segundo o Idesp


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23/04/2009 17:32

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Marina Azaredo

Foto: Cida Souza
Foto: Escola

Segundo a vice-diretora Solange Ribeiro, os diferenciais da Blanca são: trabalho em equipe, professores dedicados, foco na aprendizagem e pais presentes

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Quem entra na Escola Estadual Professora Blanca Zwicker Simões vê reproduções de obras de arte na parede. O ambiente é limpo, organizado. No pátio, crianças brincam, correm, gritam. Apesar de aparecer igual a outras instituições, a Blanca tem um diferencial: foi a escola de 1ª a 4ª série da cidade de São Paulo com melhor desempenho no Idesp (Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo), que avalia as escolas estaduais do Estado e atribui nota de 0 a dez.

Localizada no Jardim Anália Franco, na zona leste da capital paulista, a Blanca tirou 6,37 no Idesp, exame que combina o desempenho dos alunos no Saresp (Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo) e fluxo escolar. A segunda colocada ficou com 6,12 e a última, com 1,08. A meta da Secretaria de Estado da Educação é que o ciclo de 1ª a 4ª série atinja a nota 7. Falta pouco, portanto, para a Blanca chegar lá. Se continuar no mesmo ritmo, tudo indica que atingirá a meta em breve - o desempenho da escola tinha ficado em 5,92 em 2007. Mas o que ela tem de diferente? "Trabalho em equipe, professores dedicados, foco na aprendizagem e pais presentes", responde a vice-diretora da escola, Solange Ribeiro, que respondia pela direção, durante licença de Edy Baldassi, diretora desde 2002.

Cerca de 32 dos 40 professores da escola são efetivos, o que significa baixa rotatividade - esse fator é importante sobretudo nas séries iniciais do Ensino Fundamental, quando uma única professora fica responsável por cada turma. "O trabalho continuado e em equipe, tanto da direção como dos professores, é o diferencial da Blanca. Foi essencial para o bom desempenho", afirma a coordenadora pedagógica Marta Rezende.

Com 970 alunos, a escola tem sala de informática - com 15 computadores recém-adquiridos pelo governo estadual -, sala de leitura, sala para as aulas de artes e sala de vídeo. O uso do uniforme é obrigatório. Uma psicóloga visita o colégio uma vez por semana para atender cerca de 20 alunos com dificuldades de aprendizagem. O serviço é fruto de uma parceria com o posto de saúde da Vila Formosa.

Segundo a direção e a coordenação pedagógica, o bom desempenho no Idesp se deve, em grande parte, ao foco na aprendizagem e à análise dos resultados do Saresp. "A partir disso, levantamos as dificuldades das crianças e fizemos um trabalho voltado para a produção de textos, com base nas metas do governo.", afirma Marta, que garante que as crianças não saem da Blanca sem saber ler e escrever. "Para isso, eu me desdobro", conta a professora Lili, como Roseli Marques é chamada carinhosamente pelos alunos. Ela trabalha há 13 anos na escola, dez deles só na 1ª série, fase crucial para a alfabetização das crianças. Enquanto lê um livro de Ruth Rocha, os alunos observam-na atentamente. Depois da leitura, as crianças têm de identificar as consoantes e as vogais de uma tarefa.

Enquanto faz o exercício, Otávio, 6 anos, diz, sem pestanejar, que a escola é "muito legal". O motivo: "tem a professora Lili e as aulas de artes e Educação Física." O garoto é portador de necessidades especiais e não caminha, o que só dá para perceber quando ele levanta. Perfeitamente integrado à classe, conversa com os coleguinhas e é um dos mais participativos da sala. "Trabalhei em um colégio privado e, lá, via que as crianças especiais não eram tão integradas e bem tratadas como são aqui", afirma a administradora de empresas Gisele Bayon Petricione, mãe de Isadora, 7 anos, que já passou por uma escola particular e agora freqüenta a 2ª série da Blanca. Gisele é uma mãe participativa, como é a maioria dos pais de alunos da escola. "Podemos contar com os pais para tudo. São poucos os que não participam", conta a professora Roseli.

Além de um estímulo para os professores e funcionários, que recebem bônus de acordo com o cumprimento das metas, o primeiro lugar no ranking é motivo de orgulho para os alunos, diretamente responsáveis pelo bom desempenho. "É muito legal estudar em uma escola que ficou famosa por ser boa, uma grande responsabilidade", diz Jéssica, 9 anos, aluna da 4ª série. Orgulhosa, ela conta que nunca tirou uma "nota vermelha" e que, no ano que vem, deve ir para uma escola particular, já que a Blanca atende só até a 4ª série. Como está localizada em um bairro de classe média alta, a escola atrai crianças de famílias estruturadas e com bom padrão de vida, vindas de colégios privados. Por isso, muitos acreditam que um desempenho tão bom não poderia ser replicado em escolas da periferia. Mas só isso não explica o bom resultado no Idesp. A apenas 2,4 quilômetros dali, a Escola Estadual Professor André Xavier Gallicho ficou com 3,55, nota mais alta do que a média do município, que foi 3,09, mas bem mais baixa do que os 6,37 da Blanca.

Quem visita a Blanca realmente não vê nada de diferente em relação às outras escolas. Não há professores ganhando altos salários, tecnologia por todo lado ou pais pagando mensalidades exorbitantes. O que prova que qualquer escola pública pode chegar lá.

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