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ENEM 2010

Os problemas do Enem 2010

A prova nacional unificada ao término do ensino médio é vital para melhorar a educação no Brasil. Descentralizada e com aplicação racional, ela terá futuro - sem agonias nem frustrações para os estudantes


19/11/2010 13:38
Texto Roberta de Abreu Lima
Veja
Foto: Hans Von Manteuffel
Foto: Protestos contra o Enem 2010
O Enem 2010 ficou marcado por protestos contra falhas no exame

Aplicado pelo Ministério da Educação a 3,3 milhões de estudantes brasileiros, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), substituto do vestibular em centenas de universidades públicas e particulares do país, tornou-se outra vez o epicentro de angústias e indefinições. Na semana passada, depois de experimentarem a ansiedade e o nervosismo típicos de momento tão decisivo, os alunos se viram às voltas com a possibilidade de ter de enfrentar novo exame, um tormento. Em todo o episódio, espanta o amadorismo.

Um equivocado enunciado recomendava a todos os estudantes que preenchessem a folha de respostas na ordem errada, sendo que em 30 000 cadernos havia ainda questões duplicadas ou a menos. São falhas que seriam facilmente flagradas por uma equipe de revisores. Elas acabaram por induzir estudantes ao erro. A Justiça Federal chegou a requisitar a anulação do exame, mas o MEC conseguiu reverter a decisão. Vai aplicar outra prova para os que ficaram com os exemplares defeituosos e corrigir os gabaritos na ordem inversa para aqueles que assim o solicitarem. Aspirante ao curso de veterinária, a curitibana Bárbara Souza, 17 anos, resume o sentimento que fica: "O Enem virou sinônimo de trapalhada".

Sem patriotada, é o caso de torcer para que esses erros sejam banidos e que o Enem continue. É ótimo para o Brasil que haja um exame nacional unificado ao término do ensino médio. As soluções para que o Enem sobreviva e se imponha aos erros existem. Elas passam pela simplicidade. O fato de ser nacional e unificado não significa que o Enem exija uma logística de guerra, com vigilância feita pelo Exército e a distribuição sincronizada pelos correios. Essa megaoperação é que abre flancos para os erros. É preciso descentralizar o Enem. Um exame mais tradicional e bem-sucedido, o americano SAT é aplicado sete vezes por ano em qualquer parte do território. O aluno o faz quantas vezes quiser e fica com a maior nota. Um banco de questões permite que sejam montadas provas diferentes, mas com poder igual de aferição de conhecimento e habilidades. O Enem precisa e deve sobreviver em bases mais racionais e sem a mentalidade faraônica de "nunca antes neste país".

O ministro Fernando Haddad afirmava que, como a maioria dos estudantes havia sido advertida dos erros a tempo, pouca gente fora lesada. É uma verdade estatística. Mas não existe cálculo que dê conta da agonia criada pelo episódio não apenas para os alunos prejudicados, mas para todos os que se submeteram às provas. Muitos contam que só foram avisados sobre o erro da folha de respostas uma hora depois de iniciada a prova (e já tendo assinalado parte das questões). Outros perderam tempo precioso até que os fiscais os orientassem sobre como proceder. Questionados pelos jovens, eles apenas respondiam: "Preciso ligar para Brasília e me informar". Como reparar o prejuízo desses estudantes? É uma resposta que o MEC ainda não tem. Por tudo isso, os danos causados pela inépcia das autoridades não são desprezíveis - muito menos aceitáveis.

Cabe indagar como o grupo de técnicos incumbido pelo MEC da revisão de todo o material deixou escapar equívocos tão primários. Ainda que parte dos erros tenha ocorrido na gráfica, é da responsabilidade do Inep, órgão do ministério à frente das avaliações oficiais, zelar pela integridade do Enem. A incapacidade de fazer isso reflete, afinal, deficiências bem básicas do instituto. Há ali flagrante escassez de técnicos e, a uma parte deles, falta treino e experiência para lidar com a execução de uma prova de tamanha envergadura. "Não existe no Inep gente em número suficiente para equacionar as complexas questões logísticas do Enem", diz um graduado ex-funcionário, que permaneceu no órgão por duas décadas. É de espantar. No ano passado, tais fragilidades já haviam ficado evidentes quando a condução mambembe do Enem culminou no vazamento da prova - surrupiada da gráfica sob os desatentos olhos dos representantes do MEC. Refazer todo o processo custou 40 milhões de reais. A julgar pelas confusões da semana passada, pouco aprendizado se extraiu do episódio.

Do ponto de vista técnico, os especialistas são unânimes em afirmar que o Brasil tem muito que depreender da experiência internacional para tornar o Enem menos suscetível a erros. Ao aplicar uma única prova a todos os estudantes e centralizar sua gigantesca logística num órgão oficial, o Brasil caminha em direção inversa à de países que primam pelo bom ensino (veja o quadro na pág. 92). A existência de um exame único traz outro efeito colateral, este no campo acadêmico. Em muitos países, há provas diferentes para distintas áreas de conhecimento. O aluno pode escolher os testes a que vai se submeter de acordo com as exigências das universidades que almeja. Nesse modelo, não se espera do estudante que absorva um repertório colossal de matérias, mas que domine bem os temas mais ligados à futura profissão. Isso tem funcionado como um poderoso incentivo às escolas, que podem assim implantar currículos menos rígidos e cheios de disciplinas eletivas. "Com tantos jovens brasileiros abandonando a escola, isso poderia tornar o ensino mais atraente", conclui a especialista Maria Helena Guimarães.

Criado em 1998 para avaliar o desempenho dos jovens às vésperas da universidade, o Enem passou a abranger mais conteúdo no ano passado. O objetivo era substituir o velho vestibular por uma prova que priorizasse o raciocínio lógico em detrimento da decoreba, uma boa medida. A ideia de que o aluno faria uso de uma mesma nota para tentar o ingresso em várias instituições também parecia acertada, por seu potencial de reduzir o estresse da tradicional maratona do vestibular. Facilitar a vida do estudante numa fase de tantas expectativas é uma boa intenção, mas a iniciativa submergiu em meio à sucessão de trapalhadas do Enem. Na semana passada, o carioca Guilherme Costa, de 17 anos, que sonha cursar engenharia da computação, desabafava: "Foi um sufoco".

Para ler, clique nos itens abaixo:
Um histórico de problemas
Os erros em torno do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), aplicado pelo Ministério da Educação a 3,3 milhões de estudantes na semana passada, expõem a desorganização e o amadorismo que acompanham a prova desde 2009 - quando ela passou a substituir o vestibular em centenas de universidades brasileiras.

Setembro de 2009

Vazamento da prova

Funcionários da gráfica que imprimia o Enem furtaram um exemplar da prova e o conteúdo veio a público antes de sua aplicação. Refazer o exame custou 40 milhões de reais

Agosto de 2010

Vazamento de dados sigilosos dos alunos

Por uma falha no sistema do Inep, o órgão do MEC responsável pelo Enem, dados pessoais de 12 milhões de estudantes ficaram disponíveis na internet por cerca de três horas

Novembro de 2010

Cabeçalho invertido

O enunciado de todos os 3,3 milhões de provas instruía os alunos a preencher a folha de respostas na ordem errada

Falhas na impressão

Mais de 30 000 provas traziam perguntas repetidas ou questões a menos

Problemas de conteúdo

Erros conceituais e imprecisões no enunciado atrapalharam a resolução de certas questões. A prova de história afirmava que a abertura dos portos no Brasil ocorreu em 1810, quando data de 1808

Para entender o Enem
Quando surgiu: 1998

Como era

Uma prova anual criada pelo MEC com o objetivo de aferir a capacidade de interpretação de textos e o raciocínio lógico dos estudantes ao final do ensino médio. Tinha 63 questões e uma redação

Como ficou

Em 2009, a prova triplicou de tamanho e passou a contemplar todas as disciplinas com o intuito de se tornar uma alternativa ao vestibular

Quem adota

Mais de 1 000 universidades federais, estaduais e particulares em todo o país. A metade delas soma a nota do Enem à de seus próprios concursos, compondo assim uma média. Em 83 instituições públicas, o exame substituiu o vestibular, pelo menos numa parcela dos cursos (USP e Unicamp ficaram de fora)

A lição internacional
O Brasil vai na contramão dos países de melhor nível educacional ao aplicar uma única prova a todos os estudantes egressos do ensino médio e centralizar sua execução e logística em um órgão oficial - o que torna o exame mais suscetível a falhas

ESTADOS UNIDOS

O Scholastic Assessment Test (SAT), exame centrado no raciocínio lógico e na escrita, é oferecido sete vezes por ano, aplicado por dezenas de instituições credenciadas e, na maioria das vezes, realizado on-line (o que elimina a necessidade de impressão). Um banco de itens permite montar uma enorme variedade de provas

FRANÇA

O Baccalauréat é pré-requisito para o aluno conseguir o diploma escolar. Há dezenas de versões da prova, subsidiadas por um gigantesco banco de dados. O conteúdo varia muito conforme a área em que o estudante planeja se especializar

INGLATERRA

O General Certificates of Secondary Education (GCSE) também é condição para que o aluno receba o diploma escolar. Um teste de inglês, matemática e conhecimentos gerais, aplicado por cinco instituições, é obrigatório. Há mais de quarenta tipos de exame que contemplam as outras disciplinas, todos facultativos. Os alunos se inscrevem de acordo com a área em que pretendem atuar



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Marina Silva, Martha Medeiros, Nelson Motta e outras personalidades brasileiras revelam o impacto de uma boa Educação no futuro



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