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ENEM

O boletim dos campeões de São Paulo

Professores bem preparados, cobrança e mais tempo de estudo para os alunos fazem a diferença


16/04/2008 16:02
Texto Camila Antunes
Veja-Sao-Paulo
Foto: Dreamstime
Foto: Sala de aula do Colégio Vértice
Em 2011, Enem pode ter 6 milhões de inscritos, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep)

A cultura dos rankings invadiu um espaço tradicionalmente avesso à competição: a escola. No discurso-padrão dos educadores, não seria justo confrontar instituições egressas de realidades distintas como o campo e a cidade ou mesmo as públicas e as particulares. Também se evita premiar os melhores alunos para não expor os fracassos ou, supostamente, constranger os piores. Por isso, houve muita chiadeira quando o Ministério da Educação passou a divulgar, em 2006, as notas de quase 23 000 colégios brasileiros no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Pais de alunos ganharam uma série de tabelas com as quais podem avaliar o desempenho da escola de seu filho em relação à média de ensino do país, do estado e da cidade, podendo compará-la com outras concorrentes. Não é, claro, o único critério a observar na hora de matricular o filho. Localização, preço da mensalidade e método de ensino, entre outros fatores, precisam ser levados em conta. Mas a classificação é sempre um bom termômetro.

O resultado do Enem é obtido por meio das notas recebidas pelos alunos do 3º ano do ensino médio em duas provas: uma de redação e outra de conhecimentos gerais, com questões de múltipla escolha. Na média, os colégios da cidade atingiram 54,1 pontos de uma escala de zero a 100. O resultado foi pouco superior à nota nacional (51,3) e à estadual (52,7). Mais uma vez, expôs o abismo que separa o ensino público do privado. A pior escola particular no ranking superou 75% das estaduais. A melhor estadual, por sua vez, aparece em 336º lugar (sem contar as técnicas e os colégios ligados a universidades). Entre as dez escolas que encabeçam a lista do Enem 2007, duas são públicas. Ambas oferecem ensino técnico: o Centro Federal de Educação Tecnológica de São Paulo (Cefet), localizado no Canindé, e a Escola Técnica Estadual de São Paulo (Etesp), instalada no campus da Faculdade de Tecnologia de São Paulo (Fatec), no Bom Retiro. As duas ilhas de excelência mantêm um corpo docente bem preparado e realizam provas de ingresso concorridíssimas, com até dezoito candidatos por vaga. "O vestibulinho seleciona os alunos que gostam de estudar", afirma o diretor da Etesp, Carlos Augusto de Maio. "Ainda que pertençam a famílias carentes, eles querem fazer uma universidade e conseguem."

Veja as dez melhores: Vértice, Bandeirantes, Móbile, Santa Cruz, Agostiniano Mendel, Etapa, Palmares, Cefet-SP, Albert Sabin, Etesp

Do boletim das escolas particulares campeãs, retira-se uma lição: para ensinar bem não é preciso lançar mão de idéias mirabolantes. Provas regulares, em muitos casos semanais, e a exigência de que o aluno estude ao menos duas horas sozinho em casa são medidas simples que funcionam. Aulas extras e plantões de dúvidas fazem com que ele se esforce mais. Chama atenção a valorização dos professores. No colégio Móbile, seu salário médio é de 9 400 reais. No Santa Cruz, os professores dispõem de um plano de previdência para aposentadoria integral.

Cerca de 115 000 estudantes se submeteram à primeira prova do Enem, em 1998, sem a divulgação dos resultados de cada escola. No ano passado, foram 2,7 milhões. A participação, voluntária, disparou à medida que universidades passaram a integrar a nota dos alunos em seus processos seletivos. Foi o caso da USP, em 2000, e das faculdades conveniadas ao Programa Universidade para Todos, o ProUni, em 2004. "Conheço muita gente que passou na USP porque à nota se somou 1 ponto ou 2 ganhos do Enem", conta o estudante Eduardo Zuker, do Colégio Rio Branco. Na semana passada, o garoto se reuniu com a mãe, Beatriz, e a diretora do colégio, Esther Carvalho, para uma conversa sobre o desempenho do Rio Branco no Enem. "Estranhei não o ver entre os melhores", diz Beatriz. No ranking de 2007, ele está na 47ª posição. "Apesar de o índice de acerto ter subido para 70%, muitos alunos não fizeram a redação, que é optativa, e aí caímos no ranking geral", explicou a diretora. Cobranças como essa entraram para a rotina das escolas. A aluna Vivian Cyrne, de 17 anos, prometeu ao pai uma explicação convincente da classificação do Dante Alighieri em 36º na tabela. "Meu pai acompanha de perto meus estudos", diz. "Ele exige nota 7, mesmo que a média da escola seja 5."

Há quem use o Enem para mudar de colégio. O estudante Diogo Figueiredo Ferraz, de 15 anos, escolheu o Vértice após ler notícias sobre sua primeira colocação no Enem. "Visitei cinco das dez melhores escolas para saber qual combinava mais com meu perfil", lembra. Diogo conta que se sente desafiado a progredir. Perde, no entanto, três horas nos deslocamentos entre sua casa, em Santana, e o Campo Belo, onde fica a escola campeã. Além disso, a mensalidade é 700 reais mais cara que a do antigo colégio. "Vou recuperar o investimento na universidade gratuita", afirma ele, que sonha ser promotor de Justiça.

Veja as dez melhores: Vértice, Bandeirantes, Móbile, Santa Cruz, Agostiniano Mendel, Etapa, Palmares, Cefet-SP, Albert Sabin, Etesp


 

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